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mar/24

Irmãos no Filho: a fraternidade em Jesus Cristo

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Há tempos em que a temática da fraternidade circula nas histórias e nos relatos das mais diversas sociedades construídas sobre o orbe. Assim, a Campanha da Fraternidade de 2024, que traz como tema “Fraternidade e Amizade Social” e lema “Vós sois todos irmãos e irmãs” (Mt 23,8), se insere nessa mesma agenda de apelos pela preservação da fraternidade humana. A Igreja no Brasil, durante este tempo Quaresmal, reverbera, em seus pronunciamentos, posts, áudios e homilias, aquela interpelação de Pedro Apóstolo na sua primeira carta: – “amai os irmãos” (IPe2,17); cooperando, assim, para que o ‘ser irmão’ seja um marco da vida dos cristãos.

Vale a pena, então, resgatar algumas imagens históricas que figuraram narrativas de fraternidade! Dentro do panteão das divindades gregas, por exemplo, a lenda dos dióscuros Pólux e Castor permanece “viva” no imaginário humano hodierno através do zodíaco. Na tradição das divindades romanas, a antiquíssima lenda dos gêmeos Rômulo e Remo, mito originário da fundação de Roma. No primeiro livro sagrado para judeus e cristãos, o ‘Bereshit’ ou Gênesis, encaixa-se perfeitamente no cenário à vista: os irmãos Caim e Abel, com a morte do irmão por inveja (Gn 4,1-16).  E as querelas entre irmãos não cessam aí. Nos escritos bíblicos encontramos também Esaú e Jacó (Gn 25-27), José e seus onze irmãos (Gn 37), Moisés, Arão e Miriã (Nm 26,59), Pedro e André (Mt 4,18), Tiago e João (Mc 1,19) e Marta, Maria e Lázaro (Jo 11,1).

 Já na era cristã e nas demais decorrentes, encontramos diversos testemunhos da relação de irmãos entre homens e mulheres da Igreja, como Cosme e Damião (séc. II), Gervásio e Protásio (séc. II), de Proto e Jacinto (séc ?), de Basílio de Cesareia, Gregório de Níssa, Macrina, a Jovem, Pedro de Sebaste, Naucrácio e Teosébiaou (séc. IV), de Agostinho e Pérpetua de Hipona (séc. IV), de Romão e Lupicino (séc. V), dos irmãos de Cartagena, Isidoro, Florentina, Fulgêncio e Leandro (séc. V), de Bento e Escolástica de Núrsia (séc. V), ou ainda de Francisco e Jacinta Marto (séc. XX).

Essas lendas mitológicas, biografias e testemunhos, sem abarcar todas as existentes, foram brevissimamente mencionadas para evidenciar a frequência das reflexões sobre o que se entende por fraternidade. Indubitavelmente, a compreensão desta se desdobra dentro das narrativas religiosas, mas também das narrativas ufanistas, políticas, futebolísticas, comunitárias, familiares... Certo é que:“a palavra ‘fraternidade’ é uma bela palavra, mas não deveríamos esquecer sua ambiguidade” (Cardeal Joseph Ratzinger), haja vista a multiformidade de suas compreensões. Por isso, vamos nos ater à compreensão da fraternidade dentro da perspectiva de Jesus de Nazaré que, por meio de sua vida e ministério, tornou-se um propulsor de uma verdadeira “virada copernicana” da fraternidade.

O mundo grego filosófico viveu uma fraternidade de correligionários, fixando limites assentados sobre a busca afinada pela verdade dos princípios morais e éticos. Por sua vez, o mundo romano a viveu na libertinagem da imoralidade e no paganismo de sua religiosidade. Enquanto o judaísmo, exemplo de vivência de seres conacionais e confessionais, limitou a fraternidade à nação e à expressão de fé de um povo escolhido. Enfim, o cristianismo entendeu a fraternidade erigida sobre princípios coespirituais/apocalípticos para aqueles que, através de Jesus Cristo, aceitam viver a vontade de Deus impulsionados pelo Espírito Santo. 

A fraternidade no cristianismo é o sentimento de pertença a uma família que tem um mesmo Pai e um Irmão Primogênito, Cristo Jesus. Sim, uma “autêntica fraternidade entre os homens pressupõe a paternidade de Deus” (Cardeal Joseph Ratzinger). Claramente, os membros da Igreja são irmãos porque, em Jesus, eles são filhos adotivos de Deus. Somos filhos no Filho, incorporados no Pai pelo nascer de novo (Jo 3,3). Fora de Cristo, não haverá vinculação que genuinamente expresse a fraternidade cristã. Talvez incorramos no erro de pensar que a Igreja seja um gueto de irmãos fechados em si mesmos, mas, pelo contrário, ela é uma assembleia de irmãos em Cristo, abertos a todos os que aderem ao cumprimento da vontade do Pai.

Aquele que tem Deus como Pai, tendo Cristo como irmão, terá também a Igreja como mãe. A fraternidade cristã supera todas as demais fraternidades, pois já não se realiza no parentesco de sangue, mas, sim, no parentesco espiritual. A oração do Pai Nosso aclara a fraternidade cristã à medida que se entende que Deus é nosso Pai e que O é porque o Filho nos deu o direito de chamá-lO assim; direito este salvaguardado e defendido pela mãe Igreja. Não se clama a Deus como Pai na ilha da individualidade humana, mas, sim, na comunidade de irmãos, sobretudo na Eucaristia da Igreja que dissolve a peculiaridade do eu e aflora o nós em Cristo.

Na cruz, no momento ápice de nossa fé, o Filho Unigênito e Maior entrega sua mãe como mãe do discípulo João (Jo 19, 25-27). O discípulo prefigura os membros da Igreja, e esta é prefigurada em Maria. De tal forma, Jesus mesmo estabelece a maternidade universal de Maria e perpetua a fraternidade cristã na Igreja. A mãe de Jesus é mãe também desses que n’Ele estão incorporados e são membros. Diz-nos a Constituição Dogmática do Concílio Vaticano II, Lumen Gentium, no número 62, que Maria “cuida, com amor materno, dos irmãos de seu Filho que, entre perigos e angústias, caminham ainda na Terra, até chegarem à pátria bem-aventurada”.

Nesse ínterim, o Papa Francisco, através da sua Carta Encíclica Fratelli Tutti, de 2020, oferece aportes pertinentes a essa reflexão. O Francisco de Roma debruça-se sobre o legado do Francisco de Assis, que se sentia irmão de todos, do Sol, da Lua, das matas, dos animais...até mesmo da morte. Sua fraternidade se dá pelo fato de sermos criaturas oriundas de um só Criador e Pai e é, exatamente, por isso que é uma fraternidade aberta a todos, vivida universalmente por aqueles filiados a um Criador comum e que habitam juntos a grande “Casa Comum”, obra primeira da Criação. Assim, aquele Francisco de Roma convida-nos a viver o cuidado com o próximo através da amizade social e da fraternidade universal como um novo tipo de presença no mundo, já que todos pisam “sobre o mesmo húmus terrenal onde estão nossas origens comuns e sobre o qual convivemos” (Leonardo Boff).

Por fim, brevemente, coloquemos atenção na atual forma de agir da humanidade, pois o que tem acontecido realmente é um brutal fratricídio entre os que supostamente foram criados à “imagem e semelhança” (Gn 1,26) de Deus. Aquele espírito de Caim permanece vivo em muitos e sua tese é mais que atual – “acaso sou guarda de meu irmão?” (Gn 4,9). A fraternidade humana será verdadeira e eficaz à medida que ela se alicerçar n’Aquele que deve ser a base para que o edifício a ser construído não caia em ruínas. Possivelmente o que ainda não compreendemos é que a “virada jesuânica” do paradigma da fraternidade transforma o homem de homines remotus em  fratres fraterni in Iesu Christo de homens isolados em irmãos fraternos em Cristo Jesus.

Frei Eduardo José de Oliveira, OSA

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