O Cristianismo como “modo de viver”

A celebração da Páscoa, em 2026, além do alegre anúncio da ressurreição de Jesus, comunicou outra “boa notícia”: o aumento do número de católicos. De acordo com o mais recente Anuário Estatístico da Igreja, a população católica chegou a 1,405 bilhão de fiéis, um aumento de 15,8 milhões em relação ao ano anterior. A África foi o continente com o maior avanço, com mais 8,3 milhões de fiéis. Em seguida vêm a América, com 5,6 milhões a mais; a Ásia com acréscimo de 954 mil; a Europa com mais 740 mil, e a Oceania com 210 mil novos católicos.

Na França, por exemplo, na Vigília pascal deste ano, foram batizados mais de 20 mil catecúmenos. Nos Estados Unidos, o número de neófitos segue a mesma lógica de crescimento. Na Diocese de Venice, na Flórida, por exemplo, o aumento no número de convertidos chegou na marca de 94%. No Brasil não tem sido diferente. Mesmo que o último senso tenha sinalizado alteração no número dos que se declaram católicos (56,7% da população), o número de novos batizados também impressiona. Na Diocese de Camaçari (BA), por exemplo, foram registrados o batismo de 281 adultos na última páscoa; na Arquidiocese de Belo Horizonte (MG), o número se aproxima de 500.

Muitos fatores podem ser considerados na explicação desse fenômeno. Um dos fatores relevantes pode ser a presença da Igreja nos mass media. Segundo alguns teóricos da comunicação, a Igreja tem vivido “uma era de ouro dos recursos católicos”, como podcasts e outras fontes online que levam informações sobre a Igreja a pessoas que normalmente nunca entrariam nela e que acabam achando o catolicismo inesperadamente atraente. No Brasil, esse fator se comprova quando consideramos a marca de mais de 1 milhão de pessoas rezando o rosário às 4h da manhã.

Além dessa presença “virtual”, outro fator importante é a confirmada sensação de frustração com a modernidade, o que fermenta uma irrupção do “sagrado”. Em alguma medida, as promessas modernas mostram-se falidas, e a maioria das pessoas tende a procurar experiências que transmitam segurança. Numa cultura do provisório e do efêmero, a prática católica comunica segurança e estabilidade. Em um mundo onde as coisas tendem a mudar a cada segundo, a Igreja católica celebra, em 2026, a Páscoa que vem celebrando há 2 mil anos. Isso é um contundente testemunho de estabilidade.

O aumento de número de adeptos, embora seja uma “boa notícia”, apresenta-se também como uma questão. O crescimento do número significa, ao mesmo tempo, crescimento da práxis cristã? Dito de outra forma: o aumento do número de batizados significa que a mensagem cristã está se expandindo e penetrando mais na vida da sociedade? França, Estados Unidos e Brasil têm se tornado países mais concordes com o Evangelho de Jesus? Essa pergunta merece ser posta, se quisermos passar da avaliação quantitativa à qualitativa.

Tomemos como referência o racismo. Na França, Bally Bagayoko, negro e filho de imigrantes, eleito novo prefeito de Saint-Denis, uma das maiores cidades da região metropolitana de Paris, em março de 2026, foi vítima de violentos ataques racistas no canal de TV CNews. Nos Estados Unidos, o clima é ainda mais violento; basta lembrar o assassinato de George Floyd, asfixiado por um policial branco em Minneapolis, em maio de 2020. No Brasil, convém considerar que, por força do racismo estrutural, a população negra (pretos e pardos) concentra cerca de 77,8% da pobreza e representa a grande maioria dos que vivem na extrema pobreza (miséria).

Ora, a conta não fecha: cresce o número de cristãos católicos, mas a linha da injustiça social não baixa. O que acontece? A resposta para esse paradoxo é complexa e deve considerar múltiplas razões. Uma delas é a compreensão do cristianismo apenas como uma religião cultual, nos moldes das religiões mistéricas da antiguidade que acentuavam mais a salvação individual e a experiência iniciática pessoal, em detrimento de uma ética social. Essa compreensão, contudo, é uma distorção do originário sentido e da proposta cristã.

De acordo com o ensinamento dos apóstolos, tal como registrado no Novo Testamento, o “cristianismo” é, antes de tudo, um “modo de viver”. Conforme o registro do capítulo 5 do livro dos Atos, quando os apóstolos foram, milagrosamente, libertados da prisão onde tinham sido encarcerados por ordem do sumo sacerdote e dos saduceus, “o anjo do Senhor abriu as portas da prisão e os faz sair, dizendo: ‘ide falar ao povo, no Templo, sobre tudo o que se refere a este modo de viver’.” (At 5, 20)

O “modo de viver” em questão é o seguimento a Jesus, confessado como Filho de Deus e Senhor, e reconhecido como Mestre de vida. Ou seja, o “modo de viver” equivale a “viver segundo o estilo e o ensinamento de Jesus”. Isso supõe, é claro, uma certa prática religiosa; até porque Jesus foi extremamente religioso. Toda sua vida, conduzida pelo Espírito (cf. Lc 4, 18-21), foi derivação da sua relação com o Pai que está nos céus (cf. Jo 6, 38). Mas, também supõe, como decorrência dessa dimensão religiosa, um “modo de vida”.

Os apóstolos receberam a “missão” de anunciar “tudo o que se refere a este modo de viver” e o fizeram não só por meio de palavras, mas com o testemunho concreto de uma organização da vida comunitária. Segundo a narrativa dos Atos dos Apóstolos, “a multidão dos fiéis era um só coração e uma só alma. Ninguém considerava como próprias as coisas que possuía, mas tudo entre eles era posto em comum. Com grandes sinais de poder, os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus, e os fiéis eram estimados por todos. Entre eles ninguém passava necessidade, pois aqueles que possuíam terras ou casas, vendiam-nas, levavam o dinheiro, e o colocavam aos pés dos apóstolos; depois, era distribuído conforme a necessidade de cada um.” (At 4, 32-35).

Nesta lógica, portanto, ser cristão é muito mais que praticar uma religião cultual. Ser cristão é adotar um “modo de viver”, o modo de Jesus; é viver segundo os valores do Evangelho. Por certo, sem cair no risco do mimetismo (ninguém poderá “imitar” Jesus ipsis litteris), mas buscando seguir o exemplo deixado pelo Mestre (cf. Jo 13, 15). Como disse o Apóstolo Pedro, Ele deixou-nos o exemplo para que sigamos os seus passos (cf. 1Pd 2, 21).

De fato, conforme lembra o teólogo Jon Sobrino, o seguimento de Jesus é a melhor forma de explicitar a identidade cristã. Porque, “o fundamental da identidade cristã consiste em realizar o próprio ser humano como Jesus, reagir diante da história e realizar a própria vida como Jesus; em palavras simples, parecer-se com Jesus.” Ora, “Ele passou pelo mundo fazendo o bem” (At 10, 38); logo, os cristãos deveriam passar fazendo a mesma coisa. Oxalá o aumento no número de católicos signifique, igualmente, o aumento de um estilo de vida radicado no Evangelho.

Frei Jeferson Felipe Cruz, OSA
Doutorando em Teologia

Artigo publicado na coluna Reflexão, do Jornal Inquietude On-line, edição de abril de 2026.
Foto: Vatican Media