Desde o ano 2000, por instituição do Papa Wojtila, a Igreja celebra no segundo Domingo da Páscoa a festa da Divina Misericórdia. Liturgicamente, a festa é questionável, porque, se não for bem direcionada, corre o risco de suplantar a eminência da Páscoa com uma devoção pessoal. Não é difícil encontrar comunidades que valorizam mais a devoção a Santa Faustina que a celebração do Mistério Pascal nesse dia. A própria oitava da Páscoa, por vezes, é substituída pela “Novena da Divina Misericórdia”, contrariando a orientação do Concílio Vaticano II, que determinou que nenhuma celebração deve ser anteposta à do Mistério Pascal que é o fundamento e o coração do ano litúrgico.
Na Constituição sobre a Sagrada Liturgia, por exemplo, o Concílio foi claro: “oriente-se o espírito dos fiéis em primeiro lugar para as festas do Senhor, nas quais, durante o ano, celebram-se os mistérios da salvação. Por isso, para que o ciclo desses mistérios possa ser celebrado no modo devido e na sua totalidade, dê-se ao Próprio do Tempo o lugar que lhe convém, de precedência sobre as festas dos santos” (SC, 108).
Não obstante essa questão litúrgica, a festa da Divina Misericórdia pode conservar um fecundo sentido pastoral, sobretudo, se conduzir os cristãos à redescoberta da mensagem central do Evangelho que, como lembrou o Papa Francisco, é a “beleza do amor salvífico de Deus manifestado em Jesus Cristo morto e ressuscitado” (EG, 36) e, por consequência, a supremacia da misericórdia divina (cf. EG, 34-39).
De acordo com São Francisco de Sales, “o trono da misericórdia é a miséria humana” (Máximas Espirituais, VI, 12). Isso significa que assumir e acolher a própria miséria é o primeiro passo para experimentar a misericórdia divina. Isso não quer dizer que devemos amortecer a consciência diante do sofrimento, ou promover a resignação passiva, como se, diante da nossa miséria, não tivéssemos o que fazer. Não! Reconhecer a própria miséria como trono da misericórdia significa acolher a própria fragilidade e imperfeição com adultez, com responsabilidade; significa vencer o infantilismo que nos faz terceirizar e culpabilizar os outros pelo que nos acontece; significa encarar a própria verdade, sem fugir dela e sem maquiá-la.
Acontece que, neste tempo midiático em que vivemos, onde as aparências valem mais que a verdade, onde a vida postada nas redes sociais (sempre perfeita) vale mais que a vida real, nossa tentação é esconder e fugir das nossas misérias. Todos nós corremos o risco de viver de aparência. Muitos, inclusive, aproveitam a religião e uma suposta vida piedosa para maquiar e esconder a própria fragilidade, esquecendo-se que, como ensina Santo Irineu, “aquilo que não é assumido não é redimido” (Adversus Haereses, V).
Esse é um perigo ao qual estamos expostos pessoal e institucionalmente. Basta pensar nas postagens da Semana Santa: enquanto Jesus entra em Jerusalém montado em um jumento, os padres ostentam capas pluviais luxuosas; enquanto Jesus amarra uma toalha na cintura e lava os pés dos discípulos, seus ministros revestem-se de seda e tecidos brocados; enquanto Jesus morre despido na cruz, os sacerdotes encobrem-se de paramentos e adereços. É, no mínimo, incompatível o curso e o discurso. Não se trata de criticar, sem mais, o decoro e o bom gosto litúrgico, mas ponderar se não estamos caindo em excessos que, ao invés de conduzir ao mistério, o encobrem e desviam.
Em maio de 2025, o Papa Leão XIV, por ocasião da ordenação de um grupo de presbíteros na Basílica Vaticana, disse algo interessante: “juntos, reconstruiremos a credibilidade de uma Igreja ferida, enviada a uma humanidade ferida, dentro de uma criação ferida. Não somos ainda perfeitos, mas é necessário ser críveis”. Não seria essa uma importante condição que merece ser revisitada e assumida na festa da Divina Misericórdia: a identidade de uma Igreja ferida e miserável? A assunção da própria miséria, sem maquiagem, não seria um convincente testemunho de fé na misericórdia?
De fato, só pode ter uma grande confiança em Deus quem possuir conhecimento da própria miséria, porque esse conhecimento e a confissão da nossa miséria são o que nos conduzem à presença de Deus. A frase célebre “conhece-te a ti mesmo”, ainda que se refira ao conhecimento da grandeza e excelência da alma para nunca a aviltarmos em profaná-la com coisas indignas de sua nobreza, aplica-se igualmente ao conhecimento da nossa indignidade, imperfeição e miséria. Quanto mais nos reconhecermos miseráveis, tanto mais confiaremos na bondade e na misericórdia de Deus, pois, assegura o Doutor da mansidão, “existe uma ligação tão estreita entre a misericórdia e a miséria, que uma não pode exercer-se sem a outra. Se Deus não tivesse criado o homem, nem por isso teria deixado de ser verdadeiramente bom, mas não teria sido atualmente misericordioso por quanto a misericórdia só se exerce para com os miseráveis” (Colóquio II, sobre a Confiança, VI, 22).
A misericórdia divina é a própria essência de Deus nas relações com as criaturas. Ela entrevê que cada uma das nossas fragilidades pode chegar a ser, se assim o quisermos, uma nova ocasião para que se manifeste esse atributo divino. Quando disse “bem-aventurados os misericordiosos” (Mt 5, 7), Jesus nos revelou a sua própria bem-aventurança e a de seu Pai que está nos céus, inspirando-nos confiança para acolher e integrar nossa própria miséria. Como podemos, então, celebrar a Divina Misericórdia e continuar nos “escondendo” atrás de uma estética que nos aparenta perfeitos e ordenados, como vindos de um mundo de antanho?
A festa da Divina Misericórdia pode ser uma boa oportunidade de reconciliação com a própria miséria, afinal, se confiamos, de fato, na infinita misericórdia de nosso Deus, não temos por que maquiar e esconder nossa miséria constitutiva.

Frei Jeferson Felipe Cruz, OSA
Doutorando em Teologia
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