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MISSÃO DA VIDA RELIGIOSA CONSAGRADA JOVEM NA AMAZÔNIA 2019

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O Projeto

A “Missão da Vida Religiosa Consagrada Jovem na Amazônia” é um projeto do Setor Juventudes e Novas Gerações da Conferência dos Religiosos do Brasil (CRB) que, desde 2015, tem convidado e provocado os religiosos e religiosas jovens das diversas congregações e ordens, a partir da etapa do Juniorato, a realizarem uma experiência missionária em terras amazônicas. Tal ação tem como objetivo fazer crescer o grande ardor missionário despertado no chamado à Vida Consagrada, oportunizando conviver, conhecer, aprender e trocar experiências na realidade da Amazônia, o que ajuda a criar uma consciência mais aberta da Igreja para além dos “limites” de suas congregações.

Afinal, é muito válido perguntar: o que você sabe sobre a realidade pastoral da Igreja Católica na Amazônia e dos desafios enfrentados pelos povos da região?

Comecemos então fazendo uma breve recordação da história da caminhada deste bonito projeto da Missão da VRC Jovem na Amazônia.


Lugares da Missão visitados pel@s missionári@s desde 2015 a 2019

A Missão da VRC Jovem tem percorrido diferentes lugares da região Amazônica de acordo com o convite recebido por parte dos bispos, em parceria de trabalho com os Núcleos das Regionais da CRB. Inicialmente, em 2015, a acolhida da Missão foi feita pela Diocese de Santarém. Um projeto ainda tímido, mas que já apresentava todo potencial para ser uma iniciativa que daria muitos bons frutos.

Nos anos de 2016 e 2017, a responsabilidade da experiência missionária foi feita pela Diocese de Macapá. Em 2016, durante a Semana Santa, quinze missionários e missionárias se fizeram presentes em algumas comunidades das cidades de Tartarugalzinho-AP e Mazagão-AP.

Já em 2017, no período de 06 a 16 de abril, na região das ilhas, outros vinte e oito missionários e missionárias viajaram uma longa distância de barco até as comunidades ribeirinhas da Paróquia Nossa Senhora dos Navegantes, localizada no município de Santana-AP.

Em 2018, a convite do Bispo Dom Evaristo Spengler, ofm, da Prelazia do Marajó, a Missão aconteceu nas comunidades ribeirinhas da Paróquia Menino de Deus, do município de Anajás-PA, como carinhosamente nos relatou a querida Irmã Ana Marta da Silva (cf. SILVA, 2018), religiosa canossiana que participou da missão naquele ano. Naquele ano, a participação dos missionários foi maior que no anterior: trinta jovens aceitaram o convite da Missão!

Em 2019, já na quinta edição, tendo recebido novo convite de Dom Evaristo, o lugar de realização da Missão foi em Breves-PA, município também localizado no arquipélago do Marajó. Seu pedido era que a Missão fosse realizada nas comunidades ribeirinhas da Paróquia Nossa Senhora Santana, localizadas no Rio Tajapuru e em alguns dos seus afluentes.

A Missão em Breves-PA contou com a participação de 43 missionários e missionárias, provenientes das mais variadas regiões do Brasil e oriundos de 28 congregações diferentes, número este que muito surpreendeu as expectativas da equipe organizadora. Representantes da Cáritas Brasileira também se juntaram ao grupo no intuito de organizar dados concretos sobre a região para fomentar trabalhos e projetos na defesa dos direitos humanos, da segurança alimentar e do desenvolvimento sustentável solidário.

Ainda em Belém-PA, tod@s participaram de uma formação acerca da realidade eclesial, social, geográfica e econômica do arquipélago marajoara. Foi um dia inteiro de palestras e orientações em preparação aos dias de missão. Porque, de fato, muitos poderiam se perguntar: “Mas por que a missão no Rio Tajapuru?”

Para quem desconhece, as águas do Rio Tajapuru, que banham cidades como Breves, Melgaço, Portel, Anajás e Chaves são o cenário para uma triste realidade do Marajó: a exploração sexual infantil dentro das embarcações. Muitas vezes incentivadas pelos próprios pais, crianças das comunidades ribeirinhas saltam de balsa em balsa em troca de alimento, dinheiro ou óleo diesel. Sabe-se que essa situação não é de hoje, pelo contrário, acontece há anos na região, cujas crianças são conhecidas como “meninas e meninos balseiros”. Nesse contexto, o papel da Igreja Católica tem sido de grande relevância contra essa exploração, e luta para livrar essas crianças de um futuro desumano.

No total, foram visitadas 39 comunidades nesta Missão. Valeu a coragem e a criatividade d@s missionári@s para que a missão pudesse ser, de fato, um encontro evangelizador, tanto para quem estava visitando quanto para quem estava sendo visitado.

Para refletir, rezar e buscar agir

Costumo dizer que quem nunca pisou na Amazônia, infelizmente, passa a acreditar somente nas informações e documentários que vê na televisão. Santo Agostinho dizia que o mundo é um livro, mas quem fica somente em casa, ou seja, na sua zona de conforto, acaba lendo apenas uma única página dessa grande obra. Ora, sabemos que é diferente quando se vai até o lugar para conhecê-lo de perto, ou seja, é preciso fazer a experiência.

Para muit@s navegantes de primeira viagem até a Amazônia, o que se nota rapidamente, logo mesmo ao descer do avião ou do ônibus, é o calor da região Norte do nosso Brasil. E não há como não se admirar também com a imensidão dos rios e igarapés, a variedade de peixes, de frutas, de temperos, entre outras coisas. É a Amazônia e seus encantos.

Dito isto, podemos retomar a pergunta inicial: o que você sabe mesmo sobre a realidade pastoral da Igreja Católica na Amazônia?

Com certeza não é minha pretensão responder a essa pergunta com dados estatísticos, muito menos com uma enxurrada de informações de diversas áreas do conhecimento. Pelo contrário, tentarei partilhar com vocês o que tenho escutado de diferentes religiosos e religiosas, nesses três anos de minha participação na Missão da VCR Jovem, sobre o que “leram” do grande livro que é a região amazônica e o que aqueceu o coração de cada um@.

Eu sou filho da Igreja do Norte, natural de Belém do Pará, e reconheço que os povos da Amazônia têm uma força inigualável. Superam desafios de diversos tipos todos os dias com o coração cheio de esperança. Porém, mesmo em meio a tantos obstáculos cotidianos, os dias de missão são marcados pela acolhida fraterna das famílias, aproximação, simplicidade, despojamento e a escuta atenta dos clamores daqueles que moram naquela região.

As comunidades celebram a fé em Cristo Jesus nas ocasiões das Celebrações da Palavra, Círculos Bíblicos, reza do Terço, festa do padroeiro, entre outros encontros. A Celebração Eucarística, contudo, na maioria das comunidades, só acontece uma vez ao ano. E essa informação sempre surpreende muit@s missionári@s de primeira viagem. “Uma vez ao ano?!”.

Já percebi que uma fala é sempre recorrente nos depoimentos e partilhas de muit@s que fazem essa experiência da Missão na Amazônia: “eu pude contemplar um rosto de Deus”. Ou seja, em poucos dias de presença na região amazônica, é possível perceber que Deus se revela na beleza da natureza, na abundância das águas e riqueza de alimentos (o açaí, por exemplo). Deus pode ser contemplado nas virtudes do povo ribeirinho, sobretudo na acolhida, a sensibilidade, a partilha do pouco que têm que se torna muito, a sapiência não letrada, a paciência de esperar o movimento das águas e a serenidade.

Mas também encontramos inúmeras problemáticas sociais, muita pobreza, falta de postos de saúde, de segurança pública, educação de qualidade. Em conversas com as pessoas da região, é muito comum escutarmos sobre relatos de assaltos nos navios e nas balsas praticados pelos “piratas do Marajó”. Os casos de exploração sexual infantil que acontecem em muitas famílias e nas balsas também são incidentes lamentáveis registrados na região.

Ora, perceber as lutas, as angústias, mas também as alegrias, os sonhos do povo daquela região, faz acontecer uma mudança de percepção e compreensão no coração daqueles que nunca tinham estado na Amazônia. Percebe-se que moram pessoas lá! Dizendo assim pode parecer muito óbvio, mas essa é a primeira mudança de mentalidade ocorrida depois da experiência no contato com o povo amazônico. O que acontece é que muitas vezes esse povo é esquecido, desmerecido, deixado de lado nas políticas públicas, pouco valorizado.


A missão não pode parar

E não pode parar mesmo...! Como discípulos e discípulas missionári@s de Jesus, somos provocados todos os dias a não desanimar diante dos desafios e manter o coração sempre aquecido pelo Evangelho. O arquipélago do Marajó, ou melhor, a região amazônica como um todo, bem como outras regiões do Brasil e do mundo, necessitam bastante da presença da Vida Religiosa Consagrada.

Nesse sentido, o projeto da Missão da VRC Jovem tem ganhado força, também, por tudo que Deus tem realizado nos corações d@s missionári@s que já participaram. Nesse sentido, vale a pena dizer a outros irmãos e irmãs que a Amazônia carece da presença de mais religiosos e religiosas para estar ao lado de tais pessoas, simplesmente evangelizando com seu testemunho de vida e doação pelo Reino de Deus. Você mesm@ já pensou nessa possibilidade?

E você, superior/superiora da sua Congregação ou Ordem, faça esse convite a outros irmãos e irmãs para participarem dessa experiência missionária. Sair das fronteiras interiores sempre fará bem ao coração consagrado a Deus e aos irmãos.

Dessa forma, continuemos na Missão, com fé e coragem, desejosos de sermos sal e luz neste mundo, cheios da inspiração do Espírito. Afinal, a Vida Religiosa deve continuar sendo, hoje mais ainda, a loucura que Deus escolheu para confundir o mundo. Avante!

 

Frei Leandro Santos de Carvalho, OSA

Religioso-irmão da Província Agostiniana Nossa Senhora da Consolação do Brasil, natural de Belém do Pará. Atualmente compõe a Fraternidade Frei Marcelino Barrio, comunidade religiosa localizada em Chapada do Norte, Diocese de Araçuaí, região do Vale do Jequitinhonha (MG). Participou da Missão da VRC Jovem na Amazônia nos anos de 2017, 2018 e 2019.
E-mail: leandropa.carvalho@gmail.com

*Artigo publicado na Revista Vocacional editada pelo Instituto da Pastoral Vocacional do Perú (leia aqui) e na Revista Convergência, da CRB Nacional.

Referências:

SILVA, Ana Marta da. Experiência de inserção missionária na Prelazia do Marajó/PA. Revista da Convergência dos Religiosos do Brasil. Brasília, ano 53, nº 517, p. 31- 33, dez. 2018.

 

 

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