XII Assembleia Provincial reúne frades da Província da Consolação em Salvador

Entre os dias 8 e 12 de junho de 2026, religiosos da Província Agostiniana Nossa Senhora da Consolação do Brasil reuniram-se em Salvador, Bahia, para a XII Assembleia Provincial. A escolha da capital baiana insere-se nas celebrações do centenário da chegada dos primeiros agostinianos vindos da Espanha, que em 1929 deram início às atividades da Província no país.

Neste jubileu, as Assembleias vêm sendo realizadas em lugares marcados pela presença agostiniana ao longo dessa trajetória. Salvador, porém, guarda uma singularidade própria: não faz parte desse centenário, mas é a cidade onde o carisma agostiniano pisou pela primeira vez em solo brasileiro, ainda no século XVII. Ao longo de cinco dias, os frades rezaram juntos, revisitaram essas raízes e deliberaram sobre temas centrais para o presente e o futuro da vida religiosa e da missão provincial. 

Abertura no Santuário do Senhor do Bonfim 
A Assembleia teve início na tarde de segunda-feira, 8 de junho, com a Celebração Eucarística de abertura na Basílica Santuário do Senhor do Bonfim, presidida pelo Prior Provincial, Frei Luiz Antônio Pinheiro, OSA, concelebrada pelos frades presbíteros e participada pelos demais religiosos e pelos fiéis da comunidade local. 

Em sua homilia, Frei Luiz Antônio contemplou a tríplice devoção ao Cristo crucificado presente na tradição da Igreja: o Senhor da Cana Verde, o Senhor dos Passos e o Senhor do Bonfim, lendo em cada uma dessas expressões uma faceta do mistério pascal. A partir desse horizonte espiritual e popular, refletiu sobre a vida religiosa, a experiência comunitária e a fraternidade como elementos constitutivos do carisma agostiniano. As Bem-aventuranças, liturgia do dia, foram propostas como chave de leitura para os trabalhos da Assembleia e para o caminho pessoal de cada religioso. 

Temas e trabalhos da Assembleia 
As comissões provinciais apresentaram seus respectivos informes, destacando o árduo trabalho apostólico na vida da Província. Entre os temas de maior relevo, destacaram-se a discussão sobre a Identidade da Paróquia Agostiniana, a governança das mantenedoras e o Processo Sucessório. 

Raízes coloniais: a presença agostiniana na Bahia 
Um dos momentos de maior densidade histórica da Assembleia foi a síntese apresentada pelo Prior Provincial sobre a presença agostiniana no Brasil colonial. Frei Luiz Antônio Pinheiro recuperou as origens da Ordem dos Eremitas de Santo Agostinho a partir da Grande União de 1256 e a formação da Província Portuguesa, que entre 1620 e 1648 contava com cerca de 300 agostinianos nas missões da Pérsia, Índia, Ceilão (atual Sri Lanka) e outras regiões. 

A presença agostiniana oficial no Brasil teve início em 1693, quando nove frades da Real Congregação de Agostinhos Reformados chegaram a Salvador e se estabeleceram na propriedade de Nossa Senhora da Palma, cedida pelo Dr. Jerônymo Pereira da Cruz. Ali construíram uma igreja e uma casa de acolhimento para religiosos, que serviu também de porto de escala para os missionários destinados às ilhas de São Tomé e do Príncipe. A comunidade nunca superou cinco ou seis religiosos, e em 1824 o Imperador Dom Pedro I determinou a destinação do espaço ao Seminário do Arcebispado. 

Frei Luiz Antônio também evocou a ligação histórica com a Arquiconfraria de Nossa Senhora da Consolação, Santo Agostinho e Santa Mônica, com sede na Igreja da Imaculada Conceição da Lapinha, fundada em 16 de agosto de 1916 por freis agostinianos Recoletos vindos da Espanha. E concluiu recordando um detalhe geográfico-litúrgico carregado de sentido: a primeira vez que o nome de Santo Agostinho soou em terras brasileiras foi no Cabo de Santo Agostinho, em Pernambuco, avistado no dia 28 de agosto, festa litúrgica do Doutor de Hipona. 

Passeio comunitário: um percurso de memória e missão 
Na quarta-feira, 10 de junho, a programação abriu espaço para um passeio comunitário pela cidade, acompanhado por uma guia local. O percurso incluiu o Convento e a Igreja de Nossa Senhora da Palma, a Igreja da Imaculada Conceição da Lapinha, o Memorial 2 de Julho, o Museu da Misericórdia e uma caminhada pelo centro histórico do Pelourinho. 

No Convento da Palma, construído sobre o Monte das Palmas a partir de 1630 – único espaço habitado por religiosos agostinianos no Brasil colonial -, os frades foram recebidos pelo Padre Rafael de Jesus Ribeiro Costa Ramos, da Arquidiocese de Salvador. O estado de conservação do conjunto se revelou muito comprometido, especialmente o convento, cujas instalações apresentam avançado estado de deterioração estrutural. A visita foi, ainda assim, um reencontro com as raízes. 

Na Igreja da Lapinha, os frades foram acolhidos pelo Padre Romildo Pires dos Santos e por membros da Arquiconfraria de Nossa Senhora da Consolação, que mantém vivo o vínculo com o carisma agostiniano naquele território. A visita iniciou-se com a oração comunitária da Coroa de Nossa Senhora da Consolação, seguida de um café fraterno oferecido pela Arquiconfraria e pela Paróquia. No Largo da Lapinha, os religiosos visitaram o Memorial 2 de Julho, que abriga os carros emblemáticos com as esculturas do Caboclo e da Cabocla, símbolos da participação popular na luta pela Independência da Bahia. 

No Museu da Misericórdia, o passeio reservou um momento de leveza e fraternidade. Ao deparar com uma pintura identificada pelo guia como representando Santo Agostinho, alguns frades observaram que a iconografia de um santo oferecendo bolsas a três mulheres, não corresponde à tradição iconográfica agostiniana, sendo muito mais própria da representação clássica de São Nicolau de Mira. O episódio tornou-se uma partilha espontânea de conhecimento, com os frades colaborando ainda na identificação de outras pinturas com cenas evangélicas. 

Viver o carisma, construir o legado 
As Assembleias Provinciais são, por natureza, espaços duplos de deliberação e de comunhão. Em Salvador, esse caráter duplo ganhou espessura histórica. Ao caminhar pelos mesmos espaços onde viveram os primeiros agostinianos no Brasil, ao rezar juntos nas celebrações diárias e ao debater os rumos da Província, os frades teceram uma continuidade entre passado e futuro, entre os pioneiros que chegaram em 1693 a esta mesma Bahia e as gerações que hoje escrevem a história e constroem o legado agostiniano no Brasil.