Os sinais dos tempos – Numa perspectiva do Sul Global

Uma reflexão importante quando se pensa a experiência do ser cristão, no atual contexto civilizacional no que diz respeito ao Sul Global, é o que compreender por “Sinais dos Tempos” (ST).[1] Tema que foi apresentado pelo Papa João XXIII no Concílio Vaticano II (1962-1965). Ao tratar do tema Sinais dos Tempos,  o Concílio o compreendia como sendo o mundo atual, o mundo da modernidade com suas conquistas e os seus problemas, como, por exemplo, a secularização, as mudanças profundas no social e na cultura, o poder econômico, a fome e a miséria, o progresso técnico e das ciências biológicas, psicológicas e sociais, o crescimento demográfico, o desenvolvimento industrial, as discrepâncias entre as raças, as classes sociais de todo gênero, entre as nações ricas e pobres, a crise familiar etc.[2]

O Concílio expressa que a missão da Igreja é continuar a obra de “Cristo que veio ao mundo para dar testemunho da verdade, para salvar e não para condenar, para servir e não para ser servido”[3].  E para levar em frente esse compromisso, afirma-se: para desempenhar tal missão, a Igreja, a todo momento, tem o dever de perscrutar os sinais dos tempos e interpretá-los à luz do Evangelho, de tal modo que possa responder, de maneira adaptada a cada geração, as interrogações eternas sobre o significado da vida presente e futura e de suas relações mútuas. É necessário, por conseguinte, conhecer e entender o mundo no qual vivemos, suas esperanças, suas aspirações e sua índole frequentemente dramática.[4]

Para desempenhar a missão do ser cristão na Igreja e na sociedade, em se tratando do mundo do Sul Global ou dos povos e nações explorados e subjugados pelos atuais impérios promotores de um sistema político-econômico capitalista genocida e geocida, é imprescindível superar a visão conciliar.[5]

Contudo, não se pode desconsiderar a visão otimista que também reinou no Concílio a respeito da modernidade. Essa visão mais otimista e esperançosa é expressada a respeito dos direitos humanos, do desenvolvimento econômico no seu aspecto positivo, das ciências e da racionalidade científica, da democracia, das liberdades liberais, da proposta do Estado de bem-estar – visão que correspondia, em muito, à ótica da social-democracia e da democracia cristã.

Enfim, o Papa João XXIII, ao tratar dos ST, tinha como motivação a perspectiva evangélica, ou seja, o sentido escatológico, dando a entender que se deveria viver um tempo da misericórdia e não de condenações quanto às transformações culturais, científicas e sociais que atravessavam a sociedade. Tudo com a preocupação de estar, com isso, prestando um serviço à humanidade.

O problema, ao pensar os ST a partir do Sul Global, é o do assumir um critério escatológico condizente com a realidade. O critério mais desafiador é o da vida e do mundo dos pobres e excluídos, os que vivem a condição injusta da insignificância social e não têm direito de ter os direitos socais, culturais e políticos defendidos e promovidos. Nesse sentido, afirma o teólogo Aquino: “Vinculados ao problema da compreensão e configuração da Igreja e sua missão estão os desafios de nossa hora histórica que devem ser enfrentados pelos crentes na força e no poder do Espírito (Gl 5,25) com uma ‘fé ativada pelo amor’ (Gl 5,6) que vai fermentando a história com o dinamismo do reinado de Deus (1Cor 4,20) que tem nos pobres, marginalizados e sofredores sua medida e seu critério escatológicos (Lc 10,25-37); Mt 25,31-46).”[6] Mas levar a sério a perspectiva da centralidade dos pobres como critério escatológico, é quase impossível por um amplo setor de cristãos e da Igreja que se identificaram com a cultura ocidental que privilegia o individualismo, a ostentação consumista, a mentalidade pró capitalista e mercadocêntrica, e uma opção mais de direita em sintonia com os interesses da elite dominante. Por isso, assumir as causas, a libertação dos pobres é algo muito grave porque ameaça o mundo querido e defendido pela elite.

Perscrutar cuidadosa e minuciosamente os ST, à luz do Espírito Santo, é condição fundamental para se comprometer com fidelidade e responsabilidade em relação ao Reino de Deus. Reino que manifestará numa práxis profética com e ao lado dos bem-aventurados, dos “crucificados da história” (I. Ellacuría), dos últimos da história ou dos que não têm voz e nem vez.  Deus se manifesta na irrupção dos pobres tanto no que ocorre de positivo quanto de negativo. No tocante ao positivo, destacam-se as resistências, as organizações e as lutas nas quais os pobres buscam defender a vida e suas causas. Apesar das dificuldades colocadas num mundo dinamizado pela globalização neoliberal excludente e assassina dos vulneráveis, ainda é possível identificar um setor que quer persistir e resistir através de organizações e forças alternativas – apesar de vivermos, no aspecto negativo, uma “derrota”: da alternatividade libertadora, da utopia pela transformação estrutural da realidade, das lutas por um mundo mais humano e justo, ou seja, por um mundo onde caibam todos e todas. O que se vê é a força da “besta fera” (os “sempre” dominantes e poderosos) impondo ao mundo sua política de anti-vida.

Os ST devem ser encontrados nos que trabalham, refletem e lutam a favor da vida, sobretudo das vidas ameaçadas, desumanizadas, assassinadas injustamente. Aqui se pode pensar em pessoas, povos, enfim, países onde a ganância pelo Capital, o poder imperialista e de morte dos Impérios continua fazendo guerras, destruindo a Casa comum, explorando os povos pobres, perseguindo violentamente os imigrantes, desesperançando a juventude, etc. Por isso, recepcionar o Concílio Vaticano II, como se procurou a partir de Medellín, Puebla, Santo Domingo…, significa entendê-lo como um espírito que emana no conjunto de seus documentos e convoca os cristãos e a Igreja para uma recepção criativa, profética e esperançosa à luz da atual realidade do Sul Global.

Não adianta ficar olhando para o céu, é preciso olhar para a história na Terra e perceber a presença de Deus, preferencialmente, entre os mais sofridos e insignificantes. Um Deus que clama por misericórdia e compaixão. E nesse olhar contemplativo, despertar para práticas libertadoras que fomentam e promovem vidas mais humanizadas e felizes. Isso é compreender o que é viver, diante de tanta desigualdade social, intolerância étnica, violência estrutural, poder de morte dos atuais impérios, da insensibilidade da elite mundial. É, enfim, comprender o sentido e a importância dos “Sinais dos Tempos” em prol do Reino de vida e plenitude para os(as) filhos(as) do Senhor da História.

Frei Luiz Augusto de Mattos, OSA
Artigo para a coluna Theos, do Jornal Inquietude On-line, de julho de 2025.

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[1] A expressão Sinais dos Tempos é encontrada nos Evangelhos. O texto Mt 16,1 diz: “O aspecto do céu, sabeis interpretar, mas os sinais dos tempos, não sois capazes!”. Jesus enfrenta um embate com saduceus e fariseus, que queriam pô-lo à prova pedindo-lhe um sinal do céu. Existe por parte de Jesus uma teologia oposta à esses grupos. Para Jesus os sinais dos tempos têm a ver com as transformações concretas realizadas por ele no dia a dia.

[2] Cf. Constituição Pastoral Gaudium et Spes, in Compêndio Vaticano II, Editora Vozes, 1980, p. 143-256

[3] Gaudium et Spes, n.203

[4] Ibid., n. 4

[5] A visão conciliar foi condicionada pela perspectiva da burguesia europeia, dos partidos democrata-cristãos e socialdemocratas – visão daqueles que pensavam a partir do eurocentrismo e assim legitimava o regime político da Europa ocidental, vale dizer, adotava-se a ideologia da burguesia europeia que estava sintonizada com o capitalismo. Cf. José COMBLIN, Os sinais dos tempos, in Concilium, 312 – 2005/4: 534

[6] Francisco de AQUINO JUNIOR, Renovar toda a Igreja no evangelho. Desafios e perspectivas para a conversão pastoral na Igreja. Editora Santuário, 2019, p. 72 – itálico nosso.