Encontro do NEA aborda a amizade em Santo Agostinho: caminho de vida e virtude

O Núcleo de Estudos Agostinianos (NEA) realizou, no dia 16 de abril, um encontro dedicado ao tema da amizade à luz do pensamento de Santo Agostinho. A atividade foi conduzida por Frei Luiz Antônio Pinheiro, OSA, e pela professora Sílvia Contaldo, a partir do eixo “Amar, um modo de vida”, articulando filosofia, teologia e experiência humana, em uma exposição enriquecedora.

Na abertura, Frei Luiz destacou a amizade como uma força constitutiva do caráter humano, sustentada por valores como lealdade, compromisso ético e apoio mútuo. Recuperando a tradição clássica, lembrou a distinção aristotélica entre três tipos de amizade: por utilidade, por prazer e por virtude, ressaltando que esta última é a mais elevada, pois nasce do caráter e da busca compartilhada pelo bem.

A reflexão abordou o percurso intelectual que influenciou Santo Agostinho, com destaque para Cícero, especialmente nas obras Lélio e Hortênsio, que inspiraram Agostinho à convicção de que a amizade é um pilar essencial para uma vida plena. Já no horizonte cristão, a amizade é compreendida como experiência de comunhão e crescimento mútuo, iluminada pelas Sagragas Escrituras, em especial pelos escritos joaninos que apresentam Deus como a fonte última de toda amizade verdadeira.

Nesse sentido, Frei Luiz afirmou que “Deus é o melhor amigo da amizade”, pois é Ele quem sustenta os vínculos autênticos. A afirmação encontra eco direto no pensamento agostiniano, expresso nas Confissões:

“Não há verdadeira amizade, senão entre aqueles a quem tu, Senhor, aglutinas entre si por meio da caridade” (Confissões, IV, 4, 7).

O encontro também evidenciou como a própria vida de Santo Agostinho foi profundamente marcada por laços de amizade. Cercado de amigos, ele partilhou estudos, inquietações, divergências e aprendizados. Em seus escritos, apresenta a amizade como um espaço de convivência sincera e fecunda, no qual é possível discordar sem ódio, conjugando diferenças pontuais com frequentes gestos de concórdia e comunhão.

A professora Sílvia Contaldo ampliou o diálogo ao trazer para a reflexão os desafios contemporâneos das relações humanas. Ao abordar as amizades virtuais, à distância ou temporárias, provocou os participantes a refletirem sobre a fragilidade dos vínculos na cultura atual. Ter muitos seguidores nas redes sociais, observou, não significa necessariamente viver a experiência profunda da amizade: “em tempos líquidos, a amizade pode terminar com um clique”.

Silvia também sinalizou a dimensão exigente da amizade verdadeira. Distante de uma visão idealizada ou isenta de conflitos, a perspectiva agostiniana compreende a amizade como uma construção contínua, que requer paciência, honestidade, fidelidade e disposição para atravessar as diferenças sem rompimento dos vínculos.

Outro aspecto foi a abordagem dos afetos em Santo Agostinho, especialmente em suas experiências de perda. Frei Luiz destacou os dois grandes lutos narrados por Agostinho: a morte de sua mãe, Santa Mônica, e a perda de um amigo querido. Em ambos os relatos, revela-se a profundidade dos vínculos e como a amizade toca as dimensões mais íntimas da existência humana, entre dor, memória e amor.

A convivência ética foi lembrada a partir de uma advertência atribuída a Agostinho — “Quem murmura do ausente, nesta mesa não deve estar presente” — como sinal do combate à deslealdade, à fofoca e ao mal-dizer, compreendidos como obstáculos à construção de relações verdadeiras.

O encontro também estabeleceu pontes com o magistério atual da Igreja. A encíclica Fratelli Tutti, do Papa Francisco, foi citada ao destacar a amizade social como um caminho que não exclui ninguém e promove a fraternidade. E o Papa Leão XIV foi lembrado ao afirmar a amizade como via concreta para a construção da paz.

Entre o pensamento clássico, a tradição cristã e os desafios do presente, o encontro do NEA reafirmou que a amizade, não é um sentimento passageiro, é uma vocação humana e espiritual: um modo de amar que se constrói no tempo, se purifica nas provações e encontra em Deus sua fonte e seu horizonte.