“Construir pontes” tem sido uma das principais tarefas abraçadas pelo Papa Leão XIV. Esse esforço aplica-se ad intra da Igreja Católica, mas, também, ad extra especialmente no diálogo com as outras igrejas cristãs e outras religiões. Desde o início do pontificado, o Papa Prevost tem demonstrado isso. No dia 19 de maio de 2025, por exemplo, no encontro com as Delegações ecumênicas e inter-religiosas, o Pontífice afirmou que o carácter sinodal da Igreja Católica exige desenvolver novas e concretas formas para uma sinodalidade cada vez mais intensa no campo ecumênico. “O nosso caminho comum pode e deve ser entendido também em sentido amplo, envolvendo todos, no espírito de fraternidade humana. O tempo presente é de diálogo e de construção de pontes.”
De fato, em diversas ocasiões, o Papa agostiniano tem feito questão de verbalizar que a unidade foi sempre uma preocupação constante sua. Prova disso é o lema que escolheu para o ministério episcopal: In Illo uno unum, expressão de Santo Agostinho que recorda como também nós, embora sejamos muitos, “n’Aquele que é um [ou seja, Cristo], somos um só” (Comentários aos Salmos, 127, 3).
De acordo com a compreensão de Leão XIV, na base do esforço ecumênico está essa centralidade de Jesus e sua confissão como Cristo de Deus (cf. Mt 16, 16). Nesse sentido, a comunhão realiza-se efetivamente na medida em que os cristãos convergem no Senhor Jesus; quanto mais fiéis e obedientes a Ele, mais unidos estarão entre si. Por isso, como cristãos, todos são chamados a rezar e a trabalhar juntos para que, passo a passo, se alcance o objetivo da unidade visível, que é e permanece sendo obra do Espírito Santo.
Da centralidade de Cristo, de acordo com o Papa, deriva a necessidade de abrir-se uns aos outros com caridade, afinal, é ela o distintivo dos discípulos de Jesus: “nisto todos conhecerão que sois meus discípulos, se vos amardes uns aos outros” (Jo 13, 35). Confirmando essa tese, em 23 de maio de 2025, na Mensagem pelos 500 anos do movimento anabatista, cujo tema celebrativo era “A coragem de amar”, o Papa Leão XIV recordava a “necessidade de católicos e menonitas fazerem todo o esforço para viver o mandamento do amor, o chamado à unidade cristã e o mandato de serviço ao próximo. Da mesma forma, a necessidade de honestidade e bondade ao refletirmos sobre nossa história comum, que inclui feridas dolorosas e narrativas que influenciam as relações e percepções católico-menonitas até hoje. Quão importante, então, é essa purificação das memórias e aquela releitura comum da história que nos permite curar as feridas do passado e construir um novo futuro através da ‘coragem de amar’.”
Defendendo o caminho da caridade e a necessidade de sincera conversão, Leão XIV mostra-se fiel às indicações do Concílio Vaticano II que, no Decreto Unitatis Redintegratio, deixa claro: “não há verdadeiro ecumenismo sem conversão interior. É que os anseios de unidade nascem e amadurecem a partir da renovação da mente, da abnegação de si mesmo e da libérrima efusão da caridade. Por isso, devemos implorar do Espírito divino a graça da sincera abnegação, humildade e mansidão em servir, e da fraterna generosidade para com os outros.” (UR, 7)
Ora, a caridade não só facilita a unidade cristã, mas torna-se o principal fruto desse movimento, sobretudo, quando os cristãos podem trabalhar juntos em vista do bem comum. Além do testemunho para que o mundo creia (cf. Jo 17, 21), a unidade dos cristãos pode ser uma potente ferramenta de transformação da realidade. Como assevera o Concílio, “visto que nos nossos tempos largamente se estabelece a cooperação no campo social, todos os homens são chamados a uma obra comum, mas com maior razão os que creem em Deus, sobretudo todos os cristãos assinalados com o nome de Cristo. A cooperação de todos os cristãos exprime vivamente aquelas relações pelas quais já estão unidos entre si e apresenta o rosto de Cristo Servo numa luz mais radiante. […] Vai ela contribuir para apreciar devidamente a dignidade da pessoa humana, promover o bem da paz, aplicar ainda mais o Evangelho na vida social, incentivar o espírito cristão nas ciências e nas artes e aplicar toda a espécie de remédios aos males da nossa época, tais como a fome e as calamidades, o analfabetismo e a pobreza, a falta de habitações e a inadequada distribuição dos bens. Por essa cooperação, todos os que creem em Cristo podem mais facilmente aprender como devem entender-se melhor e estimar-se mais uns aos outros, e assim se abre o caminho que leva à unidade dos cristãos.” (UR, 12)
A mesma insistência pela aproximação respeitosa, embalada pela caridade, o Papa dedica ao diálogo inter-religioso. Conforme ensina o Vaticano II, o diálogo é uma prova concreta do amor a Deus. Como se pode ler na Declaração Nostra Aetate, “não podemos invocar Deus como Pai comum de todos, se nos recusamos a tratar como irmãos alguns homens, criados à Sua imagem. De tal maneira estão ligadas a relação do homem a Deus Pai e a sua relação aos outros homens seus irmãos, que a Escritura afirma: ‘quem não ama, não conhece a Deus’ (1 Jo. 4,8).” (NA, 12)
Na esteira do ensinamento conciliar, Leão XIV entende que o diálogo entre as religiões, enquanto fermento de fraternidade universal, é indispensável para construir a paz. No dia 16 de maio de 2025, em Discurso ao Corpo Diplomático, ele disse claramente: “na perspectiva cristã – como na de outras experiências religiosas – a paz é, principalmente, um dom: o primeiro dom de Cristo: ‘Dou-vos a minha paz’ (Jo 14, 27). No entanto, essa paz é um dom ativo e envolvente, que diz respeito e compromete a cada um de nós, independentemente da origem cultural e da filiação religiosa, e que exige, sobretudo, um trabalho sobre si mesmo. A paz constrói-se no coração e a partir do coração, erradicando o orgulho e as pretensões, e medindo a linguagem, pois também com as palavras se pode ferir e matar, não só com as armas. Nessa ótica, considero fundamental o contributo que as religiões e o diálogo inter-religioso podem dar para promover contextos de paz. Isso exige, evidentemente, o pleno respeito pela liberdade religiosa em todos os países, uma vez que a experiência religiosa é uma dimensão fundamental da pessoa humana, sem a qual é difícil, se não impossível, alcançar a purificação do coração necessária para construir relações de paz”.
Essa mesma ideia, Leão XIV compartilhou no encontro com as Delegações ecumênicas e inter-religiosas que estiveram em Roma em 19 de maio de 2025: “a todos vós, representantes de outras tradições religiosas, expresso a minha gratidão pela vossa participação neste encontro e pelo vosso contributo para a paz. Num mundo ferido pela violência e pelo conflito, cada uma das comunidades aqui representadas traz o seu próprio contributo de sabedoria, compaixão e empenho para o bem da humanidade e para a preservação da casa comum. Estou convencido de que, se estivermos de acordo e livres de condicionamentos ideológicos e políticos, poderemos ser eficazes em dizer ‘não’ à guerra e ‘sim’ à paz, ‘não’ à corrida ao armamento e ‘sim’ ao desarmamento, ‘não’ a uma economia que empobrece os povos e a Terra e ‘sim’ ao desenvolvimento integral”.
Indispensável para a construção da paz, a relação dialógica e respeitosa entre as religiões continua sendo um fecundo terreno de humanização da sociedade. De acordo com Leão XIV, no discurso aos membros do Working Group on Intercultural and Interreligious Dialogue, em 29 de setembro de 2025, “trabalhar em favor do diálogo inter-religioso pressupõe, por si só, reconhecer que a religião constitui um valor tanto em nível pessoal como no âmbito social. A própria palavra religião contém a referência ao vínculo como elemento originário do humano. Por isso, quando é autêntica e bem cultivada, a dimensão religiosa confere qualidade às relações interpessoais e ajuda muito a formar as pessoas para viver em comunidade e na sociedade. E como é importante, hoje, dar valor e significado às relações humanas!”.
Ao longo deste primeiro ano de pontificado, pelo testemunho de gestos e palavras, o Papa Leão XIV mostra-se comprometido com o diálogo ecumênico e inter-religioso. Um diálogo que respeita a fronteira das identidades próprias de cada confissão religiosa, valoriza a diversidade e, sobretudo, promove a união de esforços em favor do bem comum, especialmente em favor da paz. Como ele mesmo disse, “o testemunho da nossa fraternidade, que espero possamos demonstrar com gestos eficazes, contribuirá certamente para a construção de um mundo mais pacífico, como todos os homens e mulheres de boa vontade desejam em seu coração”.

Frei Jeferson Felipe Cruz, OSA
Doutorando em Teologia
Artigo publicado na edição especial do Jornal Inquietude On-line, em homenagem ao primeiro ano do pontificado do Papa Leão XIV – 8 de maio de 2026.
Foto: Encontro Ecuménico e Inter-religioso, na Praça dos Mártires em Beirut, durante a Viagem Apostólica do Papa Leão XIV à Turquia e ao Líbano (@Vatican Media)