Uma religião de expectativas e projeções tende à traição

Na narrativa da paixão de Cristo, Judas Iscariotes é uma figura de importante relevo. Em certa medida, ele é uma personagem-chave para o desfecho da história, afinal, sem a sua colaboração, os sumos sacerdotes teriam dificuldade para capturar Jesus e condená-lo à morte (cf. Mt 25, 46). Por estar intimamente associada à traição, a importância de Judas foi relegada à damnatio memoriae. Mas, se pensarmos bem, esse apóstolo tem algo a ensinar. Se é verdade, como disse São Gregório Magno, que a “incredulidade de Tomé foi mais proveitosa para a nossa fé do que a fé dos discípulos que acreditaram logo” (Sermão 25), poderíamos arriscar tirar o mesmo proveito da traição de Judas.

Qual a gênese dessa traição? O que terá, realmente, motivado Judas a “vender” seu Mestre? Foi, simplesmente, por que Judas era um ladrão (cf. Jo 12, 6)? Foi por que o diabo se apossou de seu coração (cf. Jo 13, 2)? Ou, por que ele trazia uma perversão de personalidade para qual não havia cura? Para compreender, minimamente, esse feito que marcou a história de Jesus, é importante considerar alguns elementos que não comparecem na narrativa, mas que dão insumos para a compreensão e, mais ainda, para abstração do que a traição de Judas pode nos ensinar.

Nossa tese é que, na gênese da traição de Judas, está a dor da expectativa não correspondida. Em outras palavras: Judas projetou em Jesus certa expectativa que acabou não sendo realizada. Embora pareça simples, essa justificativa mostra-se plausível quando interpretamos os fatos. Vejamos.

De acordo com os Sinóticos, Judas é mencionado, na lista dos doze, com o indicativo de Iscariotes (cf. Mt 10, 4; Mc 3, 19; Lc 6, 16); o evangelista João, por sua vez, sinaliza que ele é filho de Simão Iscariotes (cf. Jo 13, 2). Uma primeira hipótese para justificar esse nome remete-se à origem geográfica de sua família. Iscariotes, nesse caso, deriva de Ish Keriot (“homem de Queriot”). Queriot, possivelmente, é uma cidade na região sul de Judá, no Neguebe, frequentemente identificada com as ruínas de Khirbet al-Qaryatayn (ou el-Qaryatein), situadas cerca de 20 km ao sul de Hebron, mencionada no Livro de Josué entre as cidades que estão na extremidade da tribo dos filhos de Judá, em direção à fronteira de Edom (cf. Js 15,25). Se essa hipótese é correta, isso faz de Judas o único dos doze apóstolos que não seria galileu. E isso é muito importante.

Outra hipótese é a possível relação de Judas com os sicários. Nesse caso, Iscariotes seria uma derivação de sicarius (no latim). Essa hipótese é contestada pela maioria dos estudiosos, sobretudo, porque os sicários atuaram de maneira mais contundente no período anterior à queda de Jerusalém, por volta do ano 70 dC. Não obstante a falta de consenso entre os estudiosos, essa hipótese conserva certa plausibilidade, especialmente, se considerarmos que os sicarius são um grupo radical dentro do partido dos zelotas. Os zelotas são herdeiros do espírito revolucionário dos Macabeus. Depois da morte de Herodes e da deposição de Arquelau (6 d.C.), os partidos judaicos divergiram sobre a relação com a política colonizadora de Roma. Enquanto alguns grupos fariseus e saduceus defendiam uma “hierocracia” sob a administração direta dos romanos, outros se opuseram a isso com a exigência de uma “teocracia” imediata, o que equivalia a uma declaração de guerra contra Roma.

O zelotismo, que pelo fim do período produziu uma variante mais radical, os sicários, defendiam a tese da teocracia. De acordo com Maier, eles recrutaram os seus sequazes entre os deserdados desesperados da sociedade da época; decisiva, porém, era a motivação agudamente escatológica desse movimento, a convicção de, aqui e agora, ter de agir pela violência, já que chegara o kairos soteriológicoe, com isso, a chance definitiva para a implantação do Reino de Deus (MAIER, 2005, p. 299-300).

Considerando uma e outra coisa, não é difícil entender por que Judas projetara expectativas sobre Jesus. Por certo, caiu-lhe bem aos ouvidos o anúncio da proximidade do Reinado de Deus; a popularidade que Jesus ia conquistando e o grupo de seguidores que ia arregimentando em torno de si aparentavam a formação de um grupo de resistência; ditos como “o Reino dos céus é arrebatado à força e são os violentos que o conquistam” (Mt 11, 12), soavam como confirmação da intuição nacionalista de Judas. Interpretados de maneira correta ou não, os sinais que Jesus ia dando, de uma forma ou de outra, alimentavam as expectativas messiânicas e nacionalistas do Iscariotes. E, por isso, Judas projetou expectativas sobre seu Mestre.

Essas expectativas, contudo, foram frustradas. Jesus não se mostrou o messias poderoso e violento esperado pelos zelotas. Ao contrário, não formou um exército, não bateu de frente com a política romana, não promoveu a violência como força escatológica. Sua mensagem e seus feitos acabaram apontando para outra coisa. Embora tenha, por sua postura mesma, interferido na ordem das coisas e agido “politicamente”, foi um messias diverso daquele das expectativas humanas. Decepcionado, então, não sobrou para Judas outra opção senão trair o traidor das suas expectativas.

A narrativa do evangelista João oferece um detalhe importante. Ao descrever a última ceia, João menciona que “o diabo havia posto no coração de Judas o propósito de entregar Jesus” (Jo 13, 2). Esse texto foi escrito em grego. A expressão utilizada, portanto, foi διάβολος (diábolos), que significa literalmente “caluniador”, “acusador” ou “difamador”. Etimologicamente, diabolôs provém de διαβάλλειν (diaballein), um termo composto por δια (separação) e βάλλειν (lançar), denotando aquele que separa ou desune, aquilo que causa separação/divisão. Como sua expectativa não fora realizada, o coração de Judas estava, literalmente, διαβάλλειν (diaballein) – dividido: a relação que construiu com Jesus contrastava com a frustração da expectativa projetada não realizada.

É nesse ponto que a traição de Judas tem algo a nos ensinar: quando projetamos expectativas sobre Jesus e quando essas expectativas correspondem às nossas carências e complexos mal resolvidos, estamos, também nós, incorrendo em traição ao Mestre. Expectativas frustradas, naturalmente, nos empurram para a traição. Uma religião marcada pela projeção não corre o risco de se tornar uma religião traidora?

A expectativa de Judas girava em torno, sobretudo, de uma suposta onipotência de Jesus. Se de fato Ele era o Filho de Deus, aquele que viera para instaurar o reinado divino, por certo, agiria com poder e Sua intervenção mudaria o rumo das coisas em benefício de Israel. Judas esteve o tempo todo esperando uma intervenção. Acreditou mais no Deus intervencionista e desconsiderou, completamente, que o Deus de Jesus é, muito mais, um Deus intencionista.

Essa mesma expectativa não é, muitas vezes, compartilhada por muitos cristãos? Ainda hoje, não avultam experiências religiosas que se constroem e difundem a partir da areia movediça das expectativas projetadas em Deus?

Carlos Domingues Morano, na obra Crer depois de Freud (1992), chama atenção para as armadilhas do Deus onipotente. De acordo com Morano, o motor último e mais decisivo da motivação religiosa está, justamente, nos sentimentos infantis de onipotência. Deus se torna a “representação” mais adequada para as projeções dos sonhos de totalidade. Sem percebermos, o completamente Outro vai sendo revestido de nossas projeções recalcadas e, facilmente, passa de Deus à condição de mera divindade: uma divindade com a “nossa cara”, feita “à imagem e semelhança” das nossas projeções.

Acontece que o Deus de Jesus tem “personalidade” própria, e a imagem do todo-poderoso não é a que recebemos na Revelação cristã. “Como a recente teologia bíblica colocou em evidência, a conduta e as palavras de Jesus nos falam antes de um Deus débil, porque Deus aparece essencialmente como amor, e o amor é débil quando é rejeitado em sua oferta. […] Não é do Deus todo-poderoso que nos fala Jesus. A própria ação dos milagres, que tão facilmente poderia se entender como expressão de uma potência que ultrapassa as leis naturais, aparece sempre no texto evangélico como sinal da ação salvífica de Deus em favor dos homens, nunca como expressão de um poder sobre eles, com o objetivo mais ou menos explícito de atemorizá-los ou de obter sua reverência e admiração.” (MORANO, 2014, p. 136)

Por isso, se a fé religiosa está impregnada de projeção e transferência de expectativas tende a cair na traição, tal como aconteceu com Judas. Porque, como assegura Morano, “o Deus onipotente engendra a ambivalência e a rebelião mais ou menos camufladas. É o Deus adorado como todo-poderoso, mas também o Deus odiado porque o poder desejado pertence somente a ele” (MORANO, 2014, p. 138).

Além disso, um Deus “à imagem e semelhança” das nossas expectativas, aliado ao nosso eu, legitima toda espécie de absurdo e atropelo engendrado pelo narcisismo egoico que costuma nos reger. “Porque o absoluto é o que respalda e legitima, não é tolerável o relativo; porque é total, não é tolerável o fragmentário: não dá lugar ao diferente nem admite a dissidência. Por isso, o Deus onipotente é um Deus de bota de guerra, de inquisição e fogueira, de ortodoxias e excomunhões. É o substituto perfeito e aliado de nossa vontade de domínio.” (MORANO, 2014, p. 138)

Se há algo que podemos aprender com a experiência de Judas é não cair na tentação de projetar expectativas recalcadas em Deus. Essa é uma tarefa exigente. Contudo, se não a empreendermos, cedo ou tarde, “venderemos o Senhor” incorrendo em infidelidade.

Frei Jeferson Felipe Cruz, OSA
Doutorando em Teologia

Artigo escrito para a coluna Theos, do Jornal Inquietude On-line, edição de março de 2026.

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