A iconografia cristã apresenta com frequência Santo Agostinho segurando um coração, um coração em chamas; com efeito, o coração tornou‑se o selo distintivo da espiritualidade agostiniana. Ele nasce, sem dúvida, da que talvez seja a sua afirmação mais conhecida acerca da inquietude do coração humano, com a qual se abrem as Confissões: a peregrinação de Agostinho é, de fato, uma viagem do coração.
E não se pode questionar que o símbolo do coração ocupa um lugar central em seu esforço para articular o próprio ser. “O meu coração é o lugar onde sou aquilo que sou” diz‑nos ele em suas Confissões (10, 3, 4). Deve‑se ter presente, porém, que aquilo que Agostinho pretende enfatizar aqui não é tanto o termo “coração” em si, mas tudo o que ele representa e evoca.
Para Agostinho, o coração simboliza que a peregrinação inspirada por Deus é um caminho cheio de graça e progressivo, que nos conduz para dentro, ao eu interior, ao meu verdadeiro eu, ao meu eu em Deus, afastando‑nos daquilo que ele chama, seguindo São Paulo, de homem exterior – homo exterior (cf. 2Cor 4,16): nossa tendência a viver “externamente”, fora de nós mesmos, entregues a um falso ser, exilados da nossa verdade, presos ao que é transitório. Deus imprimiu no coração humano a sua imagem divina (imago Dei, cf. Gn 1,27), um sinal indelével de identidade, de aliança, de dignidade e de amor. O pecado nos desconecta desse ser real, da imago Dei; por isso, devemos empreender o caminho de retorno:
“Volta ao coração; vê ali o que talvez percebas de Deus: ali está a imagem de Deus. No homem interior habita Cristo, e no homem interior serás renovado segundo a imagem de Deus; reconhece, em sua imagem, o seu Criador” (Tratado sobre o Evangelho de São João, 18, 10).
Nas Confissões, Agostinho pode dizer a Deus, de modo tão extraordinário: “Tu estavas dentro de mim, e eu fora” (10, 27, 38). Esse é o Deus que está mais íntimo de Agostinho do que o próprio Agostinho o está de si mesmo (cf. Conf. 3, 6, 11). Esse chamado a voltar ao coração evoca também o convite de Deus a afastar‑nos da construção de uma personalidade autônoma e vã (que para Agostinho é sinônimo do pecado) e a orientarmo‑nos para a obra de Deus, que tem o seu início dentro do nosso coração, lugar da morada divina.
Em sua obra sobre a exegese bíblica, A doutrina Cristã, Agostinho fala da figura retórica chamada sinédoque, na qual a parte remete ao todo. É assim que Agostinho compreende o coração: ele remete à totalidade do nosso ser diante de Deus. A inquietude do coração é, portanto, o eco incessante da imagem de Deus que não nos permite satisfazer com nada que seja menos do que o próprio Deus.
Para desenvolver essa noção, Agostinho emprega um vocabulário rico e variado: o coração inquieto, o coração excessivamente cheio (sem espaço para Deus), o coração humilde, o coração desordenado, o coração casto, o coração carnal, o coração entristecido, mas, sobretudo, o coração orientado para Deus.
Um primeiro passo necessário no retorno a Deus é estar em contato com o próprio coração, seja qual for sua condição. “Elevai o coração”, tomado diretamente da liturgia eucarística, torna‑se um estribilho constante de sua pregação e de seu ensinamento. O seu contrário é o cor in terra. Agostinho observa como podemos arrastar nosso coração para a terra, ou até mesmo enterrá‑lo, sempre que permitimos que algo ou alguém diverso de Deus se torne o centro do nosso coração. Em um sermão sobre os Salmos, Agostinho vê em Simão Pedro o primeiro exemplo clássico de um coração enfermo e necessitado de cura. Ele retoma o diálogo entre Simão Pedro e Jesus durante a Última Ceia:
“‘Eu te acompanharei até a morte.’ Mas o Senhor, que o conhecia, predisse‑lhe quando o negaria, fazendo‑lhe perceber sua fraqueza, como se tivesse tomado o pulso do seu coração” (Comentário aos Salmos 36, I, 1).
Agostinho insiste que devemos permitir que Deus alcance o nosso coração, o toque, e o torne conhecido para nós mesmos. Entretanto, apesar de toda essa linguagem do “coração” e dessa ênfase na interioridade, sua intenção nunca é conduzir a uma espiritualidade introspectiva e fechada. Aquilo que é fundamentalmente interior para mim é, para Agostinho, o ponto em que me torno mais próximo de meus irmãos e irmãs da família humana. É a partir do coração que chego à fé cristã, torno‑me membro da Igreja, Corpo de Cristo, e começo a reconhecer Cristo em meus irmãos e irmãs, com uma atenção particular aos pobres. O coração é o ponto de contato onde acontece a verdadeira integração entre o interior e o exterior, o espiritual e o carnal.
O coração nunca é o objetivo final, embora nada que não comece “a partir do coração” conduza a algum lugar. Da mesma forma, Agostinho insiste que, se algo se reivindica como presente no coração, mas nunca se manifesta exteriormente, não passa de autoengano. Sua insistência no coração não é, portanto, uma fuga interessada da responsabilidade, nem uma religiosidade meramente interior, nem uma fé privatizada.
O retorno ao coração é, antes de tudo, o primeiro passo de um processo de conversão que se comprova num amor universal e sem limites: católico. Já que Deus colocou ali a sua própria imagem divina, este é o lugar correto para começar, mas nunca o lugar onde se deve permanecer.
Ir ao coração é simplesmente descobrir que somos obra de Deus, que Deus habita no meio de nós e que, no nível mais profundo e verdadeiro da nossa pessoa, nunca estamos sós – e certamente nunca deixamos de ser amados.

Frei Caio Pereira, OSA
Secretário de Animação Vocacional e Juvenil
Artigo publicado na coluna Pró-vocações, do Jornal Inquietude On-line, edição de janeiro de 2026.
Imagem: Arquivo Cúria Provincial