Participar do Congresso da Ameríndia em Lima, Peru, nos dias 22 a 24 de outubro de 2025, foi uma experiência refontalizadora e revigoradora da vida no que diz respeito à vontade de seguir trabalhando e resistindo, acreditando e esperando por uma Igreja e um Continente mais humanizado e justo. Onde todos, sobretudo os mais empobrecidos e excluídos, tenham oportunidades e o direito de estarem compartilhando de uma vida, de uma história e de uma civilização mundial onde os direitos mais básicos sejam promovidos, vale dizer, a paz, a justiça, a dignidade, a liberdade, a democracia e a libertação das opressões, entre outros. Importante entender que a Ameríndia é uma Associação da qual participam pessoas ligadas às Igrejas cristãs ou organizações que trabalham, como teólogos, cientistas sociais, filósofos, agentes sociais/eclesiais e políticos, em prol das causas populares e de libertação de tudo que sinalize poder de morte contra o povo.
Também o Congresso teve como tema de fundo o primeiro ano da morte do teólogo Gustavo Gutierrez, o qual foi homenageado. Teólogo, primeiro a sistematizar a Teologia da Libertação. Alguém que soube teologizar à luz da experiência dos pobres e “creyentes”, enfim, a partir da realidade latino-americana.
O Congresso foi um compartilhamento, não apenas de conhecimento através das palestras, mas também de momentos celebrativos bem criativos e contextualizados e, principalmente, enriquecidos pelos relatos dos(as) companheiros(as) que têm vivido situações de perseguições, martírios, exclusões – sobretudo por estarem lutando ao lado e junto dos pobres em seus países, ou resistindo contra as corrupções e alianças de governos com poderes de morte. Essa situação é testemunhada em vários países, por exemplo: Peru, Chile, México, Guatemala, Honduras, El Salvador etc. No Peru, no momento, há protestos contra uma política de governo, por exemplo, aliançada com empresários que levam vantagens e privilégios, em cima de um povo já muito explorado e excluído. Em um momento celebrativo, foram “contempladas” as fotos de alguns mártires da América Latina, e entre esses estavam Mariele Franco e Irmã Doroty.
Entre os participantes, muitos estão comprometidos com uma vida de resistência a tudo que se opõe a um processo de libertação no continente latino-americano e caribenho. O que leva a ter que enfrentar em âmbito eclesial, social, político uma luta a favor da defesa ecológica e contra a falta de garantia dos bens básicos para o povo empobrecido e invisibilizado – situação que tem a ver, por exemplo, com muitos povos indígenas e moradores da periferia nas cidades, sobretudo das capitais dos países. Nesse sentido, houve um depoimento da Irmã Cristina Bove, da Associação Pastoral Nacional do Povo da Rua, de Belo Horizonte/MG, a respeito do seu trabalho com os moradores de rua.
Quanto às palestras, seguiu-se o método Ver, Julgar e Agir. No momento do Ver, ficou clara a nova geopolítica dos grandes Impérios no momento. A China se destaca com grande poder comercial no mundo, e os EUA numa situação de fracasso. O que não se descarta dentro de alguns anos um conflito entre as grandes potências. Também se trabalhou o atual caos que se vive quanto à realidade ecológica e o crescimento da desigualdade entre o Norte e o Sul. Situação imposta pelo poder do imperialismo, das guerras, do abandono dos povos e países empobrecidos – ou seja, o Sistema-mundo é produzido por um Capitalismo neoliberal genocida, fascista, totalitário, necrófilo que se alimenta do sangue dos povos e da destruição da natureza. Pelo Capital vale tudo: a vida humana, dos animais e da natureza em geral deve estar a serviço do nutrir a sede gananciosa do lucro ou do poder dominador do necrocapitalismo.
Quanto ao Julgar,não faltaram palavras para expressar a necessidade de testemunhar a Palavra à luz de uma fé que alimenta as lutas e as resistências. Isso na trilha do Seguimento do Deus da Vida e da Libertação – fé que se opõe às idolatrias ou a um cristianismo longe do grito dos que sofrem. Também se trabalhou que devemos resgatar a Tradição eclesial de uma Igreja pobre e encarnada, solidária e comprometida com os povos perseguidos e maltratados. Enfim, na perspectiva do Magistério, seguir assumindo a opção pelos pobres e a inculturação, uma teologia de cunho ecofeminista, ecosinodal. Foram criticadas experiências da Igreja, que se fecha apenas ao devocional, ou atrelada ao conservadorismo e fundamentalismos que não ajudam a estar aberta ao desafio da realidade.
Por fim, quanto ao item Agir, foram muito enriquecedoras as várias experiências que acontecem em algumas comunidades cristãs, entidades sociais, movimentos sociais etc. Experiências que revelam que existe muita gente comprometida com uma Igreja e uma Política não conivente ou cúmplice de uma realidade que mais favorece a morte que a vida, a continuidade de uma doutrina alienante que uma visão encarnada e atuante onde a vida clama por amor, cuidado e justiça.
Não se pode deixar de reconhecer a riqueza dos trabalhos realizados nos quinze grupos. Muita riqueza no que diz respeito às trocas de experiências, aos relatos e às conclusões.
Saí do Congresso animado a seguir acreditando e apostando no seguinte: se queremos transformação continental, pelo bem de todos(as), essa só poderá vir dos últimos da história ou, como dizia Gustavo Gutierrez, do Reverso da história. Caso Contrário, estaremos profanando o que há de mais sagrado na Terra: A VIDA!

Frei Luiz Augusto de Mattos, OSA
Artigo para a coluna Theos, do Jornal Inquietude On-line, de outubro/novembro de 2025.