Em dezembro de 2024, meus confrades escolhiam-me como representante da Província da Consolação para participar no Capítulo Geral da Ordem, no mês de setembro de 2025, em Roma. Ao mesmo tempo que surpreso e feliz pela oportunidade, não tinha ideia do que seria viver essa experiência. Seria a primeira vez em Roma, a primeira vez em um Capítulo Geral, a primeira vez de muitas coisas… Não obstante as muitas projeções e preparativos… compra de passagens, atualização do passaporte, estudo dos relatórios e do Instrumentum Laboris, a ida para o Capítulo Geral se revestiu de maior expectativa com eleição do Papa Leão XIV, nosso confrade. Certamente ele estaria conosco em algum momento ou iríamos encontrá-lo.
Os meses foram passando… as semanas… os dias… Após o frenético Mês Vocacional Agostiniano, embarquei para Roma, desde Fortaleza, no dia 30 de agosto, à noite. Em Lisboa, me encontrei-me com Frei Luiz e juntos seguimos viagem até a Cidade Eterna. No Aeroporto Fiumicino, já estava Frei Leandro, que, residindo em Roma desde 2023, fraternalmente desejou nos recepcionar nessa ocasião. Do aeroporto até o Colégio Internacional Santa Mônica, onde ficaria hospedado, qual criança espantada com o mundo, contemplava as colinas de Roma, árvores, estradas, carros, placas, prédios, ruas, pessoas, igrejas… muitas igrejas… a Cúpula da Basílica de São Pedro. Parecia folhear aqueles livros de História da educação básica…Estava em Roma!
Já no jantar daquele domingo, dia 31, muitos confrades haviam chegado… Uns poucos já conhecidos… outros tantos nunca vistos. Frei Márcio também já estava aí. Era dada a largada à maratona linguística… italiano, inglês e espanhol eram as línguas oficiais. Mas, nos momentos informais, muitas outras vinham à tona e uma que ia mesclando um pouco de todas com o intuito de fazer a comunicação acontecer. E de repente… num mesmo salão de poucos metros quadrados estava o mundo, ou melhor, uma porção da secular Ordem de Santo Agostinho. Evidentemente, éramos nossas vozes, mas também as vozes de tantos confrades espalhados pelas muitas comunidades agostinianas mundo afora!
O 188º Capítulo Geral da Ordem teve início, oficialmente, no dia 01 de setembro, com a Missa na Basílica de Santo Agostinho, em Roma, presidida pelo Papa Leão XIV. Imagina! Já no segundo dia em Roma, ter a oportunidade de ver o Papa de perto, ouvi-lo, cumprimentá-lo… ser olhado por ele… e claro, ter direito à clássica fotografia do “baciamano” e o terço pontifício. Uma graça e um compromisso! O Papa Leão nos indicou três atitudes fundamentais para o decorrer do Capítulo, mas que bem constituem um programa de vida… escuta, humildade e unidade! Ah… se levássemos a sério essas três palavras! Ah… se o mundo as vivesse!


Desses 18 dias, vividos em uma verdadeira comunidade capitular, com direito a prior e ecônomo, para além dos pormenores rituais, protocolos e formalidades resguardadas pelas nossas Constituições – a quem interessar temos as crônicas que recolhem com riqueza de detalhes o vivido nesses dias, ou ainda, a quem de direito for, as atas capitulares – quisera registrar, nessas poucas linhas, percepções, “espantamentos”, inquietudes, intuições… pensatas de um jovem frade agostiniano ao fim do seu primeiro Capítulo Geral.
Foram três semanas marcadas por contínuos trabalhos, reflexões, orações, eleições, decisões…, mas também intervalos que foram preciosos para conhecer alguns lugares em Roma e na Itália. Ademais, viver o Capítulo que elegeu o 98º Prior Geral da Ordem é fazer-se parte e coautor de uma história que atravessa os séculos. É saber-se herdeiro de um grande passado! É tomar consciência de que o tempo presente nos apresenta enormes desafios! É peregrinar, na esperança – e que graça viver tudo isso neste Ano Jubilar e atravessar as 4 Portas Santas – em direção a um futuro… onde desejamos ser, um pouco mais, melhores e maiores do que hoje somos!
A primeira semana foi muito marcada pelo espanto e admiração! Conhecer novos – e não tão novos – frades vindos dos cinco continentes, suas realidades, os trabalhos que realizam, os desafios que enfrentam, a encarnação do carisma e da espiritualidade agostiniana em realidades tão diversas e plurais foi uma aula magna sobre a universalidade da Ordem. Nenhuma palestra sobre o assunto, proferida pelo mais renomado conhecedor da Ordem, alcançaria o nível do experienciado nesses dias. Que riqueza nossa experiência de comunhão, participação e missão na América Latina e Caribe através da OALA! Que bonito conhecer os passos dados nessa direção em outros continentes! Que profética nossa presença junto à ONU, em Cuba, no Paquistão, na China! Que desafio cuidar, através do Pontificium Institutum Patristicum Augustinianum, da herança deixada pelos Padres da Igreja e a nós confiada pela Santa Sé! Que orgulho ser Ordem de Santo Agostinho!



[Uma nota eclesiológica: Roma não nos deixa solapar na particularidade das nossas comunidades eclesiais, mas nos lança fortemente na catolicidade da Igreja: a Igreja é realmente Católica, Universal, e nela “há lugar para todos, todos, todos!” A participação na Canonização dos Santos Pier Giorgio Frassati e Carlo Acutis evidenciou isso de maneira singular. E poder conhecer um pouco mais da história desses dois grandes jovens e a forma como cada um, nas circunstâncias históricas que lhes foram próprias, foi capaz de acolher a chamada de Deus em sua vida, uma inspiração para seguir adiante na busca da santidade!]
Na segunda semana, um cansaço foi encontrando espaço entre os capitulares. A rotina capitular começou a se impor e os debates em grupos, sessões plenárias e processos eleitorais foram revelando alguns limites institucionais, que apesar de necessários, por vezes tolhem a força e beleza do carisma. A partir dos grandes temas discutidos – vocações, formação inicial, comunhão de bens, vida comunitária, apostolado, missão, estruturas – constatam-se muitas mudanças necessárias, mas faltam-nos coragem, ousadia, vontade… conversão da vontade… sensibilidade ao que o Espírito sussurra-grita aos nossos ouvidos e corações. Num mundo marcado por tantas dores e males, por vezes nosso olhar se debruça tão somente sobre nós mesmos, nossas dores e nossos males, nossos ossos ressequidos… Que tristre ser Ordem de Santo Agostinho assim! Há que ser de outro jeito, a começar de baixo, na ousadia cotidiana da fidelidade!
Mas, assim constituídos, como uma mescla de barro e graça, iniciamos a terceira semana, provocados pela presença das nossas Irmãs de Vida Contemplativa, dos Leigos Agostinianos e do próprio Papa Leão que mais uma vez veio ao nosso encontro e nos dirigiu uma mensagem, a qual também pode-se encontrar nos registros oficiais da Santa Sé. Poderia aqui sintetizar suas ideias, no entanto, a palavra mais eloquente da manhã, que ouvido nenhum ouviu, mas nossos olhos contemplaram, foi o simples gesto do Papa, após sua fala, levantar-se e servir um copo de água a si e ao Prior Geral. A cena roubou boas gargalhadas dos presentes e aplausos que pareciam dizer… “É isso! Basta sermos assim, irmãos, simplesmente irmãos!”

Nos últimos dias do Capítulo, esse alter figurado pelas monjas, pelos leigos e pelo Papa, capaz de nos arrancar da nossa autorreferencialidade, foi sem dúvida um alento e força para o cumprimento da jornada capitular. Também a expectativa pelas votações finais, as decisões capitulares, o encerramento próprio do capítulo e o retorno às nossas comunidades fizeram-nos acreditar que sempre há fogo sob as cinzas e que a chama agostiniana não há de se apagar. Às 15h43, horário de Roma, do dia 18 de setembro de 2025, Fr. Joseph Farrel, OSA, Prior Geral Eleito, declarava encerrado o Capítulo Geral.
E agora, Ordem de Santo Agostinho? O Capítulo acabou! O que esperar do 188º Capítulo Geral? Avanços? Não sei! Retrocessos? Tampouco! Nada? Um perigo! Um dos padres capitulares… numa conversa informal à mesa do almoço, às vésperas de encerrar o capítulo, assim se expressou: “… por fim o capítulo não deixa de ser um manifesto de boas intenções”. Ora… se assim o for, e creio que seja, talvez a pergunta precise ser outra: O que esperar dos Agostinianos? Mas, não dos Agostinianos em geral… como uma massa sem rosto, sem cor, sem identidade, sem carisma… O que esperar dos Agostinianos com carne, osso e nome… Joseph… Alexander… Anthony… Luiz… Márcio… Carlos… Futoshi… Olivier… Tailer… e outros tantos mil espalhados mundo afora?
Eu… na minha inquieta ousadia juvenil… espero sonhos… muitos sonhos! Que sejamos ainda capazes de sonhar e, justamente por sonhar… sermos!
Sermos irmãos, na busca constante de Deus que habita o mais íntimo de nós!
Sermos irmãos, na comunhão de vida e de bens, coabitantes de uma mesma casa, com uma só alma e um só coração!
Sermos irmãos, no serviço à Igreja e ao mundo, tocando e cuidando a carne sofrida e machucada de outros tantos irmãos e irmãs e de toda a Criação!
Sermos irmãos, simplesmente irmãos, nas pegadas do irmão Leão, do irmão Walter, do irmão Nicolau, do irmão Agostinho, do Irmão Jesus de Nazaré!

Frei Tailer Douglas Ferreira, OSA
Artigo publicado no Jornal Inquietude On-line, edição de agosto/setembro de 2025.
Imagem: Frei Gênesis Labana, OSA – Capítulo Geral Agostiniano