O primeiro grande documento do magistério pontifício de Leão XIV é a Exortação Apostólica Dilexi te, sobre o amor para com os pobres. Os documentos papais são de vários tipos: encíclicas, exortações ou cartas apostólicas, bulas, breves, etc. Uma exortação apostólica se caracteriza por ser um documento pastoral importante do Papa, menos solene que uma encíclica, que oferece reflexões, orientações e um chamado à conversão, acerca de temas específicos, encorajando a uma vivência mais autêntica e profunda, como a fé dos jovens, a importância da família, o amor aos pobres. Normalmente o texto oficial vem em latim e o seu nome deriva das duas ou três primeiras palavras do documento.
A Dilexi te (DT), “Eu te amei”, é inspirada na passagem de Apocalipse 3,9, em que “diz o Senhor a uma comunidade cristã que, ao contrário de outras, não tinha qualquer relevância ou recurso e estava exposta à violência e ao desprezo (…) A declaração de amor do Apocalipse remete ao mistério insondável que foi aprofundado pelo Papa Francisco na encíclica Dilexit Nos [‘Ele nos amou’] sobre o amor divino e humano do Coração de Jesus. Nela admiramos o modo como Jesus se identifica com os últimos da sociedade e como, através do seu amor doado até o fim, mostra a dignidade de cada ser humano, sobretudo quando é mais fraco, mísero e sofredor” (DT 1.2).
Este é um documento, podemos dizer, escrito a “quatro mãos”. O Papa esclarece que esta exortação “sobre o amor para com os pobres” estava sendo preparada pelo Papa Francisco e que ele, Leão, a assume como sua, completando-a e oferecendo algumas reflexões próprias. O estilo do documento, mais simples que uma encíclica, aparece quase como um colóquio, um diálogo com os leitores, tendo o tom familiar de uma carta. Além de autores do magistério pontifício e outros eclesiásticos, ele traz citações de poetas, historiadores, escritores… faz recurso a obras literárias e às artes, bem como a fatos do cotidiano, alguns ligados à história pessoal. Há contínuas referências ao Papa Francisco e, de modo geral, há ressonâncias agostinianas em todo o texto.
Todo o documento ressoa o ensinamento de Santo Agostinho, a começar do tema central, “o amor para com os pobres”. O amor é a categoria central para entender a espiritualidade de Santo Agostinho: é a chave de leitura das Sagradas Escrituras; o núcleo de sua filosofia e teologia; a sua compreensão do mistério da Igreja; o cerne de seu estilo de vida comunitária. Vejamos de forma sucinta os principais temas do documento.
No primeiro capítulo, o Papa diz “algumas palavras indispensáveis”, recordando São Francisco de Assis, cuja “figura luminosa jamais deixará de nos inspirar”. Ao ouvir o clamor do pobre, somos chamados a identificar-nos com o coração de Deus, que está atento às necessidades dos seus filhos, especialmente os mais necessitados (DT 8). É necessário desfazer-nos de preconceitos ideológicos, como achar que a pobreza é natural, ou que existem pobres porque é da vontade de Deus.
No capítulo segundo, o Papa traz as fundamentações bíblicas da opção pelos pobres, como algo essencial da mensagem de Jesus, o messias pobre. “Efetivamente, Deus mostra predileção pelos pobres: a eles primeiramente se dirige a palavra da esperança e libertação do Senhor, e por isso ninguém, apesar da condição de pobreza, deve sentir-se abandonado. E a Igreja, se deseja ser de Cristo, deve ser Igreja das Bem-aventuranças, Igreja que dá vez aos pequeninos e caminha pobre com os pobres, lugar onde os pobres têm um espaço privilegiado (cf. Tg 2,2-4).” (DT 21). O Papa afirma que o programa de caridade nas primeiras comunidades cristãs deriva diretamente do exemplo de Jesus, das próprias palavras do Evangelho e isso orientou a Igreja em sua bimilenar tradição.
Assim se introduz o terceiro capítulo, que traça a trajetória histórica da Igreja em seu amor e cuidado com os pobres, através de numerosas exemplos, que vão desde a Igreja antiga até os dias atuais. É neste capítulo que o Papa cita explicitamente Santo Agostinho, inserindo-o na esteira dos anteriores Padres da Igreja e colocando-o como inspirador de outros modelos de vida (DT 43-48). Santo Agostinho aprende a virtude da misericórdia com Santo Ambrósio de Milão: ela tem um caráter profético, denuncia as estruturas de acúmulo, purifica o coração e reafirma a comunhão como vocação de toda a Igreja (DT 43).
Santo Agostinho vê no pobre o próprio Cristo: o pobre não é alguém a quem somente se presta um auxílio, mas é a própria presença sacramental do Senhor (DT 44). O amor concreto aos pobres prova a sinceridade da fé, é motivo de recompensa: “quanto maior o amor aos pobres, maior a recompensa da parte de Deus” (DT 45). “O amor preferencial pelos pobres é expressão da comunhão de bens que caracteriza a vida dos seguidores de Cristo. As esmolas são um sinal concreto da fé, da conversão do coração, purificação dos pecados, caminho ordinário para seguir a Cristo” (DT 46). O supérfluo não nos pertence, é propriedade dos pobres.
O Papa conclui o tópico específico sobre Santo Agostinho, afirmando: “Hoje, a fidelidade aos ensinamentos de Agostinho exige não só o estudo de suas obras, mas também a predisposição para viver com radicalidade seu apelo à conversão, que inclui, necessariamente, o serviço da caridade” (DT 47).
No quarto capítulo, o Papa mostra como essa história continua por meio da Doutrina Social da Igreja (DSI). Baseado na DSI, ele explica como as “estruturas de pecado” criam a pobreza e as desigualdades extremas. Aqui ele traz a experiência das Igrejas da América Latina e do Caribe, explicitando pontos importantes do magistério das conferências gerais do episcopado latino-americano e caribenho que, entre outros aspectos, ensinam que os pobres são sujeitos de sua história e também da ação evangelizadora: “Nessa perspectiva, torna-se clara a necessidade de que todos nos deixemos evangelizar (…) … os pobres aprenderam muitas coisas que guardam no mistério dos seus corações” (DT 102).
Por fim, no quinto capítulo, citando a parábola do bom samaritano (Lc 10,25-37), o Papa recorda que o amor aos pobres é “um permanente desafio” para a Igreja, pois “a realidade é que, para os cristãos, os pobres não são uma categoria sociológica, mas a própria carne de Cristo” (DT 110). Tocar a carne de Cristo nos pobres volta sempre como uma espécie de refrão ao longo do documento.
Nas obras de Santo Agostinho, há dois textos bíblicos-chave, os mais repetidos em suas reflexões: o duplo mandamento do amor (Mt 22,37-40) e o “sermão escatológico” (Mt 25, 35-45), aquele em que Jesus afirma que tudo o que fizermos ao mais pequenino de seus irmãos será a Ele que o faremos. Santo Agostinho, tanto em seus escritos, como em sua prática pastoral, demonstrou um particular amor aos pobres. Numerosos são os sermões, cartas e gestos concretos nos quais nós o percebemos.
No final do documento, o Papa faz uma reflexão na qual vemos ressoar a voz de Santo Agostinho, ainda que não o cite: “O amor cristão supera todas as barreiras, aproxima os que estão distantes, une os estranhos, torna familiares os inimigos, atravessa abismos humanamente insuperáveis, entra nos meandros mais recônditos da sociedade. Por sua natureza, o amor cristão é profético, realiza milagres, não tem limites: é para o impossível. O amor é sobretudo uma forma de conceber a vida, um modo de viver. Assim, uma Igreja que não coloca limites ao amor, que não conhece inimigos a combater, mas apenas homens e mulheres a amar, é a Igreja de que o mundo hoje precisa” (DT 120). Essa reflexão remete a um aforismo que é uma espécie de síntese do pensamento agostiniano, a ele atribuído: “A medida do amor é o amor sem medidas”, que se casa muito bem com sua conhecida frase: “Ama e faze o que quiseres” (Tratado à 1ª. Carta de S. João 7,8).

Frei Luiz Antônio Pinheiro, OSA
Artigo publicado na coluna Reflexão, do Jornal Inquietude On-line, edição de dezembro de 2025.
Imagem: Arquivo Cúria Provincial – Dia Mundial dos Pobres 2025 – Igreja Nossa Senhora da Consolação e Correia, Belo Horizonte/MG.