Entre a herança e a pertença: o contraste entre o jardim e o deserto

Em 1971, foi publicada a 1ª edição da obra “O deserto é fértil”, escrita por Dom Helder Câmara (1909-1999), como roteiro para as “Minorias Abraâmicas”. Entre as muitas meditações que compõem essa obra, o santo bispo de Olinda e Recife esclarecia, em uma delas, que o deserto é inevitável. Ninguém devia iludir-se ou agir de maneira ingênua, porque “quem escuta a voz de Deus e faz sua opção interior e arranca-se de si e parte para lutar pacificamente por um mundo mais justo e mais humano… quem se arranca de si e parte como peregrino da justiça e da paz deve preparar-se para enfrentar desertos.[1]

De fato, o deserto é inevitável e suporta uma infinidade de significações. Pode ser tratado como sinônimo de morte; pode ser moldura de oásis; pode ser favorável à contemplação das estrelas; pode ser parente das dificuldades e da dor; mas, pode, também, ser fértil. Charles de Foucauld (1858-1916), que viveu as agruras e a beleza do deserto (literalmente), certa vez escreveu a um amigo: “é preciso passar pelo deserto e aí permanecer para receber a graça de Deus; é lá que nos esvaziamos, que extraímos de nós tudo o que não é de Deus e que esvaziamos completamente esta pequena casa da nossa alma para deixar todo o espaço apenas para Deus. Os judeus passaram pelo deserto, Moisés viveu lá antes de receber a sua missão, São Paulo e São João Crisóstomo prepararam-se no deserto […]. É um tempo de graça, é um período pelo qual toda a alma que quer produzir frutos tem necessariamente de passar.” (Charles de Foucauld, Carta ao Padre Jerônimo, 19 de maio de 1898).

O deserto, sobretudo o existencial, é fértil. Jesus de Nazaré, por exemplo, fez nele uma experiência que marcou a sua vida. De acordo com as narrativas evangélicas, depois de ter recebido o batismo no Jordão, inspirado pelo Espírito, Ele se encaminhou ao deserto (cf. Mc 1, 12-13; Mt 4, 1-11; Lc 4, 1-13). Ao longo de 40 dias se expôs ao limite físico e psíquico preparando-se para iniciar sua atividade pública como evangelista do Reino de Deus. Quis passar pelo deserto e lá, depurou suas intenções profundas, discernindo as reais motivações que alimentavam seu projeto evangelizador.

As tentações que sofreu, mais do que tentações “religiosas” ou que tocam as “paixões desordenadas”, como costumam sugerir as interpretações piedosas, atingem diretamente o seu projeto de vida; elas refletem o intenso processo de discernimento que Jesus empreendeu para depurar o projeto que estava prestes a abraçar.[2] As “ofertas” apresentadas pelo tentador materializavam um tipo de messianismo populista, bélico e colonizador, bem conforme a expectativa messiânica de Israel. Jesus precisou decidir se iria incluir esse modelo em seu projeto de vida ou se iria romper com Ele e deixar-se guiar pelo Espírito e pela novidade do Reino que pretendia anunciar.

Pela firmeza da convicção que alcançou Jesus confirma que o deserto pode ser, realmente, fértil. E, nesse sentido, o coloca em direto contraste com o jardim do paraíso. Jardim e deserto contrastam não só pelos acidentes geográficos, mas pelo teor das experiências que abrigam. Enquanto o deserto torna-se palco da “vitória” de Jesus, o Éden – não obstante seu esplendor torna-se o cenário da “queda”. Aquilo que Jesus conseguiu no deserto, os primeiros humanos não conseguiram no jardim.

Obviamente a interpretação do mito das origens, tal como conservado no livro do Gênesis (cf. 3, 1-24), exige atenção a investimentos de sentidos ocultos que lhe são determinantes. Mais do que a narrativa de um “desastre”, os relatos bíblicos das origens constituem uma gramática da esperança, supondo, como disse José Tolentino Mendonça, que o verdadeiro paraíso nunca é aquele perdido, mas o esperado.[3] “O homem descobre que está fora do paraíso para que possa encaminhar-se para Ele. A expulsão não é, portanto, uma perda, mas o primeiro, e misterioso, passo para o caminho da promessa.”[4]

Tanto o que aconteceu no paraíso quanto o que aconteceu no deserto podem se inscrever na gramática da esperança, afinal, o contraste entre o primeiro e o novo Adão foi completamente assumido pelo plano salvador de Deus. O Criador não permitiu que, pela queda primitiva, o mal tivesse a última palavra. Em sua sabedoria e bondade, Ele subverteu a lógica das coisas e, daquilo que seria o fim, Ele fez começo; do erro, fez oportunidade de acerto; do mal, tirou o bem.[5]

A leitura paulina do contraste entre o deserto e o jardim, nesse sentido, é esclarecedora: “a morte reinou, desde Adão até Moisés, mesmo sobre os que não pecaram como Adão – o qual era a figura provisória daquele que devia vir. Mas isso não quer dizer que o dom da graça de Deus seja comparável à falta de Adão! A transgressão de um só levou a multidão humana à morte, mas foi de modo bem mais superior que a graça de Deus, ou seja, o dom gratuito concedido através de um só homem, Jesus Cristo, se derramou em abundância sobre todos. [Porque] O dom é muito mais eficaz do que o pecado de um só. […] Se pela desobediência de um só homem a humanidade inteira foi estabelecida numa situação de pecado, assim também, pela obediência de um só, toda a humanidade passa para uma situação de justiça” (Rm 5, 1-16.19).

A evidente consequência do raciocínio paulino resulta em grandioso privilégio. Ao mesmo tempo que compartilhamos a herança do pecado de Adão, compartilhamos, com a mesma força e inteireza, a vitória de Cristo. Não só porque Ele “morreu pelos nossos pecados e ressuscitou para a nossa justificação” (Rm 4, 25), mas, porque pertencemos a Ele ou, melhor, porque somos n’Ele, somos seus membros, somos seu corpo (cf. 1Cor 12, 27). De Adão somos herdeiros; de Cristo, somos membros.

Essa é uma diferenciação que qualifica a experiência cristã: a pertença a Cristo é, infinitamente, superior à herança de Adão. No entanto, infelizmente, levados pelo enlevo negativo, muitos pregadores preferem supervalorizar a herança em detrimento da pertença, esquecidos de que da herança pode-se abrir mão, enquanto a pertença, ao contrário, nada desfaz. E é se verdade o que diz a Escritura, “vivos ou mortos pertencemos ao Senhor” (Rm 14, 8).

A pertença a Cristo nos faz participar da sua vida e de sua vitória. Não só da vitória final, mas das inúmeras vitórias alcançadas por Ele, inclusive aquela no deserto. Comentando o Salmo 60, o santo bispo de Hipona, diz que o Senhor nos representou em sua pessoa quando quis ser tentado. De fato, Cristo foi tentado, mas nele, nós éramos tentados, porque ele assumiu a nossa condição humana para nos dar a salvação; assumiu a nossa morte para nos dar a vida; assumiu as nossas tentações para nos dar a sua vitória (cf. Santo Agostinho, Comentário ao Salmo 60, 3).

No deserto, outrora, nós estávamos com Cristo. Hoje, no nosso deserto, Ele continua conosco. Lá, Ele foi tentado e venceu. Aqui, Ele continua enfrentando a tentação conosco. Lá, nós vencemos n’Ele. Hoje e sempre, Ele será vitorioso em nós, se nos deixarmos guiar por Ele, se aprendermos com Ele a resistir e se nos revestirmos d’Ele, tendo em nós os mesmos sentimentos (cf. Fl 2, 5). Enquanto somos peregrinos neste mundo, lembra-nos Santo Agostinho, nossa vida não pode estar livre de tentações, pois é através delas que se realiza nosso progresso e ninguém pode conhecer a si mesmo sem ter sido tentado. Ninguém pode vencer sem ter combatido, nem pode combater se não tiver inimigo e tentações. Acontece que, se em Cristo fomos tentados, nele também vencemos. Da mesma forma que nos reconhecemos nele em sua tentação, devemos nos reconhecer em sua vitória (cf. Santo Agostinho, Comentário ao Salmo 60, 3).

Interessa, pois, caminhar nessa esperança: em Cristo, que nos amou, “somos mais que vencedores” (Rm 9, 37). A herança é secundária; não nos define. A pertença é prioritária, nos compõe e nos distingue. Mais do que simples herdeiros do pecado de Adão, somos membros de Cristo e pertencemos a Ele.

Frei Jeferson Felipe da Cruz, OSA
Doutorando em Teologia

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[1] CÂMARA, Dom Helder. O deserto é fértil. 6ª ed. Rio de Janeiro: Editora Civilização Brasileira, 1976, p. 31.
[2] Para aprofundar sugerimos: ELLACURÍA, Ignacio. Dimensión política del messianismo de Jesús. In: Escritos teológicos. Tomo II. El Salvador: UCA Editores, 2000, pp. 33-66.
[3] Cf. MENDONÇA, José Tolentino. A leitura infinita: a Bíblia e suas interpretações. São Paulo: Paulinas; Recife: Universidade Católica de Pernambuco, 2015, pp. 77-80.
[4] Cf. BEAUCHAMP, Paul. L’un et l’outre Testament. Vol. 2. Paris: Seuil, 1990, p. 158.
[5] Para não cair no perigo do conformismo diante do mal, sugerimos, para aprofundamento: ESTRADA, Juan Antonio. A impossível teodiceia: a crise da fé em Deus e o problema do mal. São Paulo: Paulinas, 2004, 449p.