“Sou agostiniano, um filho de Santo Agostinho…” (Papa Leão XIV)
Com essas palavras, naquela noite de 8 de maio de 2025, apresentava-se ao mundo, como 267º Papa da Igreja Católica, nosso confrade Robert Francis Prevost. Segundos antes, o soar desse sobrenome, na voz do protociácono, cardeal Dominique Mamberti, gerou em nós um misto de alegria e espanto: “É o Prevost! É o Prevost! É Agostiniano! O Papa é Agostiniano!”, foi certamente o grito que ecoou nas comunidades e nos corações agostinianos pelo mundo afora.
O que se seguiu à apresentação de Leão XIV foi um fenômeno sem precedentes, pois pela primeira vez na história, um agostiniano se tornava Papa. Vivemos dias intensos entre as muitas felicitações e as diversas solicitações dos meios de comunicação de massa para entrevistas, depoimentos etc. Do ponto de vista vocacional, um aumento significativo de jovens desejando conhecer melhor a Ordem do novo Papa. Acolhemos tudo isso como um dom de Deus, um chamado à renovação da nossa própria identidade como Agostinianos. Uma graça! Uma responsabilidade!
Ao longo desse primeiro ano de pontificado, temos acompanhado com alegria e orgulho uma série de palavras e gestos significativos de Leão XIV que reforçam sua identidade agostiniana e um carinho especial pela família religiosa que o acolheu, formou e, à qual serviu, por longos anos, de maneira especial como Prior Geral. A referência ao ser agostiniano ali de início, no balcão da Basílica de São Pedro, como recordado acima, é um deles. A esse somam-se outros tantos gestos como: as visitas ao Santuário da Mãe do Bom Conselho, em Genazzano, dois dias após a eleição, e à Casa Geral, no primeiro dia sem agenda oficial como pontífice; as inúmeras citações, diretas e indiretas, de Santo Agostinho em suas homilias, discursos e mensagens; a presidência da missa de abertura do Capítulo Geral da Ordem, bem como a visita aos capitulares, em setembro passado; a recente viagem apostólica à Argélia, terra natal de Santo Agostinho.
Sem desconsiderar a riqueza desses tantos gestos e palavras, dos quais poderíamos haurir muitas reflexões, gostaria de lançar um olhar mais atento para um deles: a visita de Leão XIV ao Capítulo Geral da Ordem, na manhã do dia 15 de setembro de 2025. A visita, por si, já foi eloquente. Imerso numa agenda jubilar intensa, o Santo Padre, um dia após seu aniversário natalício, desejou estar com seus irmãos, conversar, conviver, celebrar conosco. Uma presença serena, atenta, consciente, feliz. Serviu água para si mesmo e para o Prior Geral, respondeu perguntas, recebeu as felicitações e presentes de cada confrade, almoçou conosco, sem cerimônias, sem protocolos, sem formalidades. Esse foi o sentimento daquela manhã: Leão XIV, um irmão entre irmãos. A única diferença: ele vestia branco, e nós, em sua maioria, preto.
Na Aula Magna do Pontifício Instituto Patrístico Agostiniano dirigiu-nos um breve, porém, profundo discurso[1]. Disse sentir-se em casa e participar interiormente do Capítulo Geral, exprimindo uma profunda comunhão espiritual com a Ordem, que nessa ocasião, é chamada a “rezar e refletir sobre o dom recebido, sobre a atualidade do carisma e também sobre os desafios e problemas que interpelam a comunidade.” No entanto, destacou o Papa, que embora o Capítulo deva ser para os frades um tempo de profunda escuta do Espírito e, portanto, de voltar-se para si mesmo, “a interioridade não é uma fuga das nossas responsabilidades pessoais e comunitárias, da missão que o Senhor nos confiou na Igreja e no mundo, das perguntas e dos problemas urgentes. (…) O voltar a nós mesmos renova o impulso espiritual e pastoral: se volta à fonte da vida religiosa e da consagração, para oferecer luz àqueles que o Senhor põe em vosso caminho. Se redescobre a relação com o Senhor e com os irmãos da própria família religiosa, porque desta comunhão de amor se pode extrair inspiração para assim enfrentar melhor as questões da vida comunitária e os desafios apostólicos.”
Nessa direção, chamou-nos a atenção para quatro temas. O primeiro, caracterizado por ele como fundamental, é o das vocações e da formação inicial. Leão XIV insistia que nossa primeira preocupação deverá ser “ajudar, especialmente os jovens, a vislumbrar a beleza do chamado e amar aquilo que, abraçando a vocação, poderão chegar a ser.” E continuou: “A vocação e a formação não são realidades preestabelecidas: são uma aventura espiritual que envolve toda a história de uma pessoa, e se trata, antes de tudo, de uma aventura de amor com Deus”.
Um segundo tema abordado por Leão XIV foi o do estudo teológico e da formação intelectual. Para o Papa, a busca e o conhecimento de Deus empreendido por Santo Agostinho deverá ser também o nosso, mas não tão somente uma busca racional ou um conjunto de informações teóricas. É preciso deixar-se surpreender pela grandeza de Deus, questionarmos a nós mesmos e o sentido das coisas “para rastrear nelas as pegadas do Criador.”
A vida comunitária e a atividade apostólica foi o terceiro tema destacado pelo Santo Padre, com ênfase na comunhão dos bens materiais, humanos e espirituais. Aos capitulares, mas ao agostinianos de todo o mundo, dirigiu uma apelo de fidelidade: “Permanecei fieis à pobreza evangélica e fazei que se converta em critério para viver tudo o que sois e tendes, incluso os meios e as estruturas, a serviço da vossa missão apostólica.”
Por fim, insistiu para não nos esquecermos da nossa vocação missionária. Ele, um coração inquieto e missionário, agora, desde o serviço da autoridade para toda a Igreja, nos exorta a olhar para os Agostinianos que nos precederam na missão. “Este espírito missionário não deve apagar-se, porque também hoje é muito necessário. Exorto-os a reavivá-lo, recordando que a missão evangelizadora a que estamos chamados exige o testemunho de uma alegria humilde e simples, a disponibilidade para o serviço, o compartilhar a vida do povo ao qual somos enviados.”
Poderíamos ainda somar a esses quatro grandes temas destacados por Leão XIV outros tantos para os quais tem dado voz e chamado a atenção de toda a Igreja. Mas a nós, Agostinianos, seus confrades, talvez fosse salutar nos debruçarmos sobre essas preciosas indicações, saboreá-las mais uma e outra vez, e com elas nos comprometermos, a fim de oferecer o melhor de nós, do nosso carisma e espiritualidade à Igreja, nas mais diversas realidades em que nos encontramos.
Ao Papa Leão XIV, vida longa! E como expressou Frei Joseph Farrel, OSA, nosso atual Prior Geral: “Te prometemos nosso amor fraterno e nosso apoio. Saiba que estamos aqui para ajudá-lo em seu serviço a uma população global com tantas necessidades, mas também com tanta esperança e alegria. Que Deus siga te abençoando e que nossa Mãe do Bom Conselho e São José te protejam e te guiem em seu ministério.”[2]

Frei Tailer Douglas Ferreira, OSA
Conselheiro Provincial
Artigo publicado na edição especial do Jornal Inquietude On-line, em homenagem ao primeiro ano do pontificado do Papa Leão XIV – 8 de maio de 2026.
Foto: Frei Genesis Labana, OSA e arquivo da Cúria Geral Agostiniana – Papa Leão XIV visitou o Colégio Santa Mônica, na Cúria Geral Agostiniana , em duas oportunidades: no dia 13 de maio e no dia 1º de junho de 2025.
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[1] LEÃO XIV. Discurso ao Capítulo Geral da Ordem de Santo Agostinho. Roma, 15 de setembro de 2025.[2] FARREL, Joseph l. Saudação ao Santo Padre Leão XIV. Roma, 15 de setembro de 2025.