Estando já às portas de celebrar o Natal do Senhor, certamente os mais belos sentimentos já se aproximam de nossos corações. As casas já estão preparadas com os presépios, as luzes acesas e, quiçá, também as ceias natalinas organizadas. Ao longo do Advento, a Igreja nos preparou para vivenciar o Natal por meio da liturgia da palavra escutada nos quatro últimos domingos. À medida que avançávamos nesses domingos, acendíamos mais uma vela na coroa do Advento, enquanto quatro verbos eram amplamente difundidos em nossas celebrações: vigiar, converter-se, alegrar-se e acolher. Esses verbos nos dispuseram interiormente para o grande dia do Natal do Senhor que se aproxima.
Celebrar o Natal do Senhor é fazer memória da Encarnação de Jesus Cristo, Filho de Deus; é recordar a vinda do Emanuel. Pensar na Encarnação do Cristo exige transcender aquilo que, de modo coloquial, muitas vezes compreendemos por “Emanuel”: não apenas como um nome ou um título, mas como uma ação concreta de Deus em favor da humanidade. Como indica sua própria tradução: ʿIm ānû ʾĒl, Deus conosco, trata-se de um movimento de aproximação. Nessa dinâmica, é Deus quem se faz protagonista da história da salvação, tomando a iniciativa e “primeireando” o encontro com os Homens.
Essa verdade torna-se mais evidente à luz das Sagradas Escrituras, especialmente no prólogo do Evangelho de João: “E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós; e nós vimos a sua glória” (Jo 1,14). No texto original, a comunidade joanina utilizou um termo grego: eskḗnōsen (ἐσκήνωσεν), que significa literalmente “armar a tenda”, “fazer morada”. Em sentido bíblico, armar a tenda indica aproximação, presença e compromisso; é vir para perto e assumir algo concreto na vida do povo e com o povo.
No Natal, fazemos memória desse Deus que, em Jesus Cristo, encarnou e que armou sua tenda entre nós, fazendo morada na história humana. É o mesmo Deus chama homens e mulheres a colaborar no cumprimento de sua vontade no seio da humanidade. Aquele que outrora falava por meio dos patriarcas e dos profetas encontra, em Jesus Cristo, um rosto e um corpo, pois se fez carne. Se o Antigo testamento a carne aparecia frequentemente como sinal da fragilidade humana e da distância entre o homem e Deus, no Novo testamento o próprio Deus assume essa carne, abraça a fraqueza humana e rompe definitivamente toda distância entre Deus e a humanidade.
Deste o Antigo testamento, Deus armou diversas tendas, sempre de modo provisório, acompanhando o seu povo ao longo da história e das alianças. Essas tendas itinerantes revelam um Deus que caminha, que se aproxima e que não abandona. Contudo, é no Novo Testamento, em Jesus Cristo, que Deus decide armar a sua tenda definitiva na história humana. E é precisamente a partir desta encarnação que nasce o chamado vocacional: o Deus que se faz próximo não chama de fora da realidade, mas desde dentro dela; não convoca para uma fuga do mundo, mas para uma vida vivida em comunhão com Ele. Assim, toda vocação cristã é resposta ao mistério do natal: Vigiar, converter-se, alegrar-se para acolher o Deus-conosco.
Nesse sentido, a vocação cristã pode ser compreendida como o convite a armar também a própria tenda no seguimento de Cristo. Se Deus, em Jesus, escolheu habitar a fragilidade da condição humana, então seguir o Senhor é assumir a vida concreta como lugar teológico do encontro com Deus e do serviço aos irmãos. Armar a tenda implica, criar vínculos, compartilhar o caminho e não fugir das exigências da história.
A imagem da tenda, tão presente na Sagrada Escritura, não se limita apenas ao gesto de Deus que vem habitar entre o seu povo, mas torna-se também um convite dirigido àqueles que se colocam no caminho do seguimento. A tenda é, por natureza, sinal de disponibilidade, de abertura e de movimento; ela não se fecha sobre si mesma, mas se estende à medida que a vida e a missão se ampliam. Nesse horizonte, a Palavra de Deus interpela o ser humano a não reduzir o espaço do próprio coração, mas a prepará-lo como uma tenda para acolher aquilo que Deus deseja realizar. É nesse contexto que o profeta Isaías proclama: “Alarga o espaço da tua tenda, estende as cortinas da tua habitação” (Is 54,2).
A exortação profética, dirigida a um povo marcado pela fragilidade e pela espera, revela que alargar a tenda é um ato de confiança e esperança. À luz do mistério da Encarnação, esse chamado adquire novo significado: se Deus, em Jesus Cristo, alargou a sua tenda para fazer morada entre nós, também nós somos chamados, no seguimento vocacional, a ampliar o espaço da nossa vida para que outros encontrem lugar, abrigo e a presença do Deus-conosco.
Assim como a tenda de Deus, revelada na Encarnação, não é estática nem isolada, também a tenda do seguimento vocacional é marcada pela disponibilidade e pelo envio. A vocação não consiste em afastar-se do mundo, mas em habitá-lo e assumi-lo à maneira de Cristo, fazendo da própria existência um espaço onde Deus possa continuar a manifestar a sua presença. Desse modo, o Natal revela-se não apenas como a celebração do Deus que vem ao nosso encontro, mas como o início de um chamado, permitir que, por meio da nossa vida concreta e de nosso chamado vocacional, Deus continue armando tendas em nossas vidas, em nossas histórias.

Frei José Henrique Morais, OSA
Artigo publicado na coluna Pró-vocações, do Jornal Inquietude On-line, edição de dezembro de 2025.
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