No dia 4 de outubro, o Papa Leão XIV publicou sua primeira Exortação Apostólica, intitulada DILEXI TE (Eu te amei), marcando o início de seu pontificado com uma profunda reflexão sobre o amor de Cristo e a opção preferencial pelos pobres. Assinada na memória litúrgica de São Francisco de Assis, a exortação dá continuidade ao legado de Papa Francisco, retomando temas centrais da Encíclica Dilexit nos e reafirmando o compromisso da Igreja com os mais vulneráveis. O documento destaca que o amor aos pobres é constitutivo da fé cristã e propõe uma espiritualidade encarnada, que reconhece nos pobres o rosto de Cristo e um caminho legítimo de santificação.
Embora escrito a quatro mãos, o texto conserva uma unidade de raciocínio que permite ver a estreita comunhão de ideia e perspectiva entre Francisco e Leão, confirmando assim que o pontificado leonino, com características próprias, mostra-se continuador da primavera inaugurada pelo Concílio Vaticano II e que foi tão bem atualizada pelo Papa Francisco.
Obviamente, por ser um texto recém-publicado, muitas leituras ainda poderão ser feitas e, à medida que for maturado mais se poderá colher do seu tesouro. Por isso, a leitura que ora proponho é tão somente uma leitura “desde a aurora”, aquela feita no amanhecer do primeiro dia e que, portanto, não tem pretensão de esgotar a abordagem do documento que, como já se disse, é um inquestionável tesouro do qual se poderá tirar coisas novas e velhas (cf. Mt 13, 52).
O primeiro elemento que salta aos olhos, como já disse, é a nítida continuidade com a perspectiva e o desejo de uma Igreja pobre para os pobres. E isso, não por estratégia populista, mas como decorrência da própria fé. O amor aos pobres não é um adereço na vida da Igreja, mas um elemento constitutivo seu, que deriva da fé cristológica e que pertence ao conteúdo mesmo da Revelação. Como assegura o texto, “não estamos no horizonte da beneficência, mas no da Revelação: o contato com quem não tem poder nem grandeza é um modo fundamental de encontro com o Senhor da história. Nos pobres, Ele ainda tem algo a dizer-nos” (DT, n. 5).
A força e o protagonismo dos pobres na obra da evangelização e da redenção/transformação do mundo exige considerá-los como sujeitos e não meros objetos da atenção eclesial (cf. DT, n. 100). Há nos pobres uma força que precisa ser acolhida e valorizada. Leão XIV, inclusive, no encontro com os membros da Fundação Centesimus Annus pro Pontifice, no dia 17 de maio de 2025, disse exatamente isto: “são fundamentais o encontro e a escuta dos pobres, tesouro da Igreja e da humanidade, portadores de pontos de vista descartados, mas indispensáveis para ver o mundo com os olhos de Deus. Quem nasce e cresce longe dos centros de poder não deve ser apenas instruído na Doutrina Social da Igreja, mas reconhecido como seu continuador e atualizador: as testemunhas de compromisso social, os movimentos populares e as várias organizações católicas de trabalhadores são expressão das periferias existenciais, onde a esperança resiste e germina sempre. Exorto-vos a dar a palavra aos pobres!”.
A fidelidade e o amor aos pobres, portanto, tornam-se elementos de discernimento e diferenciação para a Igreja. Se ela ignorar a realidade dos pobres, ela deixa de ser a Igreja de Cristo. Porque a opção pelos pobres, antes de ser uma opção eclesial, é uma opção Teológica: Deus os escolheu antes de nós (cf. Mt 11, 25). Neste sentido, o título da Exortação é extremamente significativo. O Senhor diz aos pobres: “Eu te amei” (Ap 3, 9), “tens pouca força, mas […] farei que […] venham prostrar-se a teus pés”. Uma declaração de amor que se estende desde a criação, irrompe no Êxodo (cf. Ex 3, 7-8), confirma-se ao longo da história, e realiza-se plena e definitivamente em Jesus que revela o privilegium pauperum. Ele que, “apresenta-se ao mundo não só como Messias pobre, mas também como Messias dos pobres e para os pobres” (DT, n. 19).
É, portanto, como fidelidade a este amor preferente da Trindade, que se pode ler os inúmeros testemunhos de proximidade e cuidado para com os pobres que a Exortação evoca, desde a Patrística, passando pela vida monástica, pelas ordens mendicantes e as diversas congregações cujo carisma surgiu e existe para o socorro dos pobres, seja na saúde, na educação, na promoção da dignidade das mulheres, no cuidado com os prisioneiros, na proximidade com os migrantes, no combate ao tráfico, etc. Esses exemplos materializam a lógica do Evangelho e presentificam a força das obras de misericórdia que definem a prática e a vida cristã (cf. DT, n. 39-79).
Um elemento que merece destaque, também, é a consideração da opção pelos pobres como um legítimo caminho de santificação. Como diz o texto, “a santidade cristã floresce, com frequência, nos lugares mais esquecidos e feridos da humanidade. Os mais pobres entre os pobres – que não apenas carecem de bens, mas também de voz e do reconhecimento da sua dignidade – ocupam um lugar especial no coração de Deus. São os preferidos do Evangelho, os herdeiros do Reino (cf. Lc 6, 20). É neles que Cristo continua a sofrer e a ressuscitar. É neles que a Igreja reencontra o chamamento a mostrar a sua realidade mais autêntica” (DT, n. 76).
Esse caminho de santificação, contudo, não permite alienação. Pelo contrário, exige uma clara consciência sobre as estruturas de pecado que perpetuam a lógica da exclusão e da opressão (cf. DT, n. 90-97). Os pobres não são vítimas do acaso. São empobrecidos pelo estilo de vida de alguns poucos que idolatram o capital, ajuntam tesouros para si e, como o rico da parábola, ignoram a multidão de Lázaros que jazem às portas do mundo (cf. Lc 16, 19-31).
Contra essa lógica perversa a Doutrina Social da Igreja e o Magistério Social subsequente, mostram-se como luminares que provocam os cristãos a uma vivência da fé mais coerente com o Evangelho. E aqui está, um detalhe precioso da Exortação: a insistência na defesa de que não há incompatibilidade entre a opção pelos pobres e a ortodoxia da fé (cf. DT, n. 110). Com lucidez profética, o Papa denuncia: “por vezes, em alguns movimentos ou grupos cristãos, nota-se a falta ou mesmo a ausência de compromisso pelo bem comum da sociedade e, em particular, pela defesa e promoção dos mais fracos e desfavorecidos. A este respeito, é preciso recordar que a religião, especialmente a cristã, não pode ser confinada à esfera privada, como se os fiéis não devessem interessar-se também pelos problemas relacionados com a sociedade civil e pelos acontecimentos que dizem respeito aos cidadãos” (DT, n. 112).
Outros elementos dignos de destaque são: a valorização da experiência de outras Igrejas, que não aquelas do polo europeu, especialmente as do sul global; a visibilidade e confirmação do caminho eclesial vivido pelas diversas Conferências Eclesiais, especialmente a da América Latina e Caribe – com a citação nominal das celebrações em Medellín, Puebla, Santo Domingo e Aparecida (cf. DT, n. 89); a valorização dos movimentos populares e da organização popular como forma legítima de lutar contra a pobreza e viver a solidariedade (cf. DT, n. 80-81); e, por fim, mas não menos importante, a visível “redenção” dos princípios basilares da Teologia Latinoamericana da Libertação, a saber: o primado da práxis e a perspectiva do pobre (cf. GUTIERREZ, A força histórica dos pobres, p. 293).
Além dos elementos supracitados, considerando que este “leitor da aurora” é, como o Papa Leão, um filho de Santo Agostinho, gostaria de mencionar o detalhe de uma página inteira dedicada ao pensamento do bispo de Hipona. Leão XIV tem feito questão de divulgar as contribuições agostinianas. Como ele mesmo disse: “numa Igreja que reconhece nos pobres o rosto de Cristo e nos bens o instrumento da caridade, o pensamento agostiniano permanece uma luz segura. Hoje, a fidelidade aos ensinamentos de Agostinho exige não só o estudo de suas obras, mas a predisposição para viver com radicalidade o seu apelo à conversão que inclui necessariamente o serviço da caridade” (DT, n. 47).
De fato, o Doutor da Graça tem muito a nos dizer. Como lembra o Pe. Trapè, “Agostinho pode ajudar-nos ainda, e muito, a conhecer a nós mesmos e a Deus, a compreender nossos problemas, não diferente dos dele, a iluminá-los, a resolvê-los. Para quem tem a fé cristã, ele oferece, do alto de sua síntese grandiosa, a alegria de contemplar sua profundidade, sua continuidade, sua eficácia; para quem não a tem, sabe dizer palavras humanas capazes de revelar o homem ao homem, mostrando sua natural dignidade, suas aspirações, suas esperanças” (TRAPÈ, Agostinho: o homem, o pastor, o místico, p. 17).
Oxalá, como está dito na conclusão da Exortação, consigamos, seguindo o exemplo de Cristo e tantos seguidores seus, quer através do nosso trabalho, quer através do nosso empenho em mudar as estruturas sociais injustas, quer através dos gesto de ajuda simples, muito pessoal e próximo, possibilitar que os pobres sintam serem para eles as palavras de Jesus: “Eu te amei” (Ap 3, 9).
Acréscimos:
Síntese da exortação apostólica
Infográfico 1
Infográfico 2
Infográfico 3

Frei Jeferson Felipe da Cruz, OSA
Artigo escrito para a coluna Theos, do Jornal Inquietude On-line, edição de outubro de 2025.
Imagem: Frei Gênesis Labana, OSA