A reflexão acerca da caridade como princípio formal da ordem social constitui um eixo hermenêutico decisivo para compreender a unidade interna da Doutrina Social da Igreja (DSI). Longe de se configurar como um sistema ético autônomo ou como um conjunto de diretrizes sociopolíticas exteriores à fé, a DSI revela-se, em sua essência, como expressão histórica da caridade cristã — isto é, da participação concreta no amor de Deus revelado em Cristo e comunicado à Igreja ao longo da história.
Tal perspectiva encontra seu fundamento na própria tradição apostólica, em que a vida da comunidade cristã primitiva se organizava em torno da comunhão fraterna, da fração do pão e da partilha dos bens[1]. A caridade não aparece, portanto, como um elemento periférico, mas como princípio constitutivo da vida eclesial. Essa intuição originária foi aprofundada pela tradição patrística, alcançando em Santo Agostinho uma formulação de singular profundidade teológica.
Na doutrina agostiniana do ordo amoris, encontra-se um dos fundamentos mais sólidos para a compreensão da ordem social. Para Agostinho, a justiça consiste na reta ordenação do amor: amar cada realidade segundo o seu devido valor. Assim, a sociedade justa não se estabelece primariamente por normas externas, mas pela conformação do amor humano ao amor divino. Como afirma a Cidade de Deus (Agostinho, 2017, XIX, 13), “a paz da cidade é a tranquilidade da ordem”. Tal ordem não é apenas jurídica, mas espiritual, pois radica na orientação do coração humano.
Dessa forma, a caridade é compreendida como forma virtutum, isto é, a forma de todas as virtudes, inclusive da justiça. Essa chave permite interpretar os princípios clássicos da DSI — bem comum, solidariedade e subsidiariedade — como expressões históricas da caridade. O bem comum manifesta o amor que busca o florescimento integral de todos; a solidariedade traduz a comunhão efetiva entre os membros da sociedade; e a subsidiariedade preserva a dignidade da pessoa, evitando sua instrumentalização.
Essa tradição teológica foi sistematizada no magistério moderno a partir de Leão XIII, especialmente na encíclica Rerum Novarum, que inaugura a abordagem orgânica da questão social. Ainda que situada em um contexto histórico específico, essa encíclica já evidencia que a justiça social não pode ser dissociada da caridade cristã. Tal desenvolvimento encontra continuidade no magistério posterior e é aprofundado pelo Concílio Vaticano II, particularmente na Gaudium et Spes, que insere a ação social da Igreja no horizonte da missão salvífica.
É nesse horizonte de continuidade que se insere o magistério do Papa Leão XIV, que retoma e aprofunda essa tradição ao reafirmar o fundamento teológico da ação social da Igreja. Em sua exortação apostólica Dilexi Te, o Papa declara de modo inequívoco: “não estamos no horizonte da beneficência, mas no da Revelação”. Tal afirmação é programática, pois desloca a compreensão da caridade do plano meramente assistencial para o âmbito teológico, indicando que a ação social da Igreja é participação no próprio amor revelado de Deus.
Essa perspectiva é reforçada quando o Pontífice afirma que “contemplar o amor de Cristo […] ajuda-nos a prestar mais atenção ao sofrimento e às necessidades dos outros, e torna-nos suficientemente fortes para participar na sua obra de libertação” (n. 2). Aqui se evidencia que a caridade não é apenas um sentimento, mas uma força transformadora que impele à ação concreta na história.
Leão XIV explicita ainda a unidade entre amor a Deus e compromisso social ao afirmar que é necessário “perceber a forte ligação existente entre o amor de Cristo e o seu chamamento a tornarmo-nos próximos dos pobres” (n. 3). Essa formulação retoma, em chave contemporânea, a intuição agostiniana do ordo amoris, mostrando que a autenticidade do amor a Deus se verifica na relação com o próximo, sobretudo com os mais vulneráveis.
Nesse sentido, a centralidade dos pobres emerge como critério hermenêutico fundamental. O Papa afirma que “no apelo a reconhecê-Lo nos pobres e atribulados, revela-se o próprio coração de Cristo” (n. 3). Tal afirmação não apenas reforça a dimensão ética da caridade, mas a eleva ao nível teológico: o pobre torna-se lugar de revelação, espaço privilegiado do encontro com Cristo.
Além disso, Leão XIV aprofunda essa perspectiva ao afirmar que “o contato com quem não tem poder nem grandeza é um modo fundamental de encontro com o Senhor da história” (n. 5). Aqui se delineia uma verdadeira teologia da presença de Cristo nos pobres, que confere à caridade uma dimensão quase sacramental.
Essa mesma orientação não se limita à exortação apostólica, mas se estende de modo coerente a outros pronunciamentos do magistério do Papa Leão XIV. Nas catequeses das audiências gerais de janeiro de 2026, o Papa evidencia que a vida cristã exige a integração entre interioridade e compromisso social, indicando que a transformação das estruturas sociais pressupõe a conversão do coração. Tal perspectiva reforça, em chave espiritual, a doutrina agostiniana do ordo amoris.
No âmbito missionário, o Pontífice afirma que a evangelização comporta necessariamente a promoção humana, indicando que o anúncio do Evangelho implica a transformação das condições de vida dos mais pobres. Aqui, a caridade aparece como dimensão constitutiva da missão da Igreja, e não como um efeito secundário.
Além disso, ao abordar o cuidado da criação, o Papa evidencia a relação entre justiça social e responsabilidade ambiental, mostrando que a caridade deve assumir uma dimensão integral, capaz de abarcar tanto a dignidade humana quanto o cuidado com a casa comum. Trata-se de um desenvolvimento coerente da tradição social da Igreja, em diálogo com os desafios contemporâneos.
Por fim, Leão XIV sublinha a gravidade da indiferença diante da pobreza, afirmando que “a condição dos pobres representa um grito que […] interpela constantemente a nossa vida” (n. 9), e advertindo que ignorar esse clamor pode tornar-se pecado (n. 8). Ao denunciar que as sociedades contemporâneas são marcadas por “numerosas desigualdades” (n. 10), o Papa revela a desordem do amor que estrutura tais sistemas, retomando implicitamente a crítica agostiniana às sociedades fundadas no amor desordenado.
Nesse contexto, torna-se evidente a continuidade direta entre o magistério do Leão XIII e o do Papa Leão XIV. Enquanto o primeiro inaugurou a reflexão social da Igreja diante da questão operária, o segundo a aprofunda diante das novas formas de pobreza e exclusão, reafirmando com maior clareza o primado da caridade como princípio formal da ordem social.
Em síntese, a Doutrina Social da Igreja encontra sua unidade na caridade enquanto forma da ordem social. Desde a tradição apostólica, passando pela elaboração patrística — especialmente em Santo Agostinho —, pela sistematização das encíclicas sociais e pelo discernimento conciliar, até o magistério atual do Papa Leão XIV, permanece constante a convicção de que somente o amor, ordenado segundo Deus, é capaz de fundar uma sociedade verdadeiramente justa.

Frei Paulo Henrique Cintra, OSA
Comissão Provincial de Justiça, Paz e Integridade da Criação
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REFERÊNCIAS:
AGOSTINHO, Santo. A cidade de Deus. Petrópolis, RJ: Vozes, 2017.
LEÃO XIV, Papa. Dilexi te: Exortação Apostólica sobre o amor para com os pobres, 2025.
LEÃO XIV. Audiência Geral de 14 de janeiro de 2026. Catequese: Os Documentos do Concílio Vaticano II – Constituição dogmática Dei Verbum 1. Vaticano, 2026. Disponível em: https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/audiences/2026/documents/20260114-udienza-generale.html. Acesso em: 01 maio 2026.
LEÃO XIV. Audiência Geral de 21 de janeiro de 2026. Catequese: Os Documentos do Concílio Vaticano II – Constituição dogmática Dei Verbum 2. Vaticano, 2026. Disponível em: https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/audiences/2026/documents/20260114-udienza-generale.html. Acesso em: 1 maio 2026.
LEÃO XIV. Audiência Geral de 28 de janeiro de 2026. Catequese: Os Documentos do Concílio Vaticano II – Constituição dogmática Dei Verbum 3. Vaticano, 2026. Disponível em: https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/audiences/2026/documents/20260114-udienza-generale.html. Acesso em: 1 maio 2026.
LEÃO XIV. Mensagem para o Dia Mundial das Missões 2026: Um em Cristo unidos na missão. Vaticano, 25 de janeiro de 2026. Disponível em: https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/messages/mission/documents/20260125-giornata-missionaria.html. Acesso em 1 maio 2026.
LEÃO XIV. Mensagem para o Dia Mundial de Oração pelo Cuidado da Criação 2025: Sementes de paz e esperança. Vaticano, 30 de junho de 2025. Disponível em: https://www.vatican.va/content/leo-xiv/pt/messages/creation/documents/20250630-messaggio-giornata-curacreato.html. Acesso em 1 maio 2026.
[1] cf. At 2,42-47