Através da Encarnação de Jesus, não caminhamos mais sozinhos

O tempo do Advento nos coloca diante de uma realidade dupla: não estamos apenas encerrando um ano civil, mas também nos reposicionando diante da promessa deixada por Deus à humanidade. Viver o Advento é um exercício litúrgico e existencial de organizar a esperança no presente, olhando para um futuro que desponta a cada um de nós. Em meio à correria das atividades de final de ano, das incertezas econômicas e sociais de uma sociedade capitalista, surge a necessidade de um fundamento que não seja passageiro.

Dessa forma, a esperança cristã é para nós, cristãos católicos, mais do que um mero otimismo de que “tudo vai dar certo”. É a certeza de que a história faz sentido para cada um de nós, porque a “’Eternidade” decidiu habitá-la através da encarnação de Jesus. O seu nascimento não é apenas um gesto de bondade divina na cronologia humana, mas a transformação da simples passagem dos dias cronológicos em oportunidade de salvação e encontro com Deus.

E essa esperança deve se manifestar em nossa vida concreta. O Natal nos recorda que o Transcendente não desprezou a matéria, mas a escolheu como morada. Ao contemplarmos os presépios espalhados pelas casas e cidades em nosso país, vemos a confirmação de que a Terra, antes marcada pela finitude, tornou-se berço da vida eterna.

Santo Agostinho, ao meditar sobre o Natal, nos convida a reconhecer a alegria que brota da realidade agora santificada: “Hoje a verdade brotou da terra; Cristo nasceu da carne. Entreguemo-nos a uma santa alegria” (Sermão 192, 1). Se a Verdade brotou da terra, significa que o nosso cotidiano é lugar fértil para o divino. O futuro que aguardamos não virá como mágica, mas nascerá das sementes de eternidade plantadas em nossa humanidade pela Encarnação de Jesus Cristo no meio de nós.

Ainda assim, a mente humana vacila diante da grandeza desse mistério. Como pode o Infinito caber no finito? Como pode o Criador depender da criatura? Essa perplexidade é natural, pois a lógica de Deus subverte a lógica humana. O Natal nos apresenta um Deus que vence pela proximidade e pelo amor humilde a toda a sua criação. Agostinho de Hipona nos lembra que o mistério não é para ser analisado, mas acolhido como via de salvação: “Como conceber que o Filho Unigênito, consubstancial ao Pai, eterno como o Pai, temível no Céu, na Terra e nos infernos, tenha desejado se revestir com um corpo humano para operar a salvação humana?” (Sermão 383, 1). Essa “roupagem” humana de Deus é a garantia de que nenhuma dor nos é estranha a Ele, e por isso Deus está sempre pronto a nos socorrer.

De distintas formas, o novo ano que se aproxima traz consigo o desejo de renascimento. Mas, para renascer, é preciso reconhecer o que nos mata interiormente e destrói o projeto de Deus em nossas vidas. A humanidade, com suas guerras, desigualdades e isolamentos, assemelha-se à mulher encurvada do Evangelho, incapaz de erguer os olhos para o horizonte, presa ao peso de suas falhas e dores (cf. Lucas 13, 10-17). Atualizar o Natal significa compreender que nossa fragilidade é justamente o lugar onde Cristo inicia sua obra. Ele não nos espera no topo da perfeição, mas desce ao abismo da limitação para nos resgatar. Como ensina Agostinho: “Mesmo grande como era, ele se abaixou para nos levantar, pois estávamos curvados para a terra” (Sermão 501, 2).

Desde a encarnação de Jesus, somos levados a uma nova perspectiva: a fraternidade. Deus se fez irmão de todos na carne humana. Assim, o outro deixa de ser um estranho e passa a ser sacramento da presença divina. De fato, o renascimento da vida para este novo ano depende dessa consciência: somos parte da humanidade que Deus quis assumir como sua. A encarnação é a elevação da nossa natureza. O Verbo nos visitou, habitou no meio de nós e nos transformou, unindo o Céu e a Terra em sua Pessoa. Dessa forma, foi que se uniu o divino e o humano em nossas vidas. O propósito final sempre foi a nossa divinização pela graça: “Por maior e eterno que seja o Verbo de Deus, ele se fez carne e desceu até nós, para nos elevar até ele” (Sermão 119, 4).

Diante de tudo isso, resta a pergunta: como a humildade de Deus na encarnação pode transformar nossa ansiedade diante das incertezas do novo ano que começa?

A resposta está na confiança de que não caminhamos sós. Ao contemplar que o Criador assumiu nossa fragilidade e nossa história, percebemos também que nossas vulnerabilidades não devem ser vistas como obstáculos para o futuro. Ao contrário, devem tornar-se o terreno onde a graça atua para nos levantar e superar nossas limitações. Assim, a chegada de um novo ano não será um sinal de quem se encontra perdido e assustado pelo devir, mas sim de quem caminha com esperança segura e de mãos dadas com Deus ao longo de uma história que sempre recomeça. Novamente.

Frei Arthur Vianna Ferreira, OSA
Artigo publicado na coluna Fala Agostinho, do Jornal Inquietude On-line, edição de dezembro de 2025.

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