DISCIPLINA ARCANI: penitência quaresmal (?)

Todos os anos, no início da Quaresma, os cristãos ouvem a contundente advertência de Jesus chamando a atenção para não praticar a justiça na frente dos homens só para ser vistos por eles. Tudo deve ser feito “em segredo”, para que somente o Pai do Céu, “que vê o que está escondido”, possa dar a recompensa (cf. Mt 6, 1-6).

Essa advertência, contudo, parece contrastar com outra orientação que, na narrativa de Matheus, está posta um capítulo antes. O mesmo Jesus que pede “segredo” diz que as boas obras devem ser postas à vista de todos, para que, vendo-as, as pessoas glorifiquem a Deus. Afinal, ninguém acende uma lâmpada para escondê-la debaixo de uma vasilha (cf. Mt 5, 15-16).

Então: devemos “publicar” ou manter em segredo?

Essa questão está longe de ser uma mera querela religiosa. Em tempos midiáticos, como os que vivemos, a “publicização” ganha tal relevância que, para algumas pessoas, “ser visto” equivale a existir; as “curtidas” equivalem a um atestado de existência, uma certidão do “Dasein”. O Cogito, em tempos de mass media, sofre uma aberrante mutação, já não vale mais a conclusão cartesiana – “penso, logo existo” –, mas, sim, o “posto, logo existo”.

Por incrível que pareça, essa lógica atinge um número considerável de religiosos e clérigos católicos. Paradoxalmente, os “discípulos” do Mestre, que advertia sobre o perigo do “só para serdes vistos”, multiplicam exposições e se comportam como verdadeiros “mendigos do like”.

Por certo, a presença religiosa nos meios digitais é imprescindível, inclusive, porque esses meios configuram-se como novos areópagos onde o Evangelho e o testemunho cristão devem reverberar. Não se trata, portanto, de criticar a presença da Igreja na mídia. O fato é que, mais do que postagens “evangelizadoras”, vemos multiplicarem-se as postagens personalistas e as exposições centradas na autoimagem. Mesmo nas transmissões de celebrações e momentos de oração, o foco está, majoritariamente, na pessoa do clérigo ou do religioso.

A impressão que se passa é a de que, no fundo, com a desculpa de evangelizar os/pelos meios digitais, essas lideranças religiosas “mendigas de likes”, na verdade, precisam alimentar o próprio narcisismo e, com isso, traem a inspiração do Mestre de Nazaré. Boa parte dessas publicações, não raro, funciona como uma ferramenta para validação constante e exibição de uma autoimagem inflada. Esse comportamento reflete uma busca por admiração, falta de empatia e, muitas vezes, manipulação para controlar a percepção alheia, criando relações superficiais e doentias.

Falta a essas lideranças um senso de “disciplina arcani” (do latim “disciplina do segredo”). Esse costume prevaleceu nos séculos IV e V do cristianismo. A disciplina arcani consistia no cuidado de manter o conhecimento de certas doutrinas e ritos da religião longe dos não cristãos e até mesmo daqueles que estavam sendo instruídos na fé, para que pudessem aprender progressivamente os ensinamentos da fé e não caíssem em heresia devido a mal-entendidos simplistas.

Santo Hipólito, por exemplo, escreveu, ao final de seu relato sobre o rito do batismo: “Se algo precisar ser explicado, que o bispo fale em particular com aqueles que receberam o batismo. Aqueles que não são cristãos não são informados, a menos que primeiro recebam o batismo. Esta é a pedra branca da qual João falou; nela está escrito um novo nome que ninguém conhece, exceto aquele que recebe a pedra”. (Tradição Apostólica 23,14).

A prática desapareceu no século VI. Hoje, ninguém proporia “esconder” certos ritos cristãos. Mesmo o último Conclave, em grande parte, foi acompanhado “ao vivo”. Contudo, a intuição da disciplina arcani bem que poderia inspirar os clérigos do século XXI. Especialmente para o uso moderado das redes sociais e a diminuição da exposição pessoal “só para ser visto”.

Recentemente, em uma carta enviado ao clero de Madrid, o Papa Leão XIV fez uma cirúrgica observação. Comparando a vida ministerial a uma Catedral o Santo Padre disse: “o sacerdote não vive para se exibir, mas também não vive para se esconder. Sua vida é chamada a ser visível, coerente e reconhecível, mesmo que nem sempre seja compreendida. A fachada [de uma Catedral] não existe por si só: conduz ao interior. Similarmente, o sacerdote nunca é um fim em si mesmo. Toda a sua vida é chamada a apontar para Deus e acompanhar a jornada rumo ao Mistério, sem usurpar o lugar de Deus.”[1]

Não se trata, portanto, de evitar ou demonizar as publicações. Trata-se de, a partir do critério evangélico, discernir: publico “para que os homens deem glória ao Pai celeste” ou “só para ser visto”? A motivação, com certeza, condicionará a qualidade e o conteúdo da publicação. Talvez, seja um bom caminho de discernimento perguntar-se: quem realmente está em evidência com determinada publicação? O testemunho do Batista indica: “é necessário que Ele cresça e que eu diminua” (Jo 3, 30).

Oxalá, a advertência do pregão quaresmal encontre eco em nossos corações. Oxalá, a discrição, assumida como penitência (se for o caso), produza frutos de conversão.

Frei Jeferson Felipe da Cruz, OSA
Doutorando em Teologia

Artigo publicado na coluna Theos, do Jornal Inquietude On-line, edição de fevereiro de 2026.

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[1] Disponível em: https://www.vatican.va/content/leo-xiv/es/letters/2026/documents/20260128-lettera-arcidiocesi-madrid.html