A existência se nos revela como um sopro, tênue e breve. A cada despertar, a percepção da fugacidade nos assombra. As vidas cruzam-se em trajetórias aceleradas, perdidas no ruído dos motores, nos labirintos de agendas e na rigidez dos compromissos. Ao consultarmos o relógio, vestimos invariavelmente o fardo do atraso.
Essa é a sintomatologia de uma contemporaneidade fraturada, um ecossistema mental onde o indivíduo é impelido ao culto do eu, buscando a satisfação dos apetites momentâneos como a única bússola possível de carregar nas mãos. E nos vestimos do paradoxo de conectividade: estamos constantemente on-line, mas essencialmente sós. O caminho de volta reside em um pensamento reintegrador, que nos ancore a uma mais realidade concreta, presente e natural.
Essa necessidade encontra ressonância no pensamento de Santo Agostinho. Para o filósofo, o ser humano não é um ser isolado no mundo, mas um membro de um grande organismo, uma tessitura de interligação espiritual e social. Sua teologia mapeia o cosmos e oferece uma arquitetura para a saúde das nossas relações, afirmando que a plenitude reside no reencontro com a totalidade da Criação.
Assim, para Agostinho, a natureza transcende o utilitário. Ela é o “Livro da Criação”, um volume aberto que atesta a glória e a presença de Deus. E interrogar-se sobre o mundo, e o nosso lugar nessa relação, é iniciar uma jornada de interiorização
“Interroguei a Terra, e ela me respondeu: ‘Eu não sou’. E tudo quanto nela existe confessou o mesmo. Interroguei o mar, os abismos… e responderam: ‘Não somos teu Deus, busca-O sobre nós’… A todas as coisas que me rodeiam lhes disse: ‘Sois vós Deus?’ E responderam em alta voz: ‘Não somos; mas Ele nos criou!’.” (Santo Agostinho in Confissões, Livro X, Capítulo 6)
Essa forma de pensar sobre nós e o mundo nos leva à humildade, ou seja, reconhecer que não somos o centro de todas as coisas. E, ao mesmo tempo, o assombro de entender que a Criação não se dobra aos nossos caprichos. O respeito pela ordem natural é, em sua essência, a reverência às digitais do Criador impressas no tecido do mundo. E contemplar o universo é voltar à nossa interioridade, o único lugar onde a Verdade habita, ou seja, o próprio Deus.
A desconexão humana a essa Verdade leva a sentimentos de destrutividade. Agostinho localiza essa falha no uso do Livre Arbítrio e que se transforma em potencial perigoso nas relações do humano com o universo criado por Deus.
“A vontade livre, pois, é um bem; o pecado é um mal. E não é injusto que se use de um bem para pecar… Sem o livre arbítrio não haveria mérito nem demérito, glória nem vitupério.” (Santo Agostinho in O Livre Arbítrio, Livro II, Capítulo 18)
O Livre Arbítrio é a matéria-prima do amor de Deus pela humanidade. No entanto, o mal moral (o pecado) é a sombra projetada pelo seu desvio. As crises que vivenciamos, sejam elas sociais, ecológicas ou afetivas, são oriundas de uma vontade que se recusa a buscar o bem comum. Dessa forma, é a vontade que se curva ao egoísmo (cupiditas), esse amor desordenado, que impede a humanidade de se elevar ao amor desinteressado (caritas). Os bens materiais e o prazer imediato se tornam os objetos de desejo que nos fragmentam e, pelo seu fascínio, acabam por nos afastar da ordem divina e o gozo futuro, a que todos somos convidados a participar junto de Deus e de toda a Sua criação.
O tempo continuará seu fluxo implacável. Entre ser humano e ser fugaz, deveríamos nos entender ser-criação-de-Deus. Se administrarmos a nossa vida sob o signo da interdependência da nossa natureza criada, desde uma reflexão sobre o uso maduro do Livre Arbítrio, poderemos transformar a ânsia de sobreviver na arte de viver plenamente. Talvez, assim, a gente aprenda a olhar o relógio sem o peso do atrasado, mas sim com olhar da gratidão que reconhece que o tempo, antes de ser um inimigo a ser vencido, é um presente dado por Deus para escrevermos, cada um a seu tempo, a sua própria história.

Frei Arthur Vianna Ferreira, OSA
Artigo publicado na coluna Fala Agostinho, do Jornal Inquietude On-line, edição de outubro/novembro de 2025.
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