O Núcleo de Estudos Agostinianos (NEA) promoveu, neste mês de agosto, um encontro dedicado à reflexão sobre a paciência à luz do pensamento de Santo Agostinho. A palestra foi conduzida pela professora Silvia Contaldo, tendo como referência a obra De Patientia (Sobre a Paciência), na qual Agostinho apresenta a paciência como uma virtude essencial à vida humana, ao lado da honestidade, da amizade e do amor.
Em sua exposição, Silvia destacou uma das afirmações centrais do texto: “Sejamos pacientes com amor generoso, não com amor servil” (De Patientia, 2). A partir dessa perspectiva, abordou, também, sobre a impaciência que marca as relações e o cotidiano contemporâneo.
Para Santo Agostinho nem toda paciência é uma virtude. Há quem suporte esforços, perdas e sacrifícios para alcançar riquezas, prestígio ou até mesmo objetivos injustos e criminosos. Por isso, a simples capacidade de suportar dificuldades não basta para caracterizar a verdadeira paciência. O que a define é a finalidade para a qual ela é empregada.
Ilustrando essa distinção, Silvia recorreu a exemplos da mitologia grega e da tradição bíblica. Entre eles, destacou o mito de Orfeu e Eurídice. Segundo a narrativa, Orfeu desceu ao mundo dos mortos para resgatar sua amada e recebeu de Hades uma única condição: não olhar para trás antes que ambos deixassem completamente o reino dos mortos. Incapaz de esperar até o momento determinado, Orfeu voltou o olhar para Eurídice antes da hora e a perdeu para sempre. A história foi apresentada como um exemplo de como a falta de paciência pode comprometer aquilo que mais se deseja alcançar. Em contraponto, Silvia recordou Jó, símbolo da perseverança diante do sofrimento, e Penélope, cuja fidelidade e espera paciente pelo retorno de Ulisses se tornaram referências de constância e amor.
Ao comentar a obra, explicou que De Patientia está dividida em duas partes. Nos primeiros capítulos, Agostinho estabelece a diferença entre a paciência divina e a humana. Deus é paciente sem padecimento, livre das paixões e limitações próprias da condição humana. Já o ser humano, marcado pela ira, inveja, soberba e tantas outras fragilidades, precisa aprender constantemente a suportar os males sem se deixar vencer por eles.
Nesse contexto, Agostinho afirma que os pacientes “preferem suportar os males não os cometendo, ao invés de cometê-los, não os suportando”. A paciência, portanto, ajuda a pessoa a evitar males ainda maiores e a manter o olhar voltado para os bens eternos.
Silvia ressaltou ainda que a paciência é uma poderosa aliada da alma e do corpo quando orientada para o bem. Para Agostinho, aqueles que perseveram diante das adversidades sem ceder ao mal fortalecem a vida interior e caminham em direção aos bens duradouros.
Na segunda parte da obra, é abordad a a origem da paciência e sua crítica ao pensamento pelagiano. Segundo Agostinho, a verdadeira paciência não nasce apenas da força de vontade humana, mas da caridade, dom concedido por Deus. É o amor ao bem que permite ao ser humano suportar com coragem as dificuldades da vida.
Silvia retomou um princípio fundamental da ética agostiniana: a necessidade de discernir os bens que orientam nossas escolhas. A partir da frase “Ama e faz o que quiseres”, mostrou que a paciência só pode ser considerada uma virtude quando está a serviço do bem. Seja paciente, mas atente ao objeto da sua paciência.
Na conclusão, destacou o desafio de cultivar a paciência em uma sociedade marcada pelo imediatismo, pelas “pseudo-urgências” e pela pressão por resultados instantâneos. Nesse contexto, o pensamento de Santo Agostinho continua atual ao recordar que a verdadeira paciência nasce do amor e orienta a pessoa para aquilo que realmente vale a pena ser amado.

