Século XXI: um novo tempo de mártires?

Os séculos primevos do cristianismo estão povoados pelo testemunho de homens e mulheres que suportaram o sofrimento e derramaram o próprio sangue por causa da fé em Cristo. Nada estranho, tratando-se de seguidores de um mártir. Como disse santo Agostinho, “o Senhor Jesus não apenas instruiu os mártires com sua doutrina; ele também os fortaleceu com seu exemplo. Para que os condenados à tortura tivessem algo a imitar, ele primeiro sofreu por eles: mostrou-lhes o caminho, tornando-se o caminho ele mesmo” (Sermão 273, 1).

A perseguição, experimentada inicialmente no interior do judaísmo (cf. At 6–7) e, depois, sob o jugo do Império Romano, está amplamente registrada nas Acta Martyrum e é comprovada pela difusão do culto e da memória desses homens e mulheres de têmpera, bem como pelas catacumbas e pelas basílicas construídas sobre seus túmulos ou nos lugares de seu martírio.

Não por acaso, perder a vida por causa de Cristo e do Evangelho (cf. Mc 8,35) foi o destino e o mais alto testemunho almejado pelos primeiros cristãos. Derramar o próprio sangue era a forma mais estreita de seguir e vincular-se a Jesus de Nazaré: compartilhar o seu destino, na esperança de compartilhar a sua vitória. De fato, a firme crença na ressurreição e na vida eterna era o motor e a justificativa para a paz testemunhada pelos mártires diante da execução.

Com o advento da cristandade, a perseguição arrefeceu, e a radicalidade do seguimento de Jesus passou para outras arenas: o testemunho cristão já não se dava no Circo Máximo, mas no deserto. Nesse período, vemos surgir o fenômeno da vida eremítica e monástica, posteriormente continuado pela Vida Religiosa Consagrada, como uma espécie de “martírio branco” – sem derramamento de sangue, mas feito da luta contra si mesmo.

Não obstante essa mudança, a memória dos mártires permaneceu povoando a pregação e a vida cristã. É o que se pode verificar, por exemplo, no sermão proferido por santo Agostinho por ocasião da celebração do martírio do bispo São Frutuoso e de seus diáconos Augúrio e Eulógio: “bem-aventurados os santos em cujas memórias celebramos o dia de seu martírio: em troca da saúde temporal, receberam uma coroa eterna, imortalidade eterna; eles nos deixaram nessas celebrações uma exortação” (Sermão 273, 2).

A celebração dos mártires, pelo que se pode ver, não era apenas a conservação de uma história do passado, mas uma exortação no presente: um pedido, um convite para que os cristãos de hoje imitassem a força dos cristãos de ontem. Conforme ensina o Bispo de Hipona: “o povo cristão celebra a memória dos seus mártires com religiosa solenidade, para se animar a imitá-los, para participar dos seus méritos e para ser ajudado com a sua intercessão” (Contra Fausto, Livro XX, 21).

Mas o que realmente faz de alguém um mártir? Qual é o critério para definir e outorgar a alguém esse reconhecimento? A resposta a essa questão é também dada por Santo Agostinho. Segundo ele, “não é a pena, mas a causa, que faz de alguém um mártir de Deus. [Afinal] Deus se deleita com nossa justiça, e não com os tormentos que sofremos” (Sermão 285, 2). Não é, portanto, qualquer sofrimento ou morte violenta que pode ser considerado martírio.

Conforme lembra o santo bispo, “tribulações também são sofridas pelos avarentos. […] Fome, para adquirir ouro, os gananciosos também o sofrem. […] Morte, pelo ouro também morrem os avarentos. […] A tortura é a mesma, mas a causa é diferente. Onde a causa se distingue, ali a vitória é certa. Portanto, se olharmos para a causa deles, amamos as festas dos mártires. Amemos nelas não suas torturas, mas a causa delas; pois, se amamos apenas suas torturas, encontraremos muitos que sofrem coisas piores por causas más. Mas olhemos para a causa; olhem para a cruz de Cristo; havia Cristo e também havia bandidos. A tortura era semelhante, mas a causa era diferente. Um bandido acreditava, outro blasfemava. O Senhor, como se de um tribunal, atuava como juiz para ambos; quem blasfemava ele mandava para o inferno; o outro ele levava consigo para o paraíso. Por que isso? Pois, embora a tortura fosse a mesma, a causa de cada um era diferente. Escolha, então, a causa dos mártires se quiser alcançar a palma dos mártires” (Sermão 335, 2).

Sendo a causa a razão pela qual se distingue o mártir, está posto que o martírio se sofre, sobretudo, in odium fidei. O ódio à fé, contudo, não se restringe à perseguição por causa do culto ou da pregação explícita do Evangelho. O ódio à fé inclui o ódio às obras da fé; portanto, o martírio pode acontecer in odium caritatis e in odium iustitiae. De fato, essas são categorias proclamadas bem-aventuradas por Jesus: bem-aventurados os pobres, os mansos, os que choram, os misericordiosos e os que sofrem perseguição por causa da justiça (cf. Mt 5,1–12). A gramática evangélica do martírio, portanto, é ampla, porque ampla também é a causa do Reino.

Como lembrou o Papa Leão XIV, no discurso aos participantes da Conferência de estudos promovida pelo Dicastério para as Causas dos Santos, “o conceito de ‘testemunho da fé’ foi formulado precisamente para abarcar e honrar situações históricas complexas em que a motivação dos perpetradores não pode ser explicitamente atribuída ao ‘ódio à fé’. Nessa perspectiva, o trabalho da Comissão para os Novos Mártires – Testemunhas da Fé, apoiado pelo Dicastério para as Causas dos Santos, tem caráter histórico e informativo, não jurídico. Concentra-se na disposição da vítima, e não nas motivações do perseguidor. Ou seja, concentra-se na fidelidade da vítima a Cristo, no cumprimento de seu compromisso evangélico, e em como ela permaneceu fiel até a morte”. De fato, “muitos deles são mortos por abuso de poder ou por organizações criminosas porque, como cristãos, opõem-se às injustiças em nome do Evangelho”. No fundo, trata-se de “irmãos e irmãs que, em diferentes contextos geográficos, históricos e políticos, deram a vida pelo Evangelho”. Deram radical testemunho de fidelidade ao Evangelho.

De fato, como lembrou o Papa Paulo VI, na Exortação Apostólica Evangelii Nuntiandi, “para a Igreja, o testemunho de uma vida autenticamente cristã, abandonada a Deus numa comunhão que nada deve interromper, mas igualmente entregue ao próximo com zelo ilimitado, é o primeiro meio de evangelização. O homem moderno escuta com mais boa vontade as testemunhas do que os mestres”, dissemos no ano passado a um grupo de leigos, “e se escuta os mestres, é porque são testemunhas. […] É, portanto, pela sua conduta, pela sua vida, que a Igreja evangelizará, antes de mais nada, o mundo, isto é, pelo seu testemunho vivido de fidelidade ao Senhor Jesus, de pobreza e desapego, de liberdade face aos poderes deste mundo, em suma, de santidade” (EN, n. 41).

Nesse horizonte, é justo considerar que o martírio não é um elemento arqueológico, mas um evento contemporâneo. O século XXI é, sem sombra de dúvida, um tempo de novos mártires. Como atestou o Papa Francisco, na Carta com a qual constituiu a “Comissão dos Novos Mártires – Testemunhas da Fé”, junto ao Dicastério para as Causas dos Santos: “também no nosso tempo, no qual assistimos a uma mudança de época, os cristãos continuam a mostrar, em contextos de grande risco, a vitalidade do Batismo que nos une. De fato, não são poucos aqueles que, mesmo sabendo dos perigos que correm, manifestam a sua fé ou participam na Eucaristia dominical. Outros são mortos no esforço de ajudar na caridade a vida dos pobres, de cuidar dos descartados pela sociedade, de valorizar e promover o dom da paz e o poder do perdão. Outros ainda são vítimas silenciosas, individualmente ou em grupo, das convulsões da história. Em relação a todos eles, temos uma grande dívida e não os podemos esquecer”.

Conforme se pode verificar na intuição de Francisco, a gramática martirial é ampla, tal como a gramática da causa do Reino. O distintivo é, no entanto, a entrega da vida. Nesse sentido, martírio e oferta da vida são polos complementares: no martírio stricto sensu, a vida é tirada; na oferta da vida pela caridade e pela justiça, a vida é doada. Essas duas realidades, contudo, conservam um elemento comum: o dom de si por Deus e pelo próximo; o sacrifício da própria vida pela causa do Reino, em vista do cumprimento da promessa de novos céus e nova terra. Como disse o Papa Leão XIV, “as testemunhas da fé, ao darem a vida pela justiça, pela verdade, pela paz e pela liberdade, contribuíram efetivamente para a vinda dos novos céus e da nova terra, que aguardamos com confiança pela misericórdia de Deus”.

A relação entre martírio e oferta da vida pode ser favorecida pela teoria da oposição polar, de Romano Guardini. Segundo ele, “toda a extensão da vida humana parece dominada pela realidade dos opostos. Em cada um de seus conteúdos parece ser capaz de indicá-los. Provavelmente não só na vida humana; elas estão, talvez, na base de toda realidade viva e talvez de toda realidade concreta” (GUARDINI apud BOSCH, 2018, p. 86). As realidades opostas, contudo, sendo elementos de uma única realidade em tensão – e não necessariamente em contradição —, caminham em direção a uma “nova unidade”. Essa “nova unidade” surge não por meio da mistura ou da negociação, mas pela elevação dessas realidades a um nível mais alto e transcendente.

Aplicada à gramática martirial, a oposição polar permite compreender que martírio e oferta da vida, quando elevados ao nível das causas do Reino, são polos similares e complementares. Isso, por sua vez, possibilita a consideração dos inúmeros testemunhos contemporâneos de martírio: pela fé, pela defesa dos pobres e da criação, por causa da justiça e da paz.

No levantamento apresentado pela Comissão dos Novos Mártires – Testemunhas da Fé em setembro de 2025, foram reunidos cerca de 1.700 mártires e testemunhas da fé do século XXI. Na África, são 643; na Ásia e Oceania, 357; nas Américas, 304; no Oriente Médio e Magrebe, 277; na Europa, 43; e outros 110 morreram em contextos de missão fora da Europa. Essas pessoas perderam a vida em situações como perseguição religiosa e ataques terroristas, combate ao narcotráfico e ao desmatamento, defesa de comunidades contra a exploração de recursos naturais e denúncias de corrupção e abuso de poder.

No Brasil, permanecem vivas a memória e o testemunho de Irmã Dorothy Stang, SND, assassinada em 2005, em Anapu (PA), por sua atuação em defesa da floresta amazônica, dos trabalhadores rurais e dos direitos humanos; e do Beato Nazareno Lanciotti, sacerdote missionário italiano que atuou em Jauru (MT) e foi assassinado em 2001 após sua atuação contra injustiças, exploração de menores, prostituição e tráfico de drogas na região. A eles se somam muitos outros que tombaram no século XX, no contexto da ditadura militar e dos conflitos agrários no interior do país.

Essa “multidão de testemunhas” (Hb 12,1) é, inclusive, um patrimônio ecumênico. Como bem lembrou o Papa João Paulo II, na Encíclica Ut unum sint, “numa visão teocêntrica, nós, cristãos, já temos um Martirológio comum. Ele inclui também os mártires do nosso século, mais numerosos do que se poderia pensar, e mostra como, num nível profundo, Deus mantém a comunhão entre os batizados na suprema exigência da fé, manifestada pelo sacrifício da vida. Se alguém pode morrer pela fé, isso demonstra que a meta pode ser alcançada quando se trata de outras formas da mesma exigência. Já observei, e com alegria, como a comunhão, imperfeita, mas real, é mantida e cresce em muitos níveis da vida eclesial. Creio agora que ela já é perfeita naquilo que todos consideramos o ápice da vida da graça, o martírio até a morte, a mais verdadeira comunhão que existe com Cristo, que derramou o seu sangue e, neste sacrifício, aproxima aqueles que antes estavam distantes (cf. Ef 2,13).

Se para todas as comunidades cristãs os mártires são prova do poder da graça, eles não são os únicos a testemunhar esse poder. Embora invisível, a comunhão ainda não plena das nossas comunidades está, na verdade, firmemente cimentada na comunhão plena dos santos, isto é, daqueles que, ao final de uma vida fiel à graça, estão na comunhão do Cristo glorioso. Esses santos vêm de todas as Igrejas e Comunidades eclesiais, que lhes abriram a entrada na comunhão da salvação. Quando falamos de um patrimônio comum, devemos incluir nele não apenas as instituições, os ritos, os meios de salvação e as tradições que todas as comunidades preservaram e pelas quais foram moldadas, mas, antes de tudo, esta realidade da santidade” (UUS, n. 84).

O reconhecimento da santidade testemunhal e martirial a partir dessa ampliação da gramática confirma-se exatamente naquilo que o Papa Francisco disse na Exortação Apostólica Gaudete et exsultate: “gosto de ver a santidade no povo paciente de Deus: nos pais que criam os seus filhos com tanto amor, nos homens e mulheres que trabalham a fim de trazer o pão para casa, nos doentes, nas consagradas idosas que continuam a sorrir. Nesta constância de continuar a caminhar dia após dia, vejo a santidade da Igreja militante. Esta é muitas vezes a santidade ‘ao pé da porta’, daqueles que vivem perto de nós e são um reflexo da presença de Deus” (GE, n. 7).

Na defesa dessa santidade “ao pé da porta”, é justo incluir o teólogo jesuíta Karl Rahner. Em suas meditações sobre as coisas cotidianas (Alltägliche Dinge), ele mostra que a piedade verdadeira não é um verniz religioso aplicado sobre a rotina secular, mas pode ser vivida na própria existência cotidiana e no cumprimento responsável das tarefas de cada dia. Nessa perspectiva, uma espiritualidade que separa rigidamente o sagrado do cotidiano corre o risco de obscurecer o valor espiritual do trabalho e da vida ordinária.

De acordo com Rahner, a busca da perfeição cristã não deve ser reduzida à reprodução, por todos os fiéis, de formas espirituais próprias da vida monástica ou clerical. Quando a experiência cristã é artificialmente separada da rotina concreta, corre-se o risco de produzir uma dicotomia entre fé e vida, como se as ocupações ordinárias fossem espiritualmente inferiores.

Para superar essa dicotomia, Rahner recorre a uma antropologia teológica na qual a vida concreta dos seres humanos é lugar teologal: nela se acolhe a presença de Deus e se abre o ser humano ao mistério. O cotidiano – o trabalho, o descanso, o caminhar, o sentar-se, o comer, o dormir- pode tornar-se espaço de fé, sobriedade, paciência e abertura à eternidade. Nesse sentido, a fidelidade, a honestidade e o serviço ao próximo no exercício da própria vocação também podem constituir formas concretas de caridade e santidade.

A valorização dessa santidade cotidiana favorece, portanto, o reconhecimento dos inúmeros mártires, e santos de nossos dias. O testemunho do Evangelho não pertence a uma classe determinada. Ele é possível e desejável para todos os cristãos. A ampliação da gramática da santidade e do testemunho martirial rompe, portanto, com o elitismo religioso e com a ideia de uma piedade profissionalizada. Abre-se ao reconhecimento das obras da fé testemunhadas no cotidiano e nas mais diversas realidades.

Sendo assim, sim: o século XXI é um novo tempo de mártires.

Frei Jeferson Felipe Cruz, OSA
Doutorando em Teologia pela FAJE, com estágio doutoral no Pontifício Instituto Oriental, em Roma.

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Foto: Espaço da Comissão Pastoral da Terra, onde Irmã Dorothy foi sepultada. (Fernando Martinho / Repórter Brasil)

Referências:

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Sermons (273–305A) on the Saints. Tradução e notas de Edmund Hill, O.P.; ed. John E. Rotelle, O.S.A. Hyde Park, NY: New City Press, 1994. (The Works of Saint Augustine: A Translation for the 21st Century, III/8).

Sermons (306–340A) on the Saints. Tradução e notas de Edmund Hill, O.P.; ed. John E. Rotelle, O.S.A. Hyde Park, NY: New City Press, 1994. (The Works of Saint Augustine: A Translation for the 21st Century, III/9).

BOSCH, José Enrique Sobrero. A Pessoa em Romano Guardini: textos para reflectir na Antropologia Filosófica. Luanda: Rubricart, 2018.

FRANCISCO. Carta com a qual constitui a “Comissão dos Novos Mártires – Testemunhas da Fé” junto ao Dicastério para as Causas dos Santos. Vaticano, 3 jul. 2023. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/letters/2023/documents/20230703-lettera-comm-nuovimartiri.html. Acesso em: 16 set. 2026.

FRANCISCO. Exortação Apostólica Gaudete et exsultate: sobre a chamada à santidade no mundo atual. Vaticano, 19 mar. 2018. Disponível em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/apost_exhortations/documents/papa-francesco_esortazione-ap_20180319_gaudete-et-exsultate.html. Acesso em: 16 set. 2026.

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SND – Congregação das Irmãs de Notre Dame de Namur