O Papa Leão XIV e Santo Agostinho

“Sou agostiniano. Filho de Santo Agostinho.” Com essas palavras, Leão XIV apresentou-se no balcão da Basílica Vaticana após sua eleição como sucessor do Apóstolo Pedro, no dia 8 de maio de 2025. Ao longo deste primeiro ano de pontificado, o Papa vem confirmando sua identidade agostiniana através de muitos gestos. Tem sido notória sua dedicada atenção em citar, em quase todos os pronunciamentos, uma frase de Santo Agostinho. Não seria arriscado dizer, inclusive, que depois que Leão sentou-se no trono de Pedro, Santo Agostinho tornou-se o santo mais citado nos textos papais. De fato, a vinculação de Leão XIV com o bispo de Hipona é algo impossível de negar.

Na recente visita apostólica à África, quando esteve na Grande Mesquita de Argel, respondendo às palavras de boas-vindas de Mohamed Mamoun Al Qasimi, o Papa disse: “venho com grande alegria à Argélia, pois esta é também a terra do meu pai espiritual, Santo Agostinho, que desejou ensinar tanto ao mundo, sobretudo através da busca da verdade, da busca de Deus, reconhecendo a dignidade de cada ser humano e a importância de construir a paz”. Mais uma vez, Leão XIV confirma sua profunda ligação com o filho de Santa Mônica e, sem perder ocasião, o propõe como luzeiro para a Igreja e para a humanidade.

Essa vinculação ultrapassa a força jurídica da profissão religiosa emitida pelo Fr. Robert Prevost, em 1978. Ela molda sua personalidade religiosa. De fato, ao apresentar-se como agostiniano, o Pontífice deixou claro que sua vocação e ministério estão marcados pelo carisma do bispo de Hipona, que sua espiritualidade se inspira naquela advinda das “conversões” vividas pelo filho de Mônica e Patrício, e que sua teologia se apoia no edifício intelectual do Doutor da Graça, tal como foi conservado e propagado pela multissecular Ordem que leva seu nome.  Reconhecer-se e apresentar-se como “filho de Santo Agostinho” não é um simples detalhe protocolar. Por trás da expressão “sou agostiniano”, Leão XIV sinalizou, já naquela primeira hora, que a espiritualidade e o carisma agostiniano exerceriam forte influência em seu pontificado e que, em certa medida, poderiam configurar-se como um programa para o exercício do ministério que lhe fora confiado.

Como tem deixado transparecer, Leão XIV está convencido daquilo que disse seu predecessor, o Papa João Paulo II, na Carta Apostólica Augustinum Hipponensem (1986): Agostinho é um “homem verdadeiramente singular”, “tem muitas lições para nos ensinar, tanto por meio de seu exemplo quanto por seus preceitos”. De fato, como bem disse o grande agostinólogo Pe. Agostino Trapè, Santo Agostinho pode ajudar-nos, “e muito, a conhecer a nós mesmos e a Deus, a compreender nossos problemas, não diferentes dos dele, a iluminá-los, a resolvê-los. Para quem tem a fé cristã, ele oferece, do alto de sua síntese grandiosa, a alegria de contemplar sua profundidade, sua continuidade, sua eficácia; para quem não a tem, sabe dizer palavras humanas capazes de revelar o homem ao homem, mostrando sua natural dignidade, suas aspirações, suas esperanças”.  

Na boca e no coração de Leão XIV, Santo Agostinho – e o tesouro espiritual e intelectual que nos legou como herança – é uma fonte que merece ser revisitada e divulgada, porque o testemunho do hiponense tem muito a nos ensinar. Como ele mesmo disse à comunidade argelina, por ocasião da visita apostólica, “nesta terra, ressoou a voz fervorosa de Agostinho de Hipona, precedida pelo testemunho da sua mãe, Santa Mônica, e de outros santos. A sua memória é um apelo luminoso para que sejamos, hoje, sinais credíveis de comunhão, diálogo e paz”.

Na Exortação Apostólica Dilexi te, recebida como herança e assumida como sua, Leão XIV fez questão de acrescentar algumas reflexões e, dentre elas, destaca a sessão dedicada a Santo Agostinho. Conforme disse, no número 47 da Exortação: “numa Igreja que reconhece nos pobres o rosto de Cristo e nos bens o instrumento da caridade, o pensamento agostiniano permanece uma luz segura. Hoje, a fidelidade aos ensinamentos de Agostinho exige não só o estudo de suas obras, mas a predisposição para viver com radicalidade o seu apelo à conversão que inclui necessariamente o serviço da caridade”.

Essa mesma divulgação e reconhecimento da valiosa contribuição e atualidade do pensamento de Santo Agostinho pudemos notar, de forma primorosa, no discurso aos membros do Corpo Diplomático creditado junto à Santa Sé para as felicitações de ano-novo, no dia 9 de janeiro de 2026. Diante do plenário, Leão XIV fez questão de colocar Agostinho como uma bússola, também, para as questões da diplomacia e da relação internacional, comprovando a amplidão do ensinamento da Águia de Hipona.

Citando uma das obras mais poderosas da produção teológica, filosófica e literária de Santo Agostinho: De Civitate Dei, mesmo reconhecendo que, embora o contexto em que hoje vivemos seja diferente do século V, certas semelhanças permanecem bastante atuais, Leão XIV tocou em temas nevrálgicos da contemporaneidade como: a fragilidade do multilateralismo no plano internacional; a diplomacia da força;  a guerra; a paz equivocadamente procurada através das armas; o comprometimento do Estado de Direito; a liberdade religiosa; a necessária qualificação da linguagem e da comunicação… Essa diversa lista temática, extraída e correspondida pelos ecos da Cidade de Deus, comprova a importância de Santo Agostinho no pontificado de Leão.

Na primeira publicação lançada sobre Leão XIV, um livro de Samuel Pruvot escrito com a colaboração de Marc Leboucher (2025), há uma página que merece ser transcrita, porque descreve e compila bem a estreita relação entre o Papa Leão e Santo Agostinho. De acordo com os autores, “Santo Agostinho, verdadeiro gigante entre os Padres da Igreja, influenciou largamente o Ocidente medieval e inspirou muitas famílias religiosas de natureza diversa. Suas Confissões, escritas no final do século IV, serviram de modelo para muitos cristãos e, além disso, para inúmeros homens de boa vontade. ‘Ama e faze o que quiseres’, aconselha Santo Agostinho àqueles que buscam um caminho perfeito.

O amor, nesta terra, precisa de regras para não se corromper pelo caminho. A espiritualidade agostiniana que seduz Robert contém várias palavras-chave, como interioridade, oração, busca de Deus, correção fraterna, bem comum, unidade em Cristo e graça. Fundamentos que o Papa Leão XIV integrou profundamente e que são como sua marca registrada. Seu carisma.

Essa veia agostiniana do Papa Leão hoje toca os corações. Pois o caminho aberto por Santo Agostinho na África, num momento em que a cultura romana declinava, não envelheceu.

Santo Agostinho é uma referência filosófica e espiritual, às vezes mais conhecida fora da Igreja do que entre os próprios fiéis. Entrevistamos o escritor e filósofo Éric-Emmanuel Schmitt, homem de fé que colaborou com o Vaticano para a escrita de O desafio de Jerusalém em 2023. Para ele, o carisma de Leão XIV, alimentado por Santo Agostinho, só espera o tempo de poder se desenvolver para encarnar o cristianismo: ‘Isso foi o que João Paulo II conseguiu, o que Francisco também compreendeu. Eles não se apresentavam simplesmente como representantes da Igreja, mas como testemunhas vivas do Evangelho. Por seus discursos, por seus gestos, pela sua luz interior, eles expressavam algo da ordem da fé. Uma abertura para os outros, uma preocupação não por si mesmos, mas pela paz do mundo, pela salvação das almas. Um grande papa não se contenta em encarnar a instituição: ele carrega o coração do cristianismo’.

Na escola de Santo Agostinho e de seus predecessores, Leão XIV já aparece como um apóstolo da paz” (PRUVOT, 2025, p. 86-88).

Frei Jeferson Felipe Cruz, OSA
Doutorando em Teologia

Artigo publicado na edição especial do Jornal Inquietude On-line, em homenagem ao primeiro ano do pontificado do Papa Leão XIV – 8 de maio de 2026.

Foto: Vatican Media/Francesco Sforza – Papa Leão acena para a multidão na Praça de São Pedro após o anúncio, dia 8 de maio de 2025.