Nos últimos anos, sobretudo pelo empenho de grupos pentecostais católicos, tem crescido no Brasil a propagação de uma religiosidade bélica. A experiência religiosa deixa de ser um espaço de pacificação para se tornar um espaço de conflito. A devoção ao Arcanjo Miguel comparece como a plataforma mais apurada dessa mentalidade que entende a vida como uma permanente luta entre o bem e o mal, entre os puros e os impuros, entre a igreja e o mundo. Mentalidade, diga-se de passagem, muito mais próxima do maniqueísmo que do Evangelho.
É no mínimo curioso como esses grupos ignoram completa e conscientemente o gérmen pacifista da mensagem cristã. O próprio Jesus proclamou bem-aventurado quem promove a paz (cf. Mt 5, 9) e, se disse que veio trazer a guerra, não foi no sentido de legitimar os conflitos, mas indicando que o seu projeto acabaria incomodando a ordem das coisas (cf. Mt 10, 34). Ressuscitado, ofereceu como primeiro dom aos seus discípulos a “sua paz”: uma paz desarmada e desarmante, como gosta de insistir o Papa Leão XIV.
A religiosidade bélica, ao contrário, insiste nas imagens de guerra: os féis já não são o Povo de Deus, ou os discípulos missionários de Jesus, mas o “exército de São Miguel”; o rosário e outros elementos devocionais já não são um auxílio para a vida devota, mas “armas”; a vida já não é lugar da epifania de Deus, mas um “ringue”, um campo de batalha; e o mundo (entendido como tudo aquilo que vai contra o compêndio moral desses grupos) é um inimigo a ser destruído. E diante desse cenário o católico não pode ceder; precisa estar a postos como um soldado convocado para a guerra. A paz não é sua bandeira. Ao contrário, o “apanágio dos filhos de Adão” exige que se empunhem armas. Como se divulga: “se até os anjos empunham espadas, significa que nem tudo será resolvido na base da conversa”.
A mentalidade bélica não é novidade contemporânea. A Idade Média a desenvolveu e propagou, e a cristandade se construiu e difundiu a partir dela. Basta pensar nas Cruzadas e na “blasfêmia” das “guerras santas”. Mais tarde, no século XIX, no contexto do contrailuminismo, essa mentalidade volta a comparecer discretamente em movimentos pietistas como o Apostolado da Oração (como não lembrar do Hino: “Levantai-vos, soldados de Cristo…”) e as Cruzadas Eucarísticas. Movimentos estes marcados pelo tom apologético típico do processo de romanização. Agora, no contexto de um catolicismo virtualizado e marcadamente subjetivista e devocional, o belicismo religioso volta pela “espada de São Miguel”.
Obviamente, não está sob questão a devoção em si, mas a cosmovisão que ela alimenta e as atrocidades que ela justifica. Querendo ou não, esse tipo de Devocionismo bélico acaba por justificar e legitimar a violência, inclusive religiosa. Ao propagar a “espada do Arcanjo”, esses grupos ignoram completamente que Jesus disse, inclusive àqueles que gostariam de defendê-lo: “guarda a espada na bainha” (Jo 18, 11; cf. Mt 26, 52). Como poderemos, então, promover uma cultura da paz, quando insistimos em devoções bélicas? Como poderemos defender a paz, quando preferimos enxergar a vida como um campo de batalha? Como poderemos pedir o fim da guerra, se nos identificamos mais como um exército do que como filhos e filhas do Deus da paz (cf. Hb 13, 20)?
Certamente, esse trabalho de conversão da linguagem, da mentalidade e da experiência religiosa começa na artesania pessoal. Como ensina Santo Agostinho, se queremos atrair os outros para a paz, devemos tê-la em nós primeiro; “sede vós, antes de tudo, firmes na paz. Para inflamar os outros, deveis ter dentro de vós a luz acesa” (Sermão 357, 3). Mas do artesanato precisamos passar à arquitetura da paz e, neste caso, a religião, enquanto fator e fenômeno social, tem muito a contribuir. Por isso, merece avaliação o Devocionismo bélico que tanto se tem propagado no Brasil. Sobretudo, quando consideramos que não poucos católicos são favoráveis ao livre porte de armas, e que o Brasil, um país cuja maioria da população se declara cristã, ultrapasse a marca de 40 mil homicídios por arma de fogo por ano, liderando o ranking mundial de homicídios em números absolutos, de acordo com dados do Estudo Global sobre Homicídios 2023, divulgado pela ONU.
As religiões, e o catolicismo por primeiro, deveriam prestar esse serviço fundamental à humanidade sofredora: a promoção da paz, vigiando sobre a crescente tentativa de transformar em armas até mesmo pensamentos e palavras. Como lembrou o Papa Leão XIV na Mensagem para o LIX Dia Mundial da Paz, em janeiro deste ano, “as grandes tradições espirituais, assim como o reto uso da razão, fazem-nos ir além dos laços de sangue e étnicos, ou daquelas fraternidades que reconhecem apenas quem é semelhante e rejeitam quem é diferente. Hoje vemos como isso não é óbvio. Infelizmente, faz parte do panorama contemporâneo, cada vez mais, arrastar as palavras da fé para o embate político, abençoar o nacionalismo e justificar religiosamente a violência e a luta armada. Os fiéis devem refutar ativamente, antes de tudo com a sua vida, essas formas de blasfêmia que obscurecem o Santo Nome de Deus. […] Em todo o mundo, é desejável que cada comunidade se torne uma ‘casa de paz’, onde se aprende a neutralizar a hostilidade através do diálogo, onde se pratica a justiça e se conserva o perdão. Hoje, mais do que nunca, é preciso mostrar que a paz não é uma utopia, através de uma criatividade pastoral atenta e generativa”.
Por certo, a criatividade pastoral – iluminada e fecundada pelo Espírito que opera comunhão – poderá nos conduzir a outras experiências diferentes do Devocionismo bélico. Elas são menos atrativas, com certeza. No entanto, podem ser mais fiéis ao Evangelho daquele que trouxe a paz para os de perto e para os de longe (cf. Ef 2, 17), Aquele que é nossa paz, Cristo Jesus (cf. Ef 2, 14).

Frei Jeferson Felipe Cruz, OSA
Doutorando em Teologia
Artigo escrito para a coluna Theos, do Jornal Inquietude On-line, edição de março de 2026.