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mai/24

Inteligência Artificial e sabedoria do coração: a Igreja e a sociedade contemporânea

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No dia 12 de maio, a Igreja em todo o mundo rezou pelas Comunicações Sociais. Há 58 anos, o Papa Paulo VI, convocava este dia de oração e reflexão no intuito de trazer à baila um tema de relevância e convidar-nos a uma reflexão aos olhos da fé.

O pontífice, já em 1967, nos afirmava que diante do contexto em que vivia a sociedade era necessário que nós, enquanto Igreja, também contribuíssemos: “A Igreja também quer dar sua contribuição para o ordenado progresso do mundo da Comunicação: contribuição de inspiração, de encorajamento, de exortação, de orientação, de colaboração” (PAULO VI, 1967). Daí em diante, na Igreja, estava implantado o Dia das Comunicações Sociais, ou seja, um dia que nos propõe uma reflexão, à luz da fé, sobre os nossos meios de Comunicação Sociais.

Neste passo inicial, o então bispo de Roma levantava uma voz profética para dizer que nós, enquanto cristãos católicos, precisávamos nos ater naquele novo progresso tecnológico. Hoje não poderia ser diferente. O Papa Francisco nos lança uma nova provocação nos convidando a refletir sobre a Inteligência Artificial e Sabedoria do Coração: para uma comunicação plenamente humana. Um recado de um pastor que se preocupa com o seu rebanho, e na verdade com toda a humanidade. Em na sua mensagem, ele escreveu:

 “Neste tempo que corre o risco de ser rico em técnica e pobre em humanidade, a nossa reflexão só pode partir do coração humano. Somente dotando-nos dum olhar espiritual, apenas recuperando uma sabedoria do coração é que poderemos ler e interpretar a novidade do nosso tempo e descobrir o caminho para uma comunicação plenamente humana” (Francisco, 2024).

O caminho trilhado pelo Papa Francisco não foi o feito por um juiz, fazendo várias críticas e condenações. Por mais que ele já tenha sido vítima da Inteligência Artificial (IA), pelo contrário, ele reconhece que, quando se trata desta tecnologia há luzes e desafios que teremos que enfrentar enquanto Igreja e sociedade. Mas o que é então esse novo, o que é a IA, o que é esse novo espectro[1]? No livro Sociedade.com, o filósofo brasileiro, Abel Reis nos planta a dúvida do porque a temos como um espectro:

“Há muitas expectativas e perguntas sobre a Inteligência Artificial (IA). Também na boca do povo, a IA assusta e fascina. É claro que ela afeta [...] para o bem e para o mal [...] Um viés ainda pouco explorado sobre a IA é não o que ela tende a subtrair de nós – empregos, renda, interação humana –, mas o que ela agrega à nossa existência” (Reis, 2018).

O fato da IA ser um universo pouco desbravado é algo que deveria nos alertar. De fato, nem sempre sabemos dar nome a esse instrumento, ou seja, não sabemos conceituá-lo. O senso comum, por vezes, pode apontar a Inteligência Artificial como uma rede social ou algo relacionado somente ao virtual, quando na verdade deveria entendê-la como algo muito mais superior ao que nós escutamos do senso comum, porque, ela não se limita apenas a uma rede social. A IA, na verdade, é algo capaz de apresentar soluções tecnológicas que simulem a inteligência humana, seja com textos, fotos, vídeos e etc. Portanto, ela não é uma realidade futura. É, na verdade, uma realidade presente aqui e agora, e que evolui com a nossa sociedade. Suas atividades visam o bem comum dos povos.

Diante das novas realidades, a posição da Igreja não tem sido punitiva, mas vemos um caminho de acolhida, e de educar os seus para lidar com esses novos temas. Neste sentido, o que Igreja do Brasil nos exorta no documento 99 da CNBB é que devemos ter uma posição pedagógica de educar para a comunicação: “faz-se necessário que a Igreja promova, sistematicamente, para Bispos, presbíteros, diáconos, religiosos e religiosas, lideranças leigas e comunidades, uma formação que promova o entendimento fundamental, que facilite a implementação de políticas de ação neste campo das comunicações” (SOUZA, 2023).  Portanto, os caminhos apresentados por Francisco, pela CNBB e por Abel, ainda que com palavras e formas distintas, são caminhos de encarar a realidade que já temos a nossa disposição, e assumi-la, afinal já não estamos mais refletindo apenas sobre usar os meios digitais, ou a Inteligência Artificial, o que na verdade estamos fazendo é uma reflexão de sujeitos que já vivemos em uma cultura digital, e onde isso já está inserido na nossa realidade.

Nota-se que para um bom uso da Inteligência Artificial, bem como dos demais meios de Comunicação Sociais que temos ao nosso dispor, há um caminho que é partir desde a sabedoria do coração. Falar nessa sabedoria é algo delicado, porque erroneamente em alguns casos o coração é visto como um espaço “bobinho” das paixões, ou seja, desprovido da razão, e não é essa a mensagem que queremos passar. Como diz Francisco: “Por isso a sabedoria do coração é a virtude que nos permite combinar o todo com as partes, as decisões com as suas consequências, as grandezas com as fragilidades, o passado com o futuro, o eu com o nós.” (FRANCISCO,2024).

Ou seja, partir do coração é partir do mais profundo e intenso de nossa humanidade. O Coração, biblicamente é compreendido como sede da liberdade humana, e o lugar de onde discernimos as decisões de grande importância em nossas vidas, é também o lugar dos afetos, o lugar do encontro com Deus, portanto, partir do coração é partir de nossa humanidade, é partir do discernimento em Deus e com ele.

Francisco nos planta questões do mundo de hoje e do amanhã, já não refletimos mais sobre questões do passado. Um questionamento, dentre os vários feitos, é como garantir a transparência dos processos informativos? Um mal que vivemos hoje por meio das Fake News, e pela falta de uma regulamentação de nossas mídias. A IA não se forma apenas de coisas positivas há também as negativas, porém esses desafios apresentados pela conduta dos sujeitos no “espaço” da Inteligência Artificial, só poderá ser aprimorado se, enquanto sociedade, fazemos questionamentos válidos, como nos apresenta Francisco:

 “A partir das respostas a estas e outras questões que compreenderemos se a Inteligência Artificial acabará por construir novas castas baseadas no domínio informativo, gerando novas formas de exploração e desigualdade ou se, pelo contrário, trará mais igualdade, promovendo uma informação correta e uma maior consciência da transição de época que estamos a atravessar, favorecendo a escuta das múltiplas carências das pessoas e dos povos, num sistema de informação articulado e pluralista.” (FRANCISCO, 2024).

O que estamos fazendo enquanto Igreja, é atentar a uma realidade que está presente aqui e agora, é só assumindo-a é que teremos uma comunicação efetivamente humana, e é claro que, enquanto Igreja devemos estar atentos a IA como um novo “espaço” para anunciar o Reino proposto por Jesus.  O Papa Francisco não está nos falando sobre uma experiência social, o tema da Inteligência Artificial é mais católico do que nós pensamos, porque ao falar sobre isso, chegamos ao que podemos chamar de teologia da comunicação, portanto, devemos entender o discurso teológico como uma comunicação de um Deus por um ponto de vista da fé, um Deus que se revela ao povo, um Deus que se auto comunica pelo Filho pela revelação divina. Uma vez que surge esse novo espaço teológico onde podemos anunciar o Reino é nosso dever entrar nele assim como escreveu o Papa Paulo VI no decreto Inter Mirifica: sobre os meios de comunicação social nos escreveu dessa importância da inserção.  

“Portanto, à Igreja compete o direito natural de usar e de possuir tais instrumentos enquanto necessário ou úteis à formação cristã e à toda a sua obra de salvação das almas; é, pois, dever dos sagrados Pastores instruir e dirigir os fiéis a fim de que estes, com o auxílio de tais meios, alcancem a salvação e a perfeição própria e a de todo gênero humano.” (COSTA, 1997).

Em suma a Inteligência Artificial já não é uma utopia futura, do contrário ela é uma realidade presente, portanto devemos administrá-la da melhor maneira possível. Não é viável que enquanto sociedade, ou enquanto Igreja, tenhamos a IA como uma ferramenta diabólica, do contrário é mais louvável que nós enquanto Igreja reconheçamos que há luzes, que a ferramenta nos oferece grandes oportunidades que podem contribuir com o nosso serviço de evangelização, portanto é preciso testemunhar através de um uso responsável. Através desta nova realidade é possível tê-la como um espaço de evangelização, um novo locus teológico. E para que a nossa comunicação e evangelização, neste novo espaço, seja eficiente só há um caminho que é partir desde a sabedoria do nosso coração para um bom testemunho da nossa fé.

Frei José Henrique Morais, OSA
Professo Agostiniano


REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

REIS, Abel. Sociedade.com: como as tecnologias digitais afetam quem somos e como vivemos. Porto Alegre: Arquipélago Editorial, 2018.

Paulo VI, Papa. Mensagem do 1 ° dia das comunicações sociais: Os meios de comunicações. disponível em: https://www.vatican.va/content/paul-vi/pt/messages/communications/documents/hf_p vi_mes_19670507_i-com-day.html. Acesso em: 03 abr. de 2024.

Francisco, Papa. Inteligência Artificial e sabedoria do coração: para uma comunicação plenamente humana. Acesso em: https://www.vatican.va/content/francesco/pt/messages/communications/documents/20240124-messaggio-comunicazioni-sociali.html. 03 abr. de 2024.

Paulo VI, Papa. Decreto Inter mirifica: sobre os meios de comunicação social. In: COSTA, Lourenço (org.). Documentos do Concílio Ecumênico Vaticano II. São Paulo: Paulus, 1997.   (COSTA, 1997)

SOUZA, Mons. Jamil Alves de (org.). Diretório de comunicação da Igreja no Brasil. 4. ed. Brasília - Df: Edições CNBB, 2023.


[1] Espectro é o nome dado para a visão de uma imagem considerada fantasmagórica. A partir do seu sentido figurado, o espectro ainda pode se referir ao que representa uma ameaça ou que provoca dor e sofrimento.

Imagem: Freepik

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