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07
fev/20

Cuidar da Casa Comum é cuidar de si

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A consciência de um mundo mais integrado habita o imaginário da humanidade neste começo do século XXI. As relações estabelecidas entre os povos e o meio ambiente se transformaram em elementos fundamentais dos noticiários cotidianos, das propagandas oficiais dos governos e das nossas conversas informais. Estamos descobrindo que cuidar da nossa casa comum – que chamamos meio ambiente – faz parte do cuidado de si. E, que se quisermos aproveitar o pretenso progresso que conquistamos ao longo do século passado devemos rever nossa forma de ser e estar no planeta. A sustentabilidade e o desenvolvimento parecem ter se encontrado e fazem um esforço para conviverem no meio de nós.

Santo Agostinho, já no século IV da era cristã, trazia em suas reflexões pistas importantes para construirmos uma relação saudável entre o homem e a criação, como compreensão da realidade histórica do homem como parte da criação divina. “Possuamos as coisas terrenas sem deixar-nos possuir por elas. Que não se deslumbre sua multiplicação nem nos afunde sua carência. Vivamos bem com elas, sem fazer-nos nem seus servidores nem escravizá-las.” Carta 15, 2 de Santo Agostinho. Para este filósofo, a relação harmônica entre o homem e a criação de Deus se dá através de uma convivência que se (re) constrói a partir de duas ideias básicas: a ordem e a paz.

Para Santo Agostinho, a ordem é “a correta disposição das coisas semelhantes e diferentes, em virtude da qual cada uma delas ocupa o lugar que lhe é próprio.” Santo Agostinho in Cidade de Deus 19, 13, 1. A partir desta, o homem se locomove e se organiza frente a sua realidade terrena e transitória, respeitando o local e a finalidade de todas as coisas criadas por Deus. Desta forma, os homens e mulheres constroem na terra, não só o caminho que leva a pátria celeste, mas ela mesma aqui na cidade dos homens. As relações harmoniosas entre a natureza criada por Deus e a humanidade se expressa no uso consciente de seus recursos e a preservação de sua existência, fazendo-se, assim, fundamental para o cumprimento da vontade de Deus e garantindo a continuação da espécie humana peregrina neste mundo terreno. O estabelecimento desta ordem, produzida nas relações de cuidados entre os homens e o meio ambiente, resulta na paz que se reflete no conjunto da criação divina. “A Paz do corpo é a boa coordenação de seus membros. A paz da casa é o ordenando entendimento entre os que habitam nela. A paz da cidade terrena é o consenso ordenado entre seus concidadãos. A paz da cidade celeste é a ordenadíssima e agradabilíssima convivência entre seus cidadãos para gozar de Deus. E a paz de todas as coisas é a tranquilidade da ordem.” Santo Agostinho in Cidade de Deus 19, 13. Neste contexto reflexivo, a paz se apresenta como resultado do conjunto de consensos estabelecidos entre os homens para que todo o ecossistema partilhado por todos na cidade dos homens seja vivido em sua ordem e funcionalidade prescrita pela vontade divina. O esforço humano em cumprir a vontade de Deus se revela no estabelecimento saudável e fraterno das relações entre as criaturas criadas por Deus nos contextos das sociedades ao longo da história. O cuidado com a casa comum se concretiza quando a humanidade entende o seu chamado a ser construtora desta paz ordenadora da vida, fazendo com que ela tenha um sentido maior que os efêmeros fins da exploração promovidos pelos prazeres desordenados dos seres humanos.

“Quem são os pacíficos? Não os pacifistas, mas os promotores da paz.” Sermão 11,12 de Santo Agostinho. A promoção da paz, através da reivindicação da justiça e do direito de um ecossistema concebido como sujeito ativo das relações com a humanidade, deve ser a nossa reflexão neste novo século. Cuidar de si é cuidar do ecossistema que fazemos parte, ou seja, da casa comum a todos os povos, de diferentes línguas e credos. Promover a ordem da criação de Deus é promover a paz que nos garante a vida em abundância tanto da humanidade quando do planeta. O cuidado pacífico deste ecossistema é um dos principais caminhos para que possamos entrar em contato com o nosso interior, os homens, as mulheres e Deus, ou seja, toda a criação.

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