O ser humano e a experiência do mito

A experiência humana na esfera pessoal, social, religiosa, política, institucional, entre outras, é permeada pelo mito. O mito é responsável em dar sentido da e à vida que existe nas dimensões: pessoal, das coisas e do mundo. Toda pessoa, grupo humano ou civilização humana sempre buscou o sentido profundo do próprio existir, ou do porquê e para que existir. Por isso, a humanidade recorre, incessantemente, ao mito.

O ser humano primitivo que toda pessoa humana traz consigo, permanentemente, segue perscrutando pelo sentido e procurando construir um horizonte de sentido baseado em esperanças, sonhos e utopias ainda não provados, somente queridos, explicados e justificados por mitos que abraçamos e nos quais estamos envolvidos e alicerçados na existência. E entendendo que o mito tem a ver com um relato originário, “no qual os Deuses agem e cuja finalidade é dar sentido a uma realidade significativa”[1]. E mais, há que saber que o mito é imaginário – construção do homo religiosus. Uma leitura fundamentalista concebe o mito como um fato realmente ocorrido no passado. Também não se pode interpretar ou compreender o mito numa visão cronológica, porque o mito se situa num tempo acronológico e absoluto, o que é próprio do divino ou dos deuses.

Importante ter ciência de que, no mito, os deuses são atores, ou seja, pelo poder sagrado dos deuses uma realidade é instaurada. O mito tem como fundamental razão dar sentido ao que foi instaurado. Em outras palavras, tudo o que é significativo para a humanidade precisa ser originado pela força sagrada dos deuses. Nesse sentido, os ritos, festividades, eventos que permeiam a vida humana e dão compasso a ela; os costumes, leis, valores, instituições que contribuem para o bem-estar dos povos e das sociedades; as técnicas, os elementos da natureza (rios, montanhas, árvores, animais ou o que seja) que favorecem a vida das comunidades humanas recebem o significado e são significativos desde o poder dos entes sagrados. Inclusive, guerras, genocídios, poder ou regimes totalitários (franquismo, nazismo, fascismo) ou a partir de ditaduras que negam a liberdade do pensar e do agir, destruição de civilizações, entre outros – são promovidos, defendidos e executados em nome de divindades. Nem todos os mitos e sentidos de vida garantem experiências humanizadoras e humanizantes. Mitos podem servir tanto para resgatar e promover a vida quanto para destruí-la.

O mito não é algo que pertence ao passado das civilizações que existiram na Terra, mas faz parte da vida humana, do fazer ciência e do dinamizar o ritmo da humanidade – isso pela razão de que o mito dá sentido e constrói horizonte de sentido em todos tempos e povos. Por isso, os mitos são fundamentais para qualquer sociedade. “As sociedades não funcionam sem que a maioria dos seus membros compartilhe os mesmos mitos fundamentais. Sem esse compartilhar não haveria a convergência de entendimento e de valores morais que possibilitam a comunicação e a convivência entre os seus membros.”[2]

A tarefa que fica para a humanidade é a do discernimento de saber qual o mito que pode humanizar e potencializar o ser humano e as sociedades, em vista de encontrar um sentido humano e humanizante para o que resta de vida na atual civilização. Aqui, ficam algumas questões: os mitos atuais – progresso; Inteligência artificial; poder científico e (bio)tecnológico, entre outros – em que ajudam os povos e os países a encontrarem sentido e horizonte de sentido para a busca e a construção de um mundo mais humano e justo? Como enfrentar os mitos que negam as alternativas, viáveis e factíveis, para a resistência contra tudo o que ameaça o futuro da vida no Planeta? Como enfrentar as polarizações sociais e políticas, o culto idolátrico ao Mercado, os “novos imperadores” mundiais, o crescimento de uma Extrema direita internacional e nacional que inviabiliza o cuidado com os mais pobres e oprimidos e a defesa de uma ecologia integral? Tudo isso atravessado por mitos que não apontam para uma verdadeira humanidade civilizacional?

O problema não é a existência dos mitos que sempre existiram e existirão, mas, sim, que mitos concorrem para uma civilização que resiste e luta, sonha e acredita que ainda é possível um mundo onde todos serão acolhidos e amados sob as asas da justiça que se opõe a tudo que maltrata, discrimina e exclui à vida.

Frei Luiz Augusto de Mattos, OSA
Artigo para a coluna Theos, do Jornal Inquietude On-line, de agosto/setembro de 2025.
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[1] José Severino CROATTO, As linguagens da experiência religiosa. Uma introdução à fenomenologia da religião, Editora Paulinas, 2001, p. 209

[2] Jung Mo SUNG, Educar para reencantar a vida, Editora Vozes, 2006, p. 58

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