Religião e eleições no Brasil contemporâneo

Em 2010, a editora inglesa Polity Press publicou uma coletânea de “cartas” escritas pelo sociólogo Zygmunt Bauman. O título da publicação é exatamente 44 Cartas ao Mundo Líquido Moderno. Em uma dessas cartas, a de número 31, Bauman problematiza a ânsia messiânica da humanidade e sua tendência a transferir para terceiros, transcendentes e imanentes, a responsabilidade pela transformação da história.

No meio da argumentação, Bauman levanta a seguinte questão: “hoje fala-se muito de ‘politização da religião’, mas pouca atenção se dá à tendência paralela de ‘religionarização da política’. [Quando] conflitos de interesse que recorrem à negociação e à conciliação (o pão de cada dia da política) são apresentados como um confronto decisivo entre o bem e o mal, o que inviabiliza qualquer acordo negociado” (2011, p. 180).

A questão levantada por Bauman, lá em 2010, parece perdurar e expandir-se. E o pleito eleitoral no Brasil, nesses últimos anos, é uma prova contundente dessa expansão da “religionarização da política”. Para bem da verdade, embora o Brasil seja um país laico, há alguns anos os discursos religiosos povoam a cena política. Nas eleições para a Assembleia Constituinte de 1933, por exemplo, a Igreja Católica criou a Liga Eleitoral Católica (LEC), que, embora não fosse um partido, dava seu “selo de aprovação” a candidatos que assinassem um compromisso de defender os valores cristãos. Hoje é a vez da bancada evangélica, ancorada na teologia do domínio, que busca fazer do Brasil um país “radicalmente evangélico”.

Obviamente, esse “casamento” entre religião e política não é privilégio do Brasil. Como também não é privilégio da democracia nem da liberdade de expressão. Os fascismos, de ontem e de hoje, projetaram-se a partir do slogan religioso: “Deus, Pátria e Família”. E, se formos ainda mais consequentes, precisamos convir que a relação entre religião e política remonta, ab antiquo, aos mais antigos sistemas políticos. Basta pensar, por exemplo, que, na Roma de Diocleciano, as desobediências cultuais eram tratadas como crimes contra o Império.

Mas qual é a razão e o sentido dessa relação? Bauman entende que ela deriva, dentre outras coisas, da expectativa messiânica e terceirizante. Segundo ele, “como as organizações que buscam poder político ou religioso atuam no mesmo território, têm em vista a mesma clientela e prometem atender a necessidades semelhantes, não surpreende que tendam a intercambiar técnicas e estratégias e a adotar, com pequenos ajustes, métodos e argumentos uns dos outros. Os fundamentalismos religiosos recorrem pesadamente ao inventário de problemas sociais que se julga pertencer ao domínio e à propriedade da política; os fundamentalismos políticos (ostensivamente seculares) em geral se valem da linguagem religiosa sobre o combate decisivo do bem contra o mal e usam a tendência monoteísta para detectar, anatematizar e exterminar qualquer sintoma, por minúsculo, inócuo e marginal que seja, de heresia ou heterodoxia, inclusive a atitude morna ou indiferente em relação à (una e única) doutrina verdadeira” (2011, p. 179-180).

No Brasil contemporâneo, muitos candidatos(as) conquistaram votos e foram eleitos não por apresentarem propostas “políticas”, mas por esbravejarem discursos de cunho religioso, apresentando-se como “cavaleiros” em defesa da moral e dos bons costumes. A grande crítica feita por esses atores é que a sociedade contemporânea perdeu o senso de Deus e, para piorar, o catolicismo está contaminado pelo comunismo, fazendo com que a população brasileira esteja desnorteada por não se referenciar mais nas verdades e nos valores religiosos. Mas será mesmo assim? No Brasil, “Deus está morto”?

A realidade aponta para o contrário. O Brasil é um país religioso, e sua gente demonstra ter fé. A questão, portanto, não é o quão religioso é o Brasil, mas o quanto a religião conforma a vida real (e não apenas as intimidades). Quanto de Evangelho há no dia a dia do povo brasileiro?

Em 1986, o Papa João Paulo II publicou a encíclica Dominum et Vivificantem, dedicada ao Espírito Santo. Como era do seu feitio magisterial, o papa polonês, entre outros temas, fez, nessa encíclica, uma dura e lúcida crítica ao materialismo e à ideologia da “morte de Deus”. Segundo ele, “a ideologia da ‘morte de Deus’, pelos seus efeitos, facilmente demonstra ser, tanto no plano da teoria como no da prática, a ideologia da ‘morte do homem’” (DeV, n. 56).

Sem dúvida, a perda do senso transcendente pode comprometer a consciência do que significa ser humano. Mas, por outro lado, o senso transcendente não garante, sem mais, a plena consciência de humanidade. Pelo menos, foi isso que se viu no Brasil nas eleições de 2026, em que “cristãos” desejaram a morte de pessoas, promoveram boicotes a entidades filantrópicas e igrejas, trataram com desprezo uma região inteira do país, pelo simples fato de um dos candidatos ter perdido.

A ideologia da “morte de Deus” demonstra ser a ideologia da “morte do homem”. Mas a fé em um “Deus vivo” corresponde à “vida do homem”? Em tese, essa deveria ser a consequência, mas, infelizmente, não é o que vemos acontecer. Os ditos religiosos são os primeiros a promover a morte, a perseguição, a violência e a exclusão. Ao mesmo tempo em que defendem “os valores cristãos”, fecham os olhos à barbárie. Ao mesmo tempo em que desejam “consagrar o país ao Senhor Jesus”, negociam o Evangelho e, ao traí-lo, distanciam-se dos ensinamentos básicos do Mestre de Nazaré.

Nesse horizonte, a relação entre política e religião só faz sentido se o interesse último for a Política (com P maiúsculo: o bem comum); se os valores religiosos servirem, de fato, para defender e resguardar a dignidade de todas as pessoas, especialmente das mais vulneráveis. Da mesma forma, faria sentido se a religião fosse ouvida quando dá “nome aos bois” e chama o bem e o mal pelo nome, afinal, como ensina o Concílio Vaticano II, “tudo aquilo que se opõe à própria vida, como sejam os homicídios de qualquer espécie, os genocídios, os abortos, a eutanásia; tudo aquilo que constitui uma violação da integridade da pessoa humana, como sejam as mutilações, as torturas morais ou físicas, as pressões psicológicas; tudo aquilo que ofende a dignidade do homem, como sejam as condições infra-humanas de vida, as prisões arbitrárias, as deportações, a escravatura, a prostituição, o comércio de mulheres e de jovens, ou ainda as condições de trabalho degradantes, que reduzem os operários a meros instrumentos de lucro, sem ter em conta a sua personalidade livre e responsável. Todas estas coisas e outras semelhantes são, na verdade, uma infâmia; ao mesmo tempo em que corrompem a civilização humana, desonram mais os que a elas se entregam do que aqueles que sofrem a injúria; e ofendem gravemente a honra devida ao Criador” (GS, n. 16).

Não será a hora, no Brasil político-religioso, de redescobrir a veia profética da religião? Não será a hora de insistir que o Evangelho não tem partido, mas tem projeto político? Por mais que isso custe incompreensão e perseguição, essa é a única forma de vencer a tentação do messianismo terceirizante e de superar a disputa entre a “politização da religião” e a “religionarização da política”, a fim de garantirmos a democracia e os direitos fundamentais do ser humano e da casa comum.

Frei Jeferson Felipe Cruz, OSA
Doutorando em Teologia