Por uma “outra” gramática da santidade

O calendário das festas populares no Brasil tem como epicentro o carnaval. A festa é tão importante que se tornou comum defini-la como a medida para o início do ano. No Brasil, o ano só começa depois do carnaval – reza o ditado. De fato, os dias que antecedem a quaresma católica marcam, não só o calendário, mas, em certa medida, a identidade do povo brasileiro. Além disso, a festividade movimenta a economia, abre alas para a criatividade, congrega os diversos e oferece uma trégua para a coletânea de agruras, permitindo um pouco de alegria.

Em 1975, pelas ondas da Rádio Olinda AM, no programa “Um olhar sobre a cidade”, Dom Helder Câmara (1909-1999) disse: “carnaval é a alegria popular. Direi mesmo, uma das raras alegrias que ainda sobram para a minha gente querida. Peca-se muito no carnaval? Não sei o que pesa mais diante de Deus: se excessos, aqui e ali, cometidos por foliões, ou farisaísmo e falta de amor por parte de quem se julga melhor e mais santo por não brincar o carnaval. Brinque, meu povo querido! Minha gente queridíssima. É verdade que na quarta-feira a luta recomeça, mas ao menos se pôs um pouco de sonho na realidade dura da vida”.

Por certo, o carnaval não é só maravilhas. Com a alegria dos blocos, também comparecem nas ruas violência e todo tipo de excessos. Nada que destoe do restante do ano, é verdade. A violência das torcidas organizadas, por exemplo, mostra-se muito mais letal e frequente que os incidentes registrados durante o carnaval. Contudo, há uma tensa disputa que, no carnaval, se sobrepõe: a disputa narrativa. Muitos carnavalescos e foliões aproveitam a “liberdade satírica” que a festa possibilita para defender as mais variadas pautas. Por outro lado, sobretudo entre os grupos religiosos cristãos (católicos e protestantes), se propagam discursos de resistência moral e, em certos casos, de condenação, desembocando numa “guerra de narrativas” entre “nós” e “eles”.

“Peca-se muito no carnaval?” – perguntava Dom Helder. Há quem defenda com espada e cruz que “é impossível ser santo pulando no carnaval”. Será? Será que as coisas são tão divergentes assim? Será que a santidade depende, exclusivamente, do comportamento durante as festas? Será que são as festas o problema e o empecilho para a santidade? A questão precisa ser posta. Afinal, o que é a santidade? O que significa ser santo?

Antes de tudo, é preciso esclarecer que não nos interessa aqui elaborar um compêndio ou um tratado sobre a santidade. Nosso desejo é provocar a reflexão sobre seu significado frente às tendências narrativas que vão ganhando espaço em nosso tempo. Para começar, portanto, bastaria lembrar que a gramática da santidade é polissêmica. Ou seja, não existe uma única maneira de viver a santidade. Como ela não resulta do esforço humano somente, mas conta com o socorro da graça divina; e como o Espírito Santificador é “dinâmico e criativo”, e derrama a santidade por toda a parte, existem diversas formas de “ser santo”. A história do cristianismo e, mais precisamente, o rol das canonizações são prova disso.

Como bem lembrou o Papa Francisco (1936-2025), na Exortação Apostólica Gaudete et Exsultate (2018), “o Concílio Vaticano II salientou vigorosamente: ‘munidos de tantos e tão grandes meios de salvação, todos os fiéis, seja qual for a sua condição ou estado, são chamados pelo Senhor à perfeição do Pai, cada um por seu caminho’. ‘Cada um por seu caminho’, diz o Concílio. Por isso, uma pessoa não deve desanimar, quando contempla modelos de santidade que lhe parecem inatingíveis. Há testemunhos que são úteis para nos estimular e motivar, mas não para procurarmos copiá-los, porque isso poderia até afastar-nos do caminho, único e específico, que o Senhor predispôs para nós. Importante é que cada crente discirna o seu próprio caminho e traga à luz o melhor de si mesmo, quanto Deus colocou nele de muito pessoal (cf. 1 Cor 12, 7), e não se esgote procurando imitar algo que não foi pensado para ele. Todos estamos chamados a ser testemunhas, mas há muitas formas existenciais de testemunho. […] Pois a vida divina comunica-se a uns duma maneira e a outros doutra” (GE 10-11).

Não obstante a polissemia, a partir da Idade Média, sobretudo, a santidade foi sendo compreendida a partir da lógica separatista entre o sagrado e o profano.[1] Santo é tudo aquilo (inclusive pessoas) que foi “separado”; tudo aquilo que não se mistura com o profano. O profano, por sua vez, seria tudo aquilo que compõe o cotidiano e a crueza da vida. Por exemplo: o templo é santo; o mercado é profano. Essa lógica separatista atingia os lugares, os espaços, as coisas, as pessoas e as relações. Um aspecto de merecido destaque, nesse sentido, é o relativo à corporeidade e à sexualidade.

Desde os seus primórdios, o cristianismo, influenciado por outras referências diversas de Jesus de Nazaré,[2] construiu uma relação ruidosa com a sexualidade humana.[3] Na gramática da santidade, não por acaso, a moral sexual ganhou relevo. A ponto de, entre as virtudes heroicas,[4] a castidade passar a ocupar lugar de destaque. E, com certa frequência, ser identificada como sinônimo de santidade, e vice-versa. Contudo, como dissemos anteriormente, a gramática da santidade é polissêmica. Daí a importância de revisitar outros referenciais que atestam essa “divina e diversa possibilidade” de viver a santidade.

De acordo com a narrativa do evangelista Mateus, no meio do Sermão da Montanha, Jesus profere a seguinte sentença: “sede santos, como vosso Pai Celeste é santo” (Mt 5, 48). Esse dito, curiosamente, conclui a sessão sobre o amor aos inimigos. De acordo com a lógica de Jesus, o que mais nos aproxima de Deus é a capacidade de amar a todos, inclusive aos inimigos. “Só assim seres verdadeiramente filhos do vosso Pai que está nos céus, pois ele faz nascer o sol sobre maus e bons, e faz cair a chuva sobre os justos e os injustos.” (Mt 5, 45)

A sentença sobre a santidade não é novidade. Muito provavelmente, o Mestre de Nazaré a citou relembrando aquilo que fora dito pelo Senhor a Moisés, para que fosse anunciado a toda comunidade dos filhos de Israel, conforme está registrado no livro do Levítico (cf. Lv 19). Esse registro é um esclarecedor exemplo da polissemia da gramática da santidade. Depois de ordenar a comunicação do dever da santidade, o Senhor Deus elenca quais são as observâncias que resultarão na santificação do povo.

A primeira recomendação é relativa ao respeito para com os pais (cf. Lv 19, 3). Como também figura entre os mandamentos, a honra aos progenitores é um componente de santificação. Em seguida, aparecem recomendações relativas ao culto, o modo de oferecer sacrifícios ao Senhor. Depois, aparece um conjunto de recomendações relativas ao trato com o próximo e com a terra. Em termos comparativos, no elenco do Levítico, a santidade tem mais a ver com as relações humanas e com a natureza do que com Deus mesmo.

Por exemplo, assim está no Levítico:
“Quando fizerdes a colheita, não a farás até o limite extremo; não apanharás as espigas deixadas no campo depois da ceifa… não juntarás os frutos caídos; deixá-los-ás para o pobre e para o migrante” (Lv 19, 9);
“Não explores teu próximo e não o roubes; não segures o salário do trabalhador até o dia seguinte; não insultes um surdo e não ponhas obstáculo diante de um cego” (Lv 19, 13);
“Não tenhas nenhum pensamento de ódio contra teu irmão… não te vingues e não sejais rancoroso… ama o teu próximo como a ti mesmo” (Lv 19, 17-18);
“Levanta-te diante dos cabelos brancos e sê cheio de respeito por um ancião” (Lv 19, 32);
“Quando um migrante vier morar junto a ti, na tua terra, não o exploreis; esse migrante que mora entre vós, tratá-lo-eis como um nativo, como um de vós; amá-lo-ás como a ti mesmo” (Lv 19, 33);
“Não cometais injustiça naquilo que está regulamentado: nas medidas de comprimento, de peso e de capacidade” (Lv 19, 34).

Esse conjunto de recomendações materializa o “sede santos”. Em outras palavras, será santo como o Pai Celeste quem pôr em prática essas recomendações que, como vemos, pouco ou nada têm a ver com a obsessão sexual das narrativas de santidade contemporâneas. Obviamente, a castidade e a responsabilidade com a vivência da sexualidade e da pulsão erótica são elementos importantes para se alcançar a integração pessoal e, por certo, a santidade. Contudo, são elementos componentes; não são elementos definidores e exaustivos. Pelo menos, não a partir da lógica do Levítico. Lógica esta que, inclusive, é reforçada por Jesus.

No capítulo 25 do Evangelho segundo Mateus, ao descrever o juízo final, Jesus deixa claro que os critérios de salvação são aqueles relativos ao trato com o próximo, sobretudo com os mais pequeninos: me deste de comer e beber, me vestistes, me fostes visitar (cf. Mt 25, 31-45). Conforme lembrou o Papa Francisco, “se andamos à procura da santidade que agrada a Deus, neste texto encontramos precisamente uma regra de comportamento com base na qual seremos julgados […]. Deste modo, ser santo não significa revirar os olhos num suposto êxtase […]. O Senhor deixou-nos bem claro que a santidade não se pode compreender nem viver prescindindo destas suas exigências, porque a misericórdia é o coração pulsante do Evangelho” (GE 95-97).

É possível ser santo, mesmo “pulando no carnaval”? Ao que parece, dada a polissemia da gramática da santidade e, mais ainda, a onipotência da graça divina, sim. E se o Senhor pode fazer nascer filhos de Abraão entre pedras (cf. Mt 3, 9; Lc 3, 8), com certeza, poderá suscitar santos e santas mesmo no carnaval. Até porque a santidade está mais próxima dos corações alegres do que dos corações amargurados.

Frei Jeferson Felipe Cruz, OSA
Doutorando em Teologia
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Foto de capa: Dom Helder Câmara no Carnaval de Olinda/PE.

– Referências:

[1] Para aprofundar a distinção, sugerimos: ELIADE, Mircea. O sagrado e o profano: a essência das religiões. 4ª Ed. São Paulo: Martins Fontes, 2018. Outra preciosa distinção sobre esses conceitos é proposta por Levinas na obra: LEVINAS, Emmanuel. Do sagrado ao santo: cinco novas interpretações talmúdicas. São Paulo: Civilização Brasileira, 2011.

[2] É inegável, por exemplo, a influência das mais variadas escolas filosóficas oriundas do helenismo, como por exemplo: o platonismo, o epicurismo, o estoicismo, etc. Para aprofundar sugerimos, por exemplo, o texto de Alex Ângelo Batistela Júnior: A influência do pensamento estoico no início do cristianismo, disponível em: https://ta.dehoniana.com

[3] Para aprofundar, sugerimos: o texto de Bruna Suruagy do Amaral Dantas: Sexualidade, cristianismo e poder, publicado na Revista de Estudos e Pesquisas em Psicologia, Vol.10, n.3. Disponível em: https://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1808-42812010000300005

[4] Atente-se que o conjunto das virtudes heroicas, tal como requerido em um processo de canonização, remete-se às virtudes teologais e às virtudes cardeais. A castidade, neste caso, pertence à virtude cardeal da temperança.