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dez/23

Existe razão na guerra?

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Dando continuidade à reflexão do nosso último artigo, gostaríamos de desenvolver algumas ideias que julgamos ser essenciais para a reflexão sobre como gerimos nossos conflitos (globais e locais). Para tanto, trataremos sobre o conflito entre Israel e Palestina para melhor explicitar nosso propósito.

Existem algumas pessoas que interpretam a origem do conflito entre Israel e Palestina como um desdobramento histórico que remonta a tempos imemoriais, como se esse conflito estivesse atravessando os milênios, e que culminará, um dia, num fim escatológico. Outros, por sua vez, atribuirão a esse conflito uma fundamentação religiosa, especialmente a partir de um mito fundador que é o “Reino de Israel”; logo, o que se tem hoje é uma reivindicação de uma promessa religiosa. Como são interpretações muito apregoadas em nossos meios de comunicação, é compreensível que muitas pessoas, ao se depararem com qualquer um dos argumentos que busquem justificar essas hipóteses, fiquem convencidas dessa crença.

Por isso, faz-se necessário uma escuta menos apressada e mais responsável. Dado que essas ideias não se restringem ao conflito, mas se materializam no confronto e, neste, vidas fenecem. Em alguns casos, os argumentos não são suficientes para lidar com o tema. Em outros, atribui-se uma complexidade tamanha que serve apenas para ocultar os fatos, e com isso desviar a atenção dos seus interlocutores. Há ainda situações em que o conteúdo apresentado é verdadeiro, no entanto, a forma é equivocada.

Por exemplo, há quem argumente que nunca existiu um Estado Palestino e, portanto, essa porção de terra não os pertence, visto que essa geografia sempre esteve sob o domínio de outros povos (egípcios; babilônicos; assírios; persas; etc.). De fato, esse conteúdo é verdadeiro, mas a forma é equivocada. Primeiro, porque, se partirmos desse pressuposto, teríamos que admitir o fato de que toda porção de terra já foi dominada por algum povo, logo, para saber a quem pertence legitimamente toda e qualquer porção de terra, bastaria recorrer à genealogia da sua ocupação. Segundo, porque os Estados Nacionais são uma invenção muito tardia (final do século XVIII e início do século XIX); portanto, não é razoável associar a legitimidade estatal a um argumento anacrônico.

Isso posto, buscar legitimar a propriedade da terra por uma razão simplesmente histórica, ou por um argumento fundacional de uma promessa religiosa, não é suficiente. Caso fosse, por que não devolver a gestão de nosso território aos seus povos originários? Por que valeria esse argumento para aquele território e não para todos os demais?

Os Estados Nacionais são uma invenção humana! Eles não são um dado da natureza ou resultado de uma promessa de qualquer divindade. Desse modo, esse conflito tem muito mais a ver com o arranjo internacional moderno do que com a história milenar daquele território ou de qualquer fundamentação religiosa. Embora toda sociedade possua o seu mito fundador (de cunho religioso ou filosófico), isso não deveria ser usado para legitimar uma dominação de um povo sobre outro nos nossos tempos. Sobretudo, depois do século XX, onde testemunhamos os horrores das guerras, e da subjugação de povos tidos como inferiores.

Dessa forma, é importante reforçar o óbvio. Urge olhar para o passado e aprender com ele. Seja num passado recente, em que testemunhamos um extermínio em massa de judeus e ciganos; ou num passado não tão distante, em que os estados europeus em suas colônias foram responsáveis pelo extermínio de um sem-fim de etnias, seja por subjugação dos povos e ocupação do seu território, seja pela escravização de alguns grupos étnicos simultaneamente ao estabelecimento de verdadeiros campos de concentração coloniais.

Exemplos não nos faltam para que possamos olhar com mais cuidado e responsabilidade para os nossos conflitos contemporâneos. Teses simplificadoras são sempre instrumentos para a manipulação da opinião pública. Interessa a manutenção dessa opinião a quem necessita de legitimidade para justificar os seus horrores.

Como, pois, podemos entender o conflito entre Israel e Palestina? Como fazê-lo sem incorrer em hipóteses simplificadoras ou argumentos labirínticos que nos põem desnorteados? A saída está na pergunta: o que é essa coisa chamada de Israel, e Palestina? Preliminarmente faz-se necessário decifrar o que se quer dizer de um e de outro.

Por Israel nos referimos ao Estado de Israel. Sua fundação remonta ao ano de 1948, ou seja, possui 75 anos de existência. Os seus limites geográficos correspondem a parte de um território conhecido como Palestina. Esse território estava sob o domínio do Império Turco-Otomano desde a sua quarta expansão (1512-20), e ruiu na primeira guerra mundial junto com os seus aliados, os impérios Austro-Húngaro e Alemão. Com sua queda, esse território se tornou um protetorado britânico (1922) que, por sua vez, necessitava de estabelecer um entreposto nessa região para que pudesse administrar seus espólios.

Para além do Estado Nação de Israel, outro elemento que causa muita confusão é a sua indissociabilidade do judaísmo. Muitos creem que o judaísmo é só e simplesmente uma religião. Essa simplificação desqualifica o que de fato é; o judaísmo é a forma religiosa de uma etnia, os judeus. Logo, ela não é uma religião como as outras religiões; não existe conversão ao judaísmo como no cristianismo. Visto que, para compartilhar dessa forma religiosa, faz-se necessário ser descendente de judeu.

Se os judeus são um povo etnorreligioso, não se pode confundir judeu como um gentilício. Isto é, não é possível se converter ao judaísmo ou tornar-se judeu, sem haver descendência; nem se pode nascer judeu simplesmente pelo fato de ter nascido num país judeu. Assim sendo, nascer de uma família judia no Brasil fará de um judeu um brasileiro; de outro modo, nascer em Israel não fará de um israelita um judeu.

Como vimos, o Estado de Israel é muito jovem, e antes de sua fundação os judeus nunca tiveram um Estado próprio, mas estavam, como ainda estão, espalhados em diferentes países. Foi apenas na virada do século XIX para o XX que um judeu nascido no Império Austro-Húngaro chamado Theodor Herzl (1860-1904) promoveu e organizou, como primeiro presidente, a Organização Sionista Mundial, em 1897. Herzl escreveu um livro intitulado “O Estado Judeu”, no qual ele propunha que os judeus de todo o mundo se reunissem num mesmo e próprio estado nacional independente. Ainda que nos pareça óbvio que o lugar a ser escolhido fosse aquele mesmo de sua tradição religiosa, a Palestina, outros foram considerados, inclusive em diferentes continentes.

Não obstante, a Palestina, que estava sob o domínio islâmico do Império Otomano (1300-1919), nunca proibiu a religião judaica, e era uma região onde os judeus recorrentemente encontravam refúgio contra a perseguição cristã, desde os tempos da Inquisição Ibérica (1478-1834) e durante toda a história do Império Austríaco (1526-1867), que era profundamente e radicalmente católico.

Logo, com a queda do Império Islâmico, o então ministro das relações exteriores Arthur Balfour declarou que a Coroa britânica autorizou o estabelecimento do povo judeu em parte da Palestina. Essa que ficou consagrada como “Declaração de Balfour”, feita no ano de 1917, estimulou uma imigração em massa de judeus do mundo todo para a Palestina. Essa ocupação, a convite da Grã-Bretanha, resultou em uma série de revoltas palestinas contra o governo britânico (1936-39), que, por diferentes motivos, renunciou à ocupação desse território em 1947.

Tão logo, a Organização das Nações Unidas (ONU) referendou o projeto britânico da criação de “dois estados”, um para os judeus e outro para os árabes. Tal resolução não foi realizada em todos os seus termos, dado que não houve a criação de um estado árabe na Palestina. E a criação por apadrinhamento do Estado de Israel pelas duas grandes potências mundiais da época, Grã-Bretanha e EUA, resultou apenas em conflitos bélicos que se escalaram ano após ano.

Em síntese, as causas da guerra entre Israel e Palestina não são tão obscuras como muitos defendem. Trata-se de um jogo simples de poder e supremacia internacional. A decisão de ocupar um território já habitado, a difamação da cultura árabe e a tentativa de se associar a irracionalidade e o terrorismo ao povo palestino, como se fossem pessoas de segunda categoria, inumanos, não é desproposital. É preciso convencer, com essas associações, a opinião pública para dar legitimidade à violência e aos horrores cometidos hoje pelo governo do Estado de Israel.

Antes de qualquer prejuízo, é preciso aclarar que, com essas observações, não estamos atribuindo ao povo judeu a responsabilidade pelo massacre do povo palestino. Essa responsabilidade recai sob o primeiro ministro israelense Benjamin Nentanyahu e seus cúmplices supremacistas, que executam civis de todos os gêneros e idades com argumentos frios e vis. Quem, diante de um horror, mata o agressor e a vítima com a desculpa de fazer justiça às vítimas? Ao mesmo passo, não se busca justificar os atentados contra a vida de judeus perpetrado pelo Hamas. É importante distinguir o povo palestino, composto por árabes, judeus, cristãos, dos terroristas.  

Ambos, judeus que imigraram para a palestina e palestinos, estão em meio a um dilema criado não por eles, mas por nações que estão estritamente interessadas em seus benefícios.

Muito teríamos que tratar sobre esse conflito, mas exigiria de nós novos capítulos para desenvolver todas as discussões necessárias. O que deve ficar desse nosso itinerário é a firme convicção de que, diante dos horrores contemporâneos, a vida exige de nós a coragem de defendê-la. Para tanto, é imprescindível tirar o véu que cobre os discursos e as razões dos povos e suas instituições. Isto é, as razões da guerra quase nunca são explicitadas por aqueles que a vencem, ou por quem a patrocina. Defender a vida, inclusive a do adversário, começa por desmistificar as razões para matar.

Frei Paulo Henrique Cintra, OSA
Comissão de Justiça e Paz e Cuidado com a Criação

* Publicação na coluna Pé no Chão do Jornal Inquietude On-line, em novembro de 2023.

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