O tempo que se finda e o Verbo que se encarna: a pobreza que gesta a esperança e a missão do batizado

O aproximar-se do fim de mais um ano costuma nos impor um silêncio que a correria cotidiana insiste em abafar. É o momento em que o calendário nos convida a olhar para trás e perceber como encarnamos as realidades da vida ao longo deste ano que se finda. Diante das alegrias, dos cansaços, das perdas e das conquistas, surge a pergunta inevitável: o que realmente construímos?

Em um mundo que nos empurra para o excesso e para a superficialidade, Santo Agostinho nos provoca com uma verdade que desestabiliza a lógica do mundo: “Aquele que, pelo contrário, as deseja, é infelizmente rico em sua pobreza” (Santo Agostinho, Sermão 14, 1).

Esta é uma constatação que nos instiga a revisar as nossas prioridades. Enquanto a sociedade moderna mede o sucesso pelo acúmulo de bens e pela visibilidade, o pensamento agostiniano nos convida ao recolhimento e à busca da verdadeira pobreza, que não é a falta de recursos, mas a humildade do coração. Agostinho nos lembra que o verdadeiro modelo do pobre cristão é Jesus Cristo, que foi pobre e rico ao mesmo tempo (cf. Sermão 14, 1). É no recolhimento interior que descobrimos que o desapego é a única forma de possuir o essencial.

Ao fazermos essa travessia de fim de ano, deparamo-nos inexoravelmente com a efemeridade humana. Somos seres frágeis e limitados, e a passagem do tempo escancara essa realidade. No entanto, a tradição cristã nos convida a assumir a nossa fragilidade. Agostinho de Hipona, ao refletir sobre a natureza humana, aponta que Deus não desprezou essa condição de criatura. Ele, “enviando o seu próprio Filho numa carne semelhante à do pecado, pelo pecado, condenou o pecado na carne” (Santo Agostinho, Sermão 155, 1). Ou seja, a nossa fragilidade foi assumida e transformada. A encarnação de Jesus, muito mais do que um dogma, é o abraço de Deus à nossa realidade mais concreta, com todas as nossas dores e limitações diárias como seres humanos.

É nesse terreno fértil da vida real que a espiritualidade ganha concretude. É aqui que a liturgia da Igreja Católica nos conduz ao mistério do Natal. O primeiro Advento de Cristo não aconteceu em meio à glória imediata do mundo. Ele se apresentou revestido da humildade de uma manjedoura, como a chuva que cai silenciosa sobre a terra seca. Como nos recorda o santo de Hipona, Jesus desceu “como a chuva sobre a relva, como os aguaceiros que embebem a terra” (Santo Agostinho, Sermão 504, 1). Portanto, o Natal é o momento em que a Igreja, como lugar da esperança, se revela em sua plenitude. E, por isso, independentemente das luzes que se impõem pelo calendário festivo, dispomo-nos a vivê-lo com toda a nossa fé e gratidão.

A Igreja é, para nós, cristãos católicos, o útero onde o Messias continua a nascer para o mundo. Ao mesmo tempo em que celebra e faz nascer o Menino Deus, a Igreja também gera os filhos de Deus por meio do sacramento do Batismo, confiando-lhes a missão de continuar, no ano vindouro, a obra da criação e do amor. O batizado é aquele que, tendo recebido a vida nova, é enviado a ser o “Cristo” para o outro. E essa missão exige um movimento de purificação que não se restringe ao exterior, mas atinge as profundezas do ser. Como adverte Agostinho: “Abstenha-se das más ações e você se purifica das sujeiras da carne. Abstenha-se de toda má vontade e você se purifica das sujeiras do espírito” (Santo Agostinho, Sermão 45, 8).

Por isso, o Natal nos desafia a tocar Cristo não com os olhos da carne, mas com os olhos da fé. “Tocar Cristo é ter fé em Cristo” (Santo Agostinho, Sermão 246, 4). E tocar Cristo pela fé significa reconhecê-lo no irmão que sofre, no pobre que nos interpela e naqueles que caminham conosco. É aceitar a missão do batizado de encarnar a humildade e a humanidade nas relações com o próximo, sem buscar aplausos ou recompensas terrenas. E, a partir desse lugar, buscar a justiça social que nos impulsiona a construir um mundo mais fraterno.

Enfim, o ano que se encerra é um convite a largarmos as falsas riquezas e abraçarmos a nossa verdadeira condição humana diante de Deus. Que este Natal nos encontre como membros vivos desse “Monte Santo” que é a Igreja, dispostos a nos purificarmos de toda mácula e a nos revestirmos da humildade de Cristo. Assim, em vez de apenas virarmos a página do calendário, estaremos verdadeiramente prontos para continuar a obra de Deus, vivendo na esperança da ressurreição. E, embora a nossa Pátria Celeste e definitiva não esteja aqui, podemos começar a construí-la em cada uma das ações que realizamos nos 365 dias de cada ano de nossas vidas.

Frei Arthur Vianna, OSA
Pós-doutor em Educação