No silêncio, falai de mim aos homens: a cruz de Jesus como persistente e incômodo lembrete

No jardim da Igreja Nossa Senhora da Boa Viagem, na capital mineira, está plantada uma grande cruz. Na base desse monumento se inscreve uma comovente frase: “Ó Cruz, louvai o meu Pai do céu e, no silêncio, falai de mim aos homens”.

Enxergar a cruz como “falante silencioso” é realmente genial. Curiosamente, a liturgia católica incluiu na celebração da Exaltação da Santa Cruz a récita do salmo 77, como salmodia responsorial. O texto é um convite à memória agradecida: “das obras do Senhor, ó meu povo, não te esqueças” (Sl 77, 7). A cruz, em certa medida, cumpre essa mesma função. Também ela é um permanente convite à memória agradecida. No silêncio, ela fala de alguém e, antes de ser alçada como estandarte vitorioso, é um persistente e incômodo lembrete.

Mas lembra o quê?
A resposta que naturalmente vem à nossa mente é: a cruz lembra o amor de Deus pela humanidade. Como costumamos cantar no Brasil, ela é prova de amor e prova maior que ela não há.

De fato, a leitura hermenêutica do escândalo do Calvário, feita a partir da fé pascal, enxergou na cruz a consumação do amor e do interesse salvador de Deus pela humanidade. O Apóstolo Paulo, na carta aos Romanos, diz exatamente que “nisto Deus demonstra o seu amor por nós: Cristo morreu em nosso lugar, apesar de sermos pecadores” (Rm 5, 8-12). O Apóstolo João, na sua primeira carta, atesta a mesma compreensão: “nisto se manifestou o amor de Deus para conosco: Ele enviou seu Filho unigênito ao mundo, para que por ele vivamos. Nisto está o amor, não em que nós tenhamos amado a Deus, mas em que ele nos amou a nós e enviou seu Filho como propiciação pelos nossos pecados” (1Jo 4, 9-10).

A leitura soteriológica da cruz é realmente a que se impôs na pregação e na catequese cristã. E há nisto um Evangelho (uma boa notícia): Deus viveu e morreu por amor a nós! Como pregava Santo Tomás de Villanova: “duvidamos deste amor, e não sabemos com que amor o nosso Deus vem atrás de nós? Esse amor que o fez viver e morrer por nós? Seus testemunhos são feitos concretos: a cruz é testemunho, os pregos são testemunhos, a morte mais cruel e horrenda é um testemunho de quanto sofreu por nós. Mas quando sofre todas essas coisas para ele parece nada pelo fato de seu imenso amor” (In Dominicam XVII post Pentecoste, Concio III, n. 7).

E, justamente por causa do imenso amor que o Senhor nos outorgou, a cruz é-nos extremamente benéfica. Como ensina Santo Agostinho, “era preciso que o sangue do justo fosse derramado para apagar o quirógrafo dos pecados (cf. Cl 2,14-15). Era necessário um exemplo de paciência, um exemplo de humildade. Era necessário o signo da cruz para debelar o diabo e seus anjos. Era-nos indispensável a paixão de nosso Senhor, pois pela paixão do Senhor o mundo inteiro foi remido. Quantos bens derivam da paixão do Senhor!” (Comentário ao Salmo 61, 20).

Contudo, há um perigo nessa hermeneutica amoris, sobretudo para nós que somos devedores do romantismo clássico e do sentimentalismo pós-moderno. O perigo de apagar e esquecer a causa histórica da cruz que, apesar da sua crueza, também é prova de amor. Neste sentido, o convite do salmo 77 continua sempre válido: “das obras do Senhor, ó meu povo, não te esqueças” — das obras de um amor consequente e histórico.

O amor consequente de Jesus, que o levou à cruz, está circunscrito na sua fidelidade ao Reino de Deus. Por essa razão, a vida mesma de Jesus foi a causa de sua morte. As escolhas que fez, em vista do Reino, fizeram-no provocar e enfrentar conflitos. Mas isso não foi privilégio seu. Outros também o fizeram e, talvez, até com maior intensidade, como é o caso do Mestre da Justiça de Qumran. No entanto, na história do Galileu, há algo de diferencial, e os principais dados emergem da análise da própria prática de Jesus, conforme narrada pelos sinóticos.

Uma síntese que pode ajudar a compreender as razões históricas da cruz encontra-se no “processo/julgamento” de Jesus. A partir da análise das informações contidas no relato da paixão, podemos distinguir o confronto em três aspectos:

  1. A tensão, existente na Galileia, entre o campo e a cidade, entre as elites urbanas e o campesinato;
  2. A atitude crítica de Jesus com respeito ao Templo, que gerou o grande conflito em Jerusalém com a aristocracia sacerdotal;
  3. A ameaça que Jesus representou para o poder político romano (o atesta a condenação à crucificação); sim, porque Jesus havia mobilizado massas, havia suscitado expectativas populares intensas, que os romanos interpretaram como messiânicas, e isso o convertia em um subversivo perigoso.

A cruz, portanto, tem uma dupla razão histórica: um conflito religioso e um conflito político.

A respeito do processo religioso ao qual Jesus foi submetido na “casa de Anás e Caifás”, é possível, não sem ressalvas, destacar três acusações principais: posição liberal diante do sábado (Mc 2, 23s); ser um falso profeta e expulsar demônios em nome dos demônios (Mc 3, 22; Mt 9, 34); destruir o Templo e reedificá-lo em três dias (Mc 14, 38). No entanto, a principal acusação foi de blasfêmia: declarar-se filho de Deus. O texto evangélico coloca essa confissão durante o interrogatório. Contudo, a declaração por si mesma não levaria à condenação. Antes de Jesus, por exemplo, outros já a haviam feito e nem por isso morreram. O diferencial é que Jesus distanciou-se do que era comum em seu tempo, neste sentido.

“Ele era por demais original e soberano para poder se enquadrar dentro do universo de compreensão de uma cultura religiosa. […] Ele possuía, pelo menos no final de sua vida, uma consciência nítida de sua missão libertadora de todos os elementos alienatórios no homem e no mundo; tinha consciência de que com Ele o prazo para o irromper do Reino de Deus tinha-se esgotado e que, com sua presença e atuação, essa nova ordem de todas as coisas já começara a fermentar e a se manifestar. Tal consciência transpirou clara no interrogatório solene feito por Caifás. Ora, sustentar semelhante pretensão é situar-se já na esfera do divino. E isso, para um homem, é blasfêmia.”[1]

Esse processo religioso, por manobra das autoridades judaicas, foi convertido em um processo político que, provavelmente, visava ratificar a decisão do Sinédrio. As críticas religiosas foram taticamente transformadas em acusações políticas e, por fim, Jesus é condenado sob a acusação de pretender ser rei dos judeus. Todo esse arcabouço conflitivo é consequência da fidelidade de Jesus à realidade do Reino de Deus e, como tal, é a “obra histórica” da cruz. Essa obra não podemos esquecer; não podemos alienar.

De fato, a cruz não é lembrança de um amor abstrato. Pelo contrário, Jesus amou tanto o mundo que, para vê-lo livre do mal (o pecado e suas consequências incluídos) e envolvido pela lógica do Reino de seu Pai, não hesitou em levar seu amor às últimas consequências. Por isso, a cruz permanece um convite persistente e incômodo para não esquecermos as obras do Senhor.

O Brasil – com extensa população cristã – é um país que vive, poderíamos dizer, à sombra da cruz. No entanto, parece viver esquecido das obras do Senhor que a cruz atesta. Basta pensar, por exemplo, na alienação frente aos projetos políticos que disputam a campanha presidencial. Quais deles se afinam realmente com a obra testemunhada na cruz? Por certo, se formos fiéis ao Evangelho, precisamos convir: não é o que promove “festinhas” com dinheiro público no sábado e, no domingo, sobe no púlpito para vomitar atrocidades moralizantes.

Da mesma forma, não é o que destrói a soberania nacional promovendo a colonização e a subserviência do país a uma nação que se julga, idolatricamente, “dona do mundo”. Também não é o que blasfema, manipulando o nome de Deus em benefício próprio.

A obra do Senhor, testemunhada na cruz, tem outras raízes e outros fins. Dessa obra não podemos nos esquecer: ela trouxe vida em abundância para todos.

Frei Jeferson Felipe Cruz, OSA
Doutorando em Teologia

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Referência:
[1] BOFF, Leonardo. Jesus Cristo Libertador. Petrópolis: Vozes, 2012. p. 109.

Foto: cruz de metal na Praça do Papa, em Belo Horizonte, erguida em homenagem à histórica missa campal celebrada pelo Papa João Paulo II no local em 1980. Crédito: arquivo Cúria Provincial.