Vida e Obra de
Santo Agostinho

A vida de Santo Agostinho

Aurélio Agostinho (Santo Agostinho de Hipona), nasceu em Tagaste, na África mediterrânea, no dia 13 de novembro do ano 354. Filho de Patrício, pagão e funcionário público, e de Mônica, profundamente cristã, que depois se tornaria santa. Teve um irmão chamado Navígio e uma irmã, cujo nome pode ter sido Perpétua. Foi romano de cultura, idioma e de coração, mas não de estirpe. Conhecemos muito de Agostinho, primeiramente, através de seus próprios escritos, dos quais se destaca o livro “As Confissões”, obra de grande valor autobiográfico, filosófico, teológico, literário, místico e espiritual, na qual ele narra sua própria história de vida. Também na obra “Retratações”, escrita já nos últimos anos de sua vida (426-427), rica em informações documentais, teológicas e autobiográficas. Outra obra importante pela qual conhecemos Agostinho é a biografia escrita por São Possídio, seu amigo.

Estudante e professor

Aos dezessete anos Agostinho vai a Cartago, onde Romaniano, amigo de seu pai, o ajudou com a manutenção dos estudos. Durante três anos se dedica ao estudo e à leitura de livros, entre os quais destaca-se o “Hortênsio” de Cícero, que o marcou profundamente, levando-o a um amor pela sabedoria. Desiludido com a leitura das Sagradas Escrituras, aproximou-se da seita dos maniqueos, à qual pertenceu e seguiu por nove anos. 

Aos vinte anos volta a Tagaste como professor, com uma mulher e um filho, Adeodato. retornando pouco depois para Cartago. Seguindo sua busca por fama dentro do Império Romano e alimentado por suas ambições, deixou a África e tornou-se professor em Roma e, a seguir, foi para Milão, onde ganhou a cátedra de retórica da casa imperial e desenvolveu a atividade de professor de retórica. Também em Milão tornou-se “a voz do imperador”, ocupando um alto cargo na corte imperial. 

Agostinho sentia, apesar de tudo, seu coração vazio, inquieto. Não era feliz. Procurou a felicidade em muitos lugares, mas não a encontrava. Seu coração inquieto não achava a verdade e a paz que desejava. Sua mãe foi ao seu encontro em Milão e, com sua profunda vida de oração, animou-o a frequentar as pregações do bispo Santo Ambrósio.

Conversão

Foi uma longa caminhada e luta para transformar seu coração, até que certo dia, no ano de 386, meditando no jardim, ouve uma canção em voz de criança que diz “Tolle et lege” (Toma e lê) e tomando as Cartas de São Paulo lê: “Não é nos prazeres da vida, mas em seguir a Cristo que se encontra a felicidade”. As dúvidas se dissipam e é neste momento que culmina todo o processo de sua conversão. Encontrando Deus no seu coração achou a felicidade, a paz e a verdade que procurava. No ano seguinte, na Vigília da Páscoa é batizado.

Vida em comunidade e tarefa de bispo

Agostinho decide voltar a Tagaste, para morar com seus amigos, e entregar-se inteiramente ao serviço de Deus por meio da oração e do estudo. Mas no ano 391, em visita à cidade de Hipona, buscando um lugar para instalar um mosteiro, foi proclamado sacerdote pelo povo e ordenado sacerdote pelo bispo Valério. Fundando um mosteiro viveu com uma comunidade de Irmãos, como sacerdote, monge, asceta e estudioso.

Quatro anos depois (395) foi sagrado Bispo da cidade, daí o nome com o qual é conhecido: Agostinho de Hipona. Deixando o mosteiro, que se converteu em um centro que formou muitos sacerdotes e bispos para toda a África, foi viver na casa episcopal, fundando ali um mosteiro para os clérigos de Hipona. Se dedicou ao estudo das Sagradas Escrituras e dos Padres da Igreja.

Ele viveu em comunidade, tentando seguir o ideal das primeiras comunidades cristãs, na pobreza e na partilha (Atos 2,42-44). A comunidade eclesial de Hipona estava formada em sua grande maioria por pobres. Agostinho se fazia a voz destes pobres, falando por eles na Igreja, indo até as autoridades para interceder por eles e ajudando-os naquilo que podia.

Entre as funções que o bispo exercia estava a de administrar os bens da Igreja e repartir o seu benefício entre os pobres, também a de acolher os peregrinos, ser protetor dos órfãos e viúvas. Agostinho realiza todas elas como um serviço aos pobres e à Igreja. O bispo também exercia a função de juiz, tarefa que exerceu com objetividade, justiça e caridade. Também se ocupava da pregação aos sábados e domingos e durante a semana de atender ao povo em suas demandas. Cuidava da formação do clero, organizava os mosteiros masculinos e femininos, para os quais escreveu a Regra de Vida, administrava os bens eclesiásticos e visitava os enfermos.

Escritos e Obras

Agostinho escreveu muitas obras: um total de 113, sem contar as cartas – das quais se conservam mais de 200 – e os Sermões. A maior parte das obras de Santo Agostinho surgiram por causa dos problemas ou das preocupações que atormentavam a Igreja do seu tempo; é por isso que em suas obras estão presentes as polêmicas em que ele mesmo esteve envolvido, principalmente contra os maniqueos (seita da qual ele mesmo fez parte antes da conversão e que defendia um confuso dualismo cósmico – o bem contra o mal sempre em conflito um com o outro- e desvalorizavam de forma perversa tudo o criado), os donatistas (que atribuíam a eficácia dos sacramentos unicamente ao ministro, negando sua ação, como sinal eficaz da graça e ainda se consideravam a “Igreja dos santos”) e os pelagianos (que defendiam que o homem se salva por suas próprias forças, sem precisar da graça de Deus).

Além destas obras destinadas a combater os adversários e inimigos da Igreja, Agostinho escreveu outras de diversos conteúdo: no campo exegético (principalmente os Comentários ao Gênesis, São João e os Salmos), no dogmático (“Sobre a Trindade”), no Pastoral (“Sobre a Catequese dos simples”). Mas, dentre todas as obras, destacam dois pela genialidade: “A Cidade de Deus”, que representa a primeira tentativa de fazer uma interpretação cristã da história, e “As Confissões”, onde Agostinho manifesta sua fraqueza, que gera o mal, e a Deus, fonte de todo bem e Verdade absoluta; as “Confissões” são um louvor à Graça de Deus.

A obra e o pensamento de Agostinho ultrapassam os limites de sua época e exercem uma grande influência na Idade Média e na nossa época. A influência de Agostinho acontece nos diversos campos do pensamento, da cultura e da vida religiosa. Agostinho morreu no dia 28 de agosto do ano 430 e seus restos mortais, depois de longa peregrinação, descansam na cidade de Pavia, no norte da Itália.

Abaixo segue tabela com as obras com as quais Agostinho presenteou a humanidade:

DATASTÍTULO ORIGINAL (EM LATIM)ASSUNTO DA OBRA
386Contra academicosContra os céticos
386De beata vitaA vida feliz
386De ordineA ordem
386-387SoliloquiaSolilóquios
386-387De immortalitate animaeA imortalidade da alma
387-391De immortalitate animaeA imortalidade da alma
387-391De musicaA música
387-389De moribus ecclesiae catholicae et de moribus ManichaeorumCostumes da Igreja católica e dos maniqueus
387-388De quantitate animaeA grandeza da alma
388-395De libero arbitrioO livre arbítrio
389De magistroO mestre (O professor)
389-391De vera religioneA verdadeira religião
391De utilitate credendiUtilidade de crer
392-393De duabus animabus contra ManichaeosSobre as duas almas (contra os maniqueus)
393De fide et symboloA fé e o símbolo
393-394De sermone Domini in monteO sermão da montanha
395De continentiaSobre a continência
395De mendacioSobre a mentira
396De agone christianoA luta (esforço, empenho) do cristão
396-426De doctrina christianoA doutrina cristã
396-420Enarrationes in PsalmosComentários sobre os salmos
397-401ConfessionesConfissões
397-398Contra Faustum ManichaeumContra Fausto, o maniqueu
399De natura boniSobre a natureza do bem
399Contra Secundinum ManichaeumContra Secundino, o maniqueu
399-419De trinitateA Trindade
400De fide rerum quae non videnturA fé nas coisas invisíveis
400De consensu evangelistarumO consenso dos Evangelistas
400De opere monachorumO trabalho dos monges
400De catechizandis rudibusInstrução dos catecúmenos
400-401De baptismo contra partem DonatiSobre o Batismo, contra os donatistas
401De bono coniugaleO bem do casamento
401De sancta virginateA santa virgindade
401-415De Genesi ad litteramSobre a interpretação literal do Gênesis
406-430In evangelium Ioannis tractatusTratado do evangelho de João
410De urbis Romae excidioSermões sobre a queda da cidade de Roma
412De peccatorum meritis et remissione et de baptismo parvulorumO merecimento e perdão dos pecadores e o batismo das crianças
412-413De fide et operibusA fé e as obras
412De spiritu et litteraO espírito e a letra
413-427De civitate DeiA cidade de Deus
414-415De natura et gratiaA natureza e a graça
415-416De perfectione iustitiaeA perfeição da justicia
417De gestis PelagiiOs procedimentos de Pelagio
418De gratia Christi et de peccato originaliA graça de Cristo e o pecado original
418De patientiaA paciência
419-421De anima et eius origineA alma e suas origens
420Contra mendaciumContra a mentira
420-422De cura pro mortuis gerendaOs cuidados para com os mortos
421Contra IulianumContra Juliano
426-427RetractationesRetratações
428Contra MaximinumContra Maximino
428-429De praedestinatione sanctorumA predestinação dos santos
428-429De dono perseverantiaeO dom de perseverança
386-429EpistulaeCartas (270 cartas)
393-430SermonesSermões (390 sermões)

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Regra de Santo Agostinho

Introdução

Antes de tudo, caríssimos irmãos, amemos Deus e depois ao próximo, porque estes são os principais mandamentos que nos foram dados.

Capítulo I

O ideal fundamental: amor e comunidade

03. Em primeiro lugar – já que com este fim vocês se congregaram em comunidade – vivam unânimes em casa e tenham uma só alma e um só coração orientados para Deus.

04. E não possuam nada como próprio, mas tenham tudo em comum, e que o Superior distribua a cada um de vocês o alimento e a roupa, não igualmente a todos, pois nem todos são da mesma compleição, mas a cada qual segundo o necessitar; conforme o que podem ler nos Atos dos Apóstolos: “Tinham todas as coisas em comum e se repartia a cada um segundo a sua necessidade”.

05. Os que tinham algo na sociedade quando entraram para a casa religiosa, coloquem de bom grado à disposição da comunidade.

06. E os que nada possuíam, não busquem na sua casa religiosa aquilo que fora dela não puderam possuir. No entanto, conceda-se à sua debilidade o quanto for necessário, ainda que em sua pobreza, quando estavam na sociedade , não lhes fosse possível dispor nem mesmo do necessário. Mas por isso se considerem felizes por haverem encontrado o alimento e a roupa que não podiam possuir enquanto estavam fora.

07. Nem se orgulhem por ver-se associados àqueles aos quais fora nem se atreviam a aproximar-se; pelo contrário, elevem seu coração e não busquem as vaidades terrenas e não aconteça que as comunidades comecem a ser úteis para os ricos e não para os pobres, se nela os ricos se fazem humildes e os pobres altivos.

08. E aqueles que eram considerados algo diante da sociedade, não se atrevam a desprezar a seus irmãos que vieram à santa sociedade sendo pobres. Pelo contrário, devem se gloriar muito mais pela comunidade dos irmãos pobres que da condição de seus pais ricos. Nem se vangloriem por ter trazido alguns de seus bens à vida comum, nem se ensoberbeçam ainda mais por suas riquezas por havê-las compartilhado com a comunidade de que se as desfrutassem na sociedade. Pois, acontece que outros vícios levam a executar más ações; a soberba, entretanto, se insinua até nas boas ações para que pereçam. E de que adianta distribuis as riquezas aos pobres e fazer-se pobre se a alma se torna mais soberba desprezando as riquezas do que possuindo-as?

09. Vivam todos, pois, em união de alma e coração, e honrem a Deus uns nos outros, do qual vocês foram feitos templos vivos .

Capítulo II

Oração e comunidade

10. Perseverem nas orações fixadas para as horas e tempos de cada dia.

11. No oratório ninguém faça senão aquilo para o qual foi destinado, daí de onde vem o nome; para que se por acaso houver alguns que, tendo tempo, quiserem orar fora das horas estabelecidas, não sejam impedidos por aquele que ali queira fazer outra coisa.

12. Quando orarem a Deus com salmos e hinos, que o coração sinta aquilo que profere a voz.

13. E não desejem cantar senão aquilo que está mandado que se cante; porém, o que não está escrito para ser cantado, que não se cante.

Capítulo III

Comunidade e cuidado do corpo

14. Submetam sua carne com jejuns e abstinências no comer e no beber, conforme a saúde o permitir. No entanto, quando alguém não puder jejuar, nem por isso tome alimentos fora de hora da refeição, a não ser que se encontre enfermo.

15. Desde que se sentarem à mesa até se levantarem escutem sem ruído nem discussões aquilo que segundo o costume, lhes for lido; para que não apenas a boca receba o alimento, mas também o ouvido sinta fome da palavra de Deus.

16. Se os fracos, em razão de seu modo anterior de viver, são tratados de maneira diferente quanto à comida, isso não deve incomodar os outros, nem parecer injusto àqueles aos quais outros costumes fizeram-nos mais fortes. E estes não considerem aqueles mais felizes, porque recebem o que não lhes é concedido, mas, antes, devem se alegrar, porque podem suportar o que os mais fracos não podem.

17. E se àqueles que vieram à casa religiosa de uma vida mais privilegiada for-lhes concedido algum alimento, roupa, agasalho ou cobertor, que não é dado aos outros mais fortes e portanto mais felizes, estes que não o recebem, devem pensar o quanto desceram aqueles de sua vida anterior na sociedade até esta vida, ainda que não tenham conseguido chegar à frugalidade dos que têm uma constituição mais vigorosa. Nem devem querer tudo o que vêem receber a mais alguns poucos, não como honra, senão como tolerância; não aconteça a detestável perversidade de que na casa religiosa, onde na medida em que possam se tornam mortificados os ricos e se convertam em privilegiados os pobres.

18. Da mesma forma, assim como os enfermos necessitam comer menos para que não se agravem, assim também depois da enfermidade devem ser cuidados de tal forma que se restabeleçam logo, mesmo quando tenham vindo da sociedade de uma humilde pobreza; como se a enfermidade recente lhes concedesse o mesmo que aos ricos em seu antigo modo de viver. Porém, uma vez reparadas as forças, voltem à sua feliz norma de vida, tanto mais adequada aos servos de Deus quanto menos necessitarem. E que o prazer não os retenha, estando já sadios ali onde os colocou a necessidade, quando se encontram enfermos. Assim, pois, considerem-se mais afortunados aqueles que são mais fortes em suportar a frugalidade; porque é melhor necessitar menos que ter muito.

Capítulo IV

Responsabilidade mútua

19. Não procurem chamar a atenção pela forma de andar, nem agradar pelas roupas, mas sim pela conduta.

20. Quando saírem de casa, vão juntos; quando chegarem ao lugar para onde se dirigem, permaneçam juntos.

21. No andar, no estar parados e em todos os seus movimentos, não façam nada que incomode àqueles que os vêem, mas aquilo que está de acordo com a consagração de vocês.

22. Ainda que seus olhos se encontrem com alguma mulher, não os detenham em nenhuma. Porque não lhes é proibido ver mulheres quando saírem de casa; o que é pecado é desejá-las ou querer ser desejados por elas. Pois não apenas com o toque e o afeto, mas também com o olhar se provoca e nos provoca desejo das mulheres. Não digam que têm a alma pura se os olhos são impuros, pois o olhar impuro é indício do coração impuro. E quando, mesmo sem nada dizer, os corações denunciam sua impureza com olhares mútuos e, cedendo ao desejo da carne, se deleitam com ardor recíproco, a castidade desaparece dos costumes, mesmo que os corpos permaneçam livres da violação impura.

23. Assim também, o que fixa o olhar numa mulher e se deleita em ser olhado por ela não deve supor que não é visto por ninguém quando faz isto; certamente que é visto e por aqueles que ele nem imagina que possam ver. Porém, mesmo que permaneça oculto e não seja visto por ninguém, que dirá d’Aquele que conhece o coração de cada pessoa e a quem nada se pode ocultar? Ou se pode crer que não vê porque o faz com tanto maior paciência quanto maior é sua sabedoria? Tema, pois o homem consagrado desagradar Aquele, para que não queira agradar pecaminosamente uma mulher. E para que não deseje olhar com malícia uma mulher, pense que o Senhor tudo vê. Pois é por isto que se nos recomenda o temor, segundo está escrito: “Abominável é diante do Senhor aquele que fixa o olhar”.

24. Portanto, quando estiverem na Igreja em qualquer outro lugar onde houver mulheres, guardem-se mutuamente sua pureza; pois Deus, que habita em vocês, os guardará também, deste modo, por meio de vocês mesmos.

25. E se observarem em algum de seus irmãos esta descompostura no olhar de que lhes falei, advirtam-no logo para que não progrida o que se iniciou, mas que se corrija o quanto antes.

26. Porém, se novamente depois desta advertência ou qualquer outro dia o virem cair no mesmo erro, aquele que o surpreender denuncie-o imediatamente como uma pessoa ferida, que necessita de cura; no entanto, antes de denunciá-lo trate do assunto com outra pessoa ou também com um terceiro, para que com a palavra de dois ou três possa ser convencido e repreendido com a severidade conveniente. Não pensem que procedem com má vontade quando fazem isto. Pelo contrário, pensem que não serão inocentes se, calando, permitirem que pereçam seus irmãos, aos quais poderiam corrigir advertindo-os a tempo. Porque se seu irmão tivesse uma ferida no corpo, ocultando-o por medo da cura, não seria cruel silenciá-lo e ato de caridade manifestá-lo. Pois então, com maior razão deve-se denunciá-lo para que não se corrompa ainda mais o seu coração.

27. Porém, no caso de negá-lo, antes de expor o assunto aos que deverão tratar de convencê-lo, deve ser denunciado ao Superior, com intenção de que, corrigindo-o secretamente, possa evitar que chegue ao conhecimento de outros. No entanto, se o negar, convoquem os outros diante do que dissimula para que perante todos possa, não mais ser interrogado por uma só testemunha, mas ser convencido por dois ou três . Uma vez convencido, deve cumprir o corretivo que julgar oportuno o Superior ou presbítero, a quem pertence dirimir a causa. Se se recusar a cumpri-lo, mesmo quando ele não tome a iniciativa, seja eliminado da comunidade. Não se faz isto por espírito de crueldade, senão de misericórdia, pois não aconteça que com sua influência nociva ponha a perder outros muitos.

28. E o que foi dito com relação ao olhar, observe-se com diligência e fidelidade ao averiguar, proibir, indicar, convencer e castigar os demais pecados, procedendo sempre com amor para com as pessoas e ódio para com os vícios.

29. E agora, se alguém houver progredido tanto no mal, que tenha chegado a receber cartas ou algum presente de mulher, se espontaneamente o confessar, seja perdoado e ore-se por ele; porém, se for surpreendido e convencido de sua falta, seja castigado com uma maior severidade segundo o juízo do presbítero ou do Superior.

Capítulo V

Serviço mútuo

30. Guardem suas roupas num lugar comum sob o cuidado de uma ou de duas pessoas ou de quantas forem necessárias para sacudi-las, a fim de que não fiquem empoeiradas. Da mesma forma como se alimentam de uma só despensa, assim também devem vestir-se de um mesmo guarda-roupa. Na medida do possível, que não sejam vocês os que decidam a respeito das roupas adequadas para usar em cada tempo, nem se cada qual deve receber o mesmo que havia usado ou o já usado por outro, contanto que não se negue a cada um o que necessitar . Porém se por causa disto surgem disputas e murmurações entre vocês, queixando-se alguém por haver recebido algo pior do que deixara, e se sentir menosprezado por não receber uma roupa semelhante à de outro irmão, julguem por aí o quanto lhes falta a santa veste do coração, quando assim ficam discutindo pela veste do corpo. Porém, se por sua fraqueza for tolerado que recebam o mesmo que deixaram, guardem, no entanto, o que usam num lugar comum, sob o cuidado dos encarregados.

31. E isto há de ser de tal modo que ninguém trabalhe em nada para si mesmo, mas que todos os seus trabalhos se realizem para o bem da comunidade, com maior cuidado e prontidão de ânimo como se cada um o fizesse para si mesmo. Porque a caridade da qual está escrito que “não busca os próprios interesses”, se entende assim: que antepõe as coisas da comunidade à próprias e não as próprias às comuns. Por conseguinte, saberão que mais adiantaram na perfeição quanto mais tenham cuidado das coisas comuns que das próprias; de tal modo, que em todas as coisas que utiliza a necessidade transitória sobressaia a caridade, que permanece.

32. De onde se segue que, se um religioso receber algum coisa de seus pais ou parentes, como uma roupa ou qualquer outra coisa considerada necessária, não a guarde ocultamente, mas entregue-a ao Superior para que, tornando-a comum, seja entregue a quem tiver necessidade .

33. Lavem a roupa segundo a norma dada pelo Superior, seja por vocês, seja pelos encarregados de lavá-las, porém não suceda que o desejo exagerado de levar a roupa limpa chegue a causar manchas na alma.

34. Não se negue tampouco o banho do corpo, quando a necessidade o aconselhar; porém, seja feito sem murmuração, seguindo a orientação do médico, de tal modo que, mesmo o enfermo não querendo, o faça por ordem do Superior aquilo que convém para a saúde. Porém, se não convém, não se atenda à mera satisfação, porque, à vezes, ainda que prejudique, se crê que é proveitoso o que agrada.

35. Por fim, se algum servo de Deus se queixar de alguma dor latente no corpo, dê-se lhe crédito sem duvidas; no entanto, se não se tiver certeza de que se deve dar o que lhe agrada para curá-lo, consulte-se então o médico.

36. Que ninguém vá aos banhos públicos ou a qualquer outro lugar onde for necessário menos de dois ou três. E aquele que precisar ir a alguma parte, não vá com quem queira, mas com quem mandar o Superior.

37. Para cuidar dos enfermos, dos convalescentes, ou daqueles que mesmo sem Ter febre, padecem alguma enfermidade, seja encarregado um irmão para que peça da despensa o que cada qual necessitar.

38. Os encarregados da despensa, das roupas ou dos livros sirvam a seus irmãos sem remuneração.

39. Que os livros sejam solicitados cada dia no horário determinado e, se alguém os pedir fora de hora, não lhes seja concedido.

40. Que os encarregados das roupas e do calçado não os neguem quando aqueles que os pedirem deles necessitam.

Capítulo VI

Caridade e correção fraterna

41. Não haja contendas entre vocês, ou se as houver, terminem-nas depressa para que a ira não chegue até o ódio e de uma palha se faça uma viga, convertendo-se a alma em homicida; pois assim se lê: “O que odeia seu irmão é homicida” .

42. Aquele que ofender alguém com injúria, ultraje ou acusando-o de alguma falta, procure remediar o quanto antes o mal que provocou e aquele que foi ofendido perdoe-o logo, sem vacilar. Porém se tiverem se ofendido mutuamente, devem se perdoar a ofensa , porque, do contrário, a sua recitação do Pai Nosso se transforma numa mentira. No mais, quanto mais frequentes forem suas orações, com tanta maior sinceridade devem fazê-las. Contudo, é muito melhor alguém que, mesmo, deixando-se levar pela ira, se apressa a pedir perdão àquela a quem ofendeu, que o outro que demora em irar-se, mas opõe mais resistência em pedir perdão. Aquele que, pelo contrário, nunca quer pedir perdão ou não o pede de coração, em vão se encontra na casa religiosa, mesmo que dali não seja expulso. Portanto, abstenham-se de proferir palavras duras em excesso e, se alguma vez, elas deslizarem, não se envergonhem de aplicar o remédio saído da mesma boca que produziu a ferida.

43. No entanto, quando a necessidade da disciplina os obriga a empregar palavras duras ao corrigir os mais novos, se perceberem que foram excedidas no modo, não lhes é exigido pedir perdão aos ofendidos, pois não aconteça que, por ter uma excessiva humildade para com aqueles que devem ser obedientes, fique debilitada a autoridade de quem governa. Pelo contrário, peça-se perdão ao Senhor de todos, que conhece benevolência com que são amados inclusive aos quais talvez foram corrigidos além da medida. O amor entre vocês não deve ser carnal, mas espiritual.

Capítulo VII

Amor na autoridade e na obediência

44. Obedeçam ao Superior como a um pai, guardando-lhe o devido respeito para que nele não ofendam a Deus, e obedeçam ainda mais ao presbítero, que tem o cuidado de todos vocês.

45. Corresponde principalmente ao Superior fazer que sejam observadas todas estas coisas e, se alguma não o for, não se transija por negligência, mas que se procure emendar e corrigir. Será seu dever enviar ao presbítero, que tem entre vocês maior autoridade, o que exceder em sua função ou capacidade.

46. Agora, aquele que os preside, não se sinta feliz por mandar com autoridade, mas por servir com caridade. Diante de vocês, que os preceda com honra; porém, diante de Deus, que se prostre a seus pés por temor. Mostre-se a todos como exemplo de boas obras; corrija aos inquietos, console aos tímidos, acolha os fracos, seja paciente com todos . Mantenha a disciplina com agrado e saiba infundir respeito. E mesmo que ambas as coisas sejam necessárias, procure mais ser amado por vocês que temido, pensando sempre que deve dar conta a Deus a respeito de vocês.

47. É por aí que, sobretudo obedecendo melhor, não somente se compadeçam de si mesmos, mas também dele; porque quanto mais elevado se acha entre vocês, tanto maior é o perigo de cair.

Capítulo VIII

Exortações finais

48. Que Deus lhes conceda observar tudo isso movidos pela caridade, como apaixonados da beleza espiritual , e exalando em seu trato bom odor de Cristo ; não como servos sob a lei, mas como pessoas livres sob a graça .

49. E para que possam se olhar neste livrinho como num espelho e não se descuidem de nada por esquecimento , leia-se uma vez por semana. E se observarem que cumprem tudo o que está escrito, dêem graças a Deus, doador de todos os bens. Porém, se algum de vocês vê algo que lhe falta, arrependa-se do passado, previna-se para o futuro, orando para que seja perdoada sua dívida e não caia em tentação.