Levante-se da inércia da vida!

A atmosfera que envolve a Quaresma é frequentemente confundida com um conjunto de sacrifícios que devemos realizar em memória do sofrimento vivido por Jesus Cristo no Calvário. Em verdade, esta parece ser uma das mais importantes manifestações de agradecimento pela vida que se apresenta como ressurreição.

No entanto, para o Bispo de Hipona, estes quarenta dias deveriam funcionar como uma metonímia da própria existência humana: um tempo de trabalho e persistência que antecipa a claridade da Páscoa. Estamos, durante quarenta dias, imersos em um período de reconciliação com Deus através de Jesus. Se a vida presente é um exílio de suspiros, a Quaresma é o momento de afinar o instrumento da alma para a harmonia da eternidade. Diante dessa contagem regressiva litúrgica, resta-nos um corajoso exame de consciência: estamos prontos para abandonar o simulacro de piedade e abraçar uma mudança diante da realidade em que vivemos?

Para Santo Agostinho, a conversão não é uma abstração teológica, mas um retorno urgente ao fundamento do ser. É o despertar de um sono perigoso que muitos, por presunção ou negligência, insistem em prolongar. Muitos se enganam ao adiar a mudança de vida, confiando em um futuro que não lhes pertence. Sobre essa perigosa procrastinação da alma, o santo de Hipona nos adverte: “De fato, se eles estão certos de se converterem mais tarde, por que levar uma má vida, quando podem torná-la boa? Que eles mostrem a passagem das Escrituras que lhes promete viver amanhã. Em toda parte, no entanto, eles são pressionados a se converterem.” (Sermão de Santo Agostinho 40, 1).

A conversão é, portanto, o ato de tornar boa uma vida que até então era dissipada. É a possibilidade de reconhecer que o Criador nos esperou com paciência para que não perecêssemos na demora da nossa escolha de sermos melhores. É uma decisão pessoal que possui uma gravidade absoluta. Assim, temos a oportunidade de compreender que esse tempo cronológico imposto pela liturgia da Igreja é apenas o cenário para a escolha de uma mudança que ocorre na solidão da nossa vontade de crescermos como seres humanos. Agostinho reforça que o tempo da espera divina deve ser o motor da nossa pressa: “O que quer dizer: espere no Senhor? Que receba quando Ele der, que não exija d’Ele quando você quiser. A época das suas recompensas ainda não chegou. Espere-O, pois Ele esperou você.” (Sermão de Santo Agostinho, 40, 3).

Todavia, essa arquitetura interna do coração não se sustenta por si só. Ela exige o respaldo de andaimes externos a cada um de nós. Não existe, na visão agostiniana, uma espiritualidade desencarnada. A conversão é uma decisão pessoal com ressonância profunda na vida comunitária e nas práticas possíveis de serem realizadas por todos os seres humanos. A disciplina quaresmal, composta pela tríade – jejum, oração e esmola –, é o remédio prescrito para castigar os estímulos do corpo e elevar a alma. Contudo, o seu valor é nulo se não transbordar em caridade concreta: “Quanto à obra de caridade, aquele que jejua deve distribuir entre os pobres o que corta de si mesmo e aquele que pode jejuar deve, por compensação, doar mais ainda. A abstinência, por fim, deve ser séria, assim como a continência.” (Sermão de Santo Agostinho 209, 5).

A verdadeira mudança de direção (ou seja, a Metanoia) manifesta-se na capacidade de reconciliação. A Quaresma é o tempo de eliminar inimizades, rancores e frustrações que possamos alimentar em nossa vida. Pois, se a negligência ou a soberba mantiveram muros entre irmãos até agora, é necessário que a caridade construa novas pontes. Sobre a urgência do perdão como prova da conversão, as palavras de Santo Agostinho nos exortam: “Se a negligência, a teimosia ou uma vergonha mais soberba do que modesta a mantiveram entre nossos irmãos até este dia, que pelo menos nesta época se saiba por um fim nelas. Não se ponha o sol sobre o vosso ressentimento.” (Sermão de Santo Agostinho, 209, 1).

Essa transformação tem um poder tão avassalador que ninguém deve se considerar excluído da misericórdia de Deus. Isso aprendemos sempre em uma leitura aprofundada da Sagrada Escritura. Por exemplo, a personagem bíblica do novo Testamento, Saulo, nos ensina que o perseguidor de ontem é o apóstolo de hoje, Paulo de Tarso. Especificamente, ao refletir sobre o exemplo de conversão desse apóstolo, Agostinho nos lembra que a grandeza do pecado não é maior que a força da renovação: “Quem então poderia se desesperar por causa da grandeza de seus crimes ou por causa da humilhação do seu nascimento? Assim é o poder da graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, que vive e reina com o Pai e o Espírito Santo.” (Sermão de Santo Agostinho 428, 3).

Portanto, a conversão para Agostinho é a integração perfeita entre o querer interior e o agir exterior. Ela não se limita ao período de quarenta dias que antecedem a Páscoa do Senhor, mas os utiliza como um treinamento intensivo para o que deve ser a postura diária de um cristão. A resposta para a pergunta que iniciou esta reflexão é simples, embora exigente: a conversão real ocorre quando o indivíduo para de adiar a própria retidão e compreende que a Quaresma é o “agora” de Deus batendo à porta da sua vontade de sermos melhores pessoas.

Este é o convite deste tempo: levante-se da inércia da vida! O tempo é um recurso finito e a santidade não é um prêmio de consolação para os tardios. É necessário buscarmos a leveza daqueles que têm pressa em amar. Se acreditamos que após a Quaresma virá a ressurreição, que desculpa resta para não acreditarmos que somos capazes de mover-nos, desde Deus e através dos irmãos, para abraçarmos a mudança de vida que nos coloca no caminho de uma vida mais feliz e no sentido real de vivermos a plenitude que se encontra em Cristo ressuscitado?

Frei Arthur Vianna Ferreira, OSA
Artigo publicado na coluna Fala Agostinho, do Jornal Inquietude On-line, edição de fevereiro de 2026.

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