Ao celebrarmos o primeiro aniversário da eleição do Papa Leão XIV, somos convidados a contemplar, com espírito de fé e gratidão, os caminhos que vêm sendo trilhados neste início de pontificado. Entre os diversos temas que emergem com força em suas primeiras intervenções, destaca-se a sinodalidade como eixo fundamental de sua compreensão de Igreja. Mais do que uma pauta pastoral, trata-se de um horizonte eclesiológico que aponta para a identidade mais profunda do povo de Deus: um povo chamado a caminhar junto na história, guiado pelo Espírito.
Desde o início de seu ministério petrino, o Papa tem deixado claro que deseja uma Igreja marcada pela comunhão, pelo diálogo e pela abertura. Em seu primeiro pronunciamento, manifestou esse horizonte ao afirmar: “Devemos procurar juntos o modo de ser uma Igreja missionária, uma Igreja que constrói pontes, que constrói o diálogo”. Essa afirmação revela que a sinodalidade, para ele, não é apenas estrutura, mas estilo: um modo de ser Igreja que nasce do encontro e se realiza na comunhão.
Essa perspectiva se insere em continuidade com o caminho já consolidado pelo magistério recente, especialmente pelo Papa Francisco, e encontra fundamento na Lumen Gentium, que apresenta a Igreja como povo de Deus em caminho. No entanto, o atual pontífice imprime um acento próprio: a necessidade de consolidar institucionalmente esse processo, garantindo que a sinodalidade não seja apenas uma experiência, mas um princípio duradouro da vida eclesial.
Em outro momento significativo, ao falar sobre o caminho da Igreja no contexto atual, o Papa afirmou claramente: “Queremos ser uma Igreja sinodal, uma Igreja que caminha, uma Igreja que procura sempre a paz e a caridade”. Aqui aparece com força a dimensão espiritual da sinodalidade: caminhar juntos não é apenas organizar-se melhor, mas viver o Evangelho na lógica da comunhão e da fraternidade.
Um dos elementos mais importantes de seu magistério inicial é a relação entre sinodalidade e tradição conciliar. Em audiência ao Colégio Cardinalício, destacou a necessidade de renovar a adesão ao caminho iniciado pelo Concílio Vaticano II, sublinhando “o crescimento na colegialidade e na sinodalidade” e a atenção ao sensus fidei do povo de Deus. Essa afirmação demonstra que sua proposta não nasce do zero, mas se insere em um processo eclesial mais amplo, que atravessa décadas e encontra hoje novo impulso.
Ao mesmo tempo, o Papa Leão XIV evidencia uma preocupação particular com a unidade da Igreja. Na homilia de início de pontificado, expressou esse desejo com clareza: “Uma Igreja unida, sinal de unidade e comunhão, que se torne fermento para um mundo reconciliado”. A sinodalidade, nesse sentido, não é apenas participação, mas caminho de comunhão, capaz de testemunhar ao mundo a possibilidade de unidade em meio às diferenças.
Outro aspecto relevante é a relação entre sinodalidade e ecumenismo. Em encontro com representantes de outras tradições religiosas, o Papa afirmou seu desejo de “promover o caráter sinodal da Igreja Católica e desenvolver novas formas de sinodalidade no campo ecumênico”. Isso amplia o horizonte sinodal, mostrando que ele não se limita à vida interna da Igreja, mas se abre ao diálogo com o mundo e com outras confissões cristãs.
Além das palavras, seus gestos também apontam nessa direção. Ao encorajar o trabalho do Sínodo dos Bispos, recordou a importância de sua dimensão institucional, indicando que a sinodalidade deve ser vivida em comunhão com a estrutura hierárquica da Igreja. Esse aspecto revela um traço característico de seu pontificado: a busca por integrar participação e estrutura, carisma e instituição, escuta e autoridade.
À luz da espiritualidade agostiniana, esse caminho ganha ainda mais profundidade. A tradição agostiniana, centrada na vida comum e na busca compartilhada da verdade, oferece um horizonte privilegiado para compreender a sinodalidade. Não por acaso, o próprio Papa, ao recordar sua identidade espiritual, retoma a intuição agostiniana de uma Igreja construída na comunhão: caminhar juntos é expressão da caridade que nos une em Cristo.
Assim, ao longo deste primeiro ano de pontificado, o Papa Leão XIV tem confirmado, com palavras e gestos, que a sinodalidade permanece no coração da vida eclesial. Se com o Papa Francisco ela ganhou impulso pastoral e missionário, em seu pontificado ela tende a encontrar maior estabilidade e consolidação.
Diante desse horizonte, somos chamados a acolher esse caminho não apenas como orientação institucional, mas como apelo espiritual. A sinodalidade começa em cada comunidade, em cada processo vocacional, em cada espaço onde aprendemos a escutar, dialogar e discernir juntos.
Celebrar este primeiro ano de pontificado é, portanto, renovar nosso compromisso com uma Igreja que caminha unida. Uma Igreja que, fiel ao Evangelho, se deixa conduzir pelo Espírito e reconhece que ninguém caminha sozinho, mas sempre como povo reunido na comunhão.

Frei Caio Filipe de Lima Pereira, OSA¹
Secretário de Animação Vocacional e Juvenil
Artigo publicado na edição especial do Jornal Inquietude On-line, em homenagem ao primeiro ano do pontificado do Papa Leão XIV – 8 de maio de 2026.
Foto: Arquivo Cúria Geral Agostiniana
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REFERÊNCIAS
[1] Religioso agostiniano da Província Nossa Senhora da Consolação do Brasil. Licenciado em Filosofia e bacharel em Teologia. Atualmente, exerce o ministério de promotor vocacional e responsável pelo Secretariado de animação vocacional e juvenil da Província, e é membro da equipe de formação do Professório agostiniano em Belo Horizonte, Minas Gerais.
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