Fragmentos de uma Subjetividade: o luto e o desejo

O acidente acontecido com minha irmã Lúcia e seu esposo, chamado por todos de Nego, ocorrido dia 9 de dezembro de 2025 – um dia antes do aniversário de morte de nosso pai: 12 anos – resultou no falecimento trágico do Nego e deixando a Lúcia muito ferida. Um carro, em alta velocidade, rodou na pista, tombou e, girando rapidamente, atingiu os dois na porteira do sítio onde moravam. Lúcia carregava o lixo no carrinho de mão e seu esposo caminhava à frente. A carriola ficou toda amassada, quebrou uma das hastes e a outra entortou. Além da batida do veículo, o carrinho foi o objeto que cortou profundamente a perna de minha irmã.

Ante o desespero dos irmãos, sobrinhos(as), filhos(as), netos, genros, noras, cunhada, amigos de vários lugares, devagar foi se formando uma rede de solidariedade no cuidado à Lúcia. Não faltaram mãos solidárias. As visitas intensas e carinhosas trouxeram conforto e palavras de esperança e outras, como expressão de cuidado, ofereceram flores.

Pensando na frase de Freud: “A ciência moderna ainda não produziu um medicamento tranquilizador tão eficaz como o são umas poucas palavras boas”, resolvi escrever, pois as palavras dão curso aos sentimentos e ajudam a estruturar o que imaginamos. Na última visita a Lúcia neste carnaval de 2026, vi algo diferente no jardim de nossa casa, lá na roça; jardim plantado pela nossa mãe e cuidado carinhosamente por todos nós, depois de sua partida. Vi um carrinho ou carriola de ferro cheio de flores.

Minha irmã desentortou o carrinho e o transformou em um vaso, plantando, ali, as flores recebidas durante sua convalescência. Tomado pela emoção desse encontro no jardim, quis escrever algo que me ajudasse a entender melhor o significado do tamanho do investimento neste ato transformador: objeto de morte, objeto de vida.

Como psicanalista, ante tamanha densidade traumática, minha escuta se detém não apenas no trágico factual, mas na elaboração simbólica que Lúcia opera sobre os restos do desastre. Aqui, estamos diante de uma manifestação clássica do que Freud descreveria como o trabalho do luto e a economia da libido.

O acidente no sítio – o espaço que deveria ser de idílio e repouso – irrompe como o Real traumático, uma força bruta que rasga o véu da segurança cotidiana. O “carrinho de mão”, originalmente um instrumento de trabalho destinado ao transporte do “lixo” (o resto, o que não serve mais, o que deve ser descartado), torna-se o epicentro da tragédia. É nele que a morte se faz presente de forma fulminante, levando o cunhado e ferindo o corpo de minha irmã.

No entanto, o que observamos a seguir é uma manobra psíquica de rara beleza e saúde: a sublimação. Após o impacto, Lúcia recebe flores. Na gramática do luto, as flores ocupam um lugar ambivalente: são tributos à morte, mas também representações da vida que insiste em brotar. Ao decidir transformar o próprio carrinho do acidente em um vaso, ela realiza um ato de trans-significação.

Em vez de recalcar o objeto traumático (esconder ou destruir o carrinho), ela o mantém no campo de visão. Isso indica que ela não nega o trauma, mas escolhe conviver com ele sob uma nova forma. Onde antes se carregava o lixo e onde a morte se fez presente, agora se cultiva a vida. O objeto que transportava o “excesso” doloroso passa a sustentar a beleza.

Assim como as feridas de seu corpo se fecham, ela “costura” o sentido da perda através do plantio. As flores recebidas dos outros – o afeto externo – servem como o adubo necessário para que o ego de Lúcia se reconstrua. Freud nos ensinou em Luto e Melancolia que o luto é um processo doloroso de desinvestimento da libido do objeto perdido. Lúcia não deixou a libido estagnar na dor (o que levaria à melancolia). Ela reinvestiu essa energia no objeto-carrinho, transformando-o de um receptáculo de morte em um receptáculo de memória viva. O carrinho-vaso é, portanto, um monumento à resiliência. Ele prova que, embora o trauma seja indelével, o sujeito não precisa ser escravo da repetição da dor; ele pode, através do fazer criativo, dar um novo destino ao que restou do naufrágio. O carrinho é agora um símbolo de que a vida da Lúcia, embora marcada, possui rodas para seguir em frente, carregando agora apenas o que floresce.

E falando um pouco mais, penso que no momento do acidente, como diz Freud, ocorreu uma hemorragia libidinal. Quando perdemos alguém bruscamente (o cunhado) e sofremos uma agressão ao corpo (os ferimentos dela), nossa energia vital vaza. O sujeito fica “vazio”, empobrecido, focado apenas na dor. Nesse sentido, podemos dizer que as flores recebidas de amigos representam o investimento afetivo do mundo externo. É como se cada pessoa que enviou uma flor estivesse dizendo: “Eu deposito em você um pouco da vida que lhe foi tirada”. Diante de um ego estraçalhado, as flores funcionam como um espelho positivo. Ao ver a beleza e o cuidado contido nelas, Lúcia começa a sentir que ela mesma ainda é digna de cuidado e beleza.

Quando Lúcia planta as flores, não as deixando morrer por si ou em vasos descartáveis, é um ato de “incorporação saudável”. Ela pega o carinho que recebeu de fora e o fixa em sua própria realidade. Quem chega ao sítio vê o carrinho (o trauma). Mas imediatamente vê as flores (o afeto). O diálogo deixa de ser apenas sobre “o que aconteceu” (a morte) e passa a ser sobre “o que está crescendo” (a vida). Ao transformar o carrinho em vaso, ela cria um ponto de encontro.

As flores foram o combustível para que ela pudesse manusear o ferro pesado do passado. Sem esse “adubo” afetivo, o carrinho permaneceria apenas como uma carcaça de metal oxidada pelo sangue e pela tristeza. Ao plantá-las, Lúcia declarou que a bondade dos vivos é forte o suficiente para ocupar o lugar onde a morte tentou fazer morada.

José Maurício da Silva
Doutor e Mestre em Psicanálise