A questão do poder: os riscos na Igreja e na Vida Religiosa

Um grande desafio nas esferas pessoais, institucionais e sociais na atualidade diz respeito a como se lidar com o poder ou como exercê-lo. Numa compreensão ou interpretação negativa (de como não se deveria) do poder, ele é sedutor porque se apresenta como garantia do ser onipotente; vale dizer, eu posso, decido e resolvo tudo!; ou o poder é defendido e almejado como forma de garantir uma vida de privilégio, superioridade e ostentação – como se o poder fosse uma realidade ontológica que garantisse a autoafirmação ou o endeusamento. Realidade que, no presente, é muito apreciada e visibilizada. Quem não exerce o poder ou não se apresenta com poder de decisão na atual sociedade nem sempre recebe a consideração ou o reconhecimento merecido – isso é muito visível em muitas instituições, por exemplo: Igreja, Vida Religiosa, organizações públicas, partidos políticos. Inclusive, nas experiências das pessoasque geralmente sofrem preconceitos, coações, discriminações, perseguições e exclusões. Ademais, alguém que se encontra em alguma ou mais dessas experiências tem que resistir ou se impor com muita determinação, coragem, risco para garantir um “lugar ao sol”. Nesse sentido, o poder nessa visão negativa provoca a dessensibilização, a indiferença e a violência quando se trata dos direitos humanos e sociais para a grande maioria do povo. Nega-se a esses setores da sociedade o direito à cidadania e, consequentemente, ao processo democrático!

A questão é como vivenciar o contrapoder ou, melhor, a experiência do poder-serviço, alternativo, inclusivo e libertador. Nessa visão, o poder é definido não como coisa, mas como relação. E, assim, não deixa de ser uma realidade que ocorre entre os sujeitos da relação.

O exercício do poder não é simplesmente uma relação entre “parceiros” individuais ou coletivos; é um modo de ação de alguns sobre outros. O que quer dizer, certamente, que não há algo como o “poder” ou “do poder” que existiria globalmente, maciçamente ou em estado difuso, concentrado ou distribuído: só há poder exercido por “uns” sobre os “outros”; o poder só existe em ato, mesmo que, é claro, se inscreva em um campo de possibilidade esparso que se apoia em estruturas permanentes.[1]

 Essa relação revela que o poder não ocorre ou não existe enquanto “entidade abstrata e fixa”. Ele ocorre nas relações de poder, o que favorece o efetivo exercício do poder. Também há que entender que o poder em si não é mau e nem um mal. Mas é o uso e o abuso que se faz do poder que atrapalha; vale dizer, o poder não é mau em sua natureza, mas em como é exercido numa determinada função! Isso ocorre quando o poder é sinônimo de dominação, imposição, corrupção, totalitarismo, opressão. Em outras palavras, quando o ser humano ou qualquer experiência de vida se vê além das leis, das obrigações éticas, do processo democrático, do temor a Deus e do respeito à vida, o poder acaba servindo à morte, à destruição, ao genocídio coletivo. Com isso, nega-se entender o poder como “poder para” a justiça, a verdade, a vida feliz e o amor. Por isso, a necessidade de cultivar o poder-serviço em favor da defesa da vida. E entendendo que o poder deve estar sempre aberto ao serviço da vida, não deixando que ele venha a ter sua inclinação para a dominação.

A inclinação para o dominar exige do ser humano uma conversão para exercer o poder-serviço e o poder-libertador. No Evangelho, temos algumas pistas para assumirmos a mudança em direção a uma vida de serviço alternativo. Vejamos algumas passagens: “O Filho do homem não veio para ser servido…” (Mc 10,45); “Eu, que sou Mestre e Senhor, vos lavei os pés…” (Jo 13,14). Também os seres humanos são chamados a se tornarem “último”, “servo”, “escravo” (Mc 10,43-44; Mt 20,26-27 e Lc 22,24-29). Na perspectiva de Jesus, o poder recebe outro conteúdo e outra direção.

A importância de tratar a temática do poder vem da necessidade de superar a idolatria do poder ou o poder idolátrico, sobretudo neste mundo onde essas formas de assumir o poder levam bilhões de seres humanos a sofrerem pelas guerras, pelo fascismo, pelo imperialismo, pelo desrespeito aos processos democráticos, etc. E mais, essa forma de poder também é responsável pela injustiça estrutural que tem suas manifestações nas instituições e no agir dos seres humanos. Vejamos um exemplo: na Igreja, durante o pontificado do Papa Francisco, comentou-se muito sobre o clericalismo e a autorreferencialidade. O clericalismo se apresenta pelo autoritarismo, pela intransigência doutrinal, o esteticismo litúrgico, a mundanidade espiritual, a prepotência no exercício das funções. Prática que nega um poder-serviço com o caráter de comunhão, comunitário, coparticipativo e fraterno. Testemunha-se uma Igreja a partir do devocional, da magia, perdendo a trilha profética, a prática do Evangelho – e tudo contribuindo para uma reclericalização e uma neorromanização da Igreja. Isso é constatado em alguns sacerdotes jovens e bispos recém-ordenados ou não.

Não há dúvida de que um setor da Vida Religiosa está na mesma entoada. Toda uma experiência de Vida Religiosa mais inculturada, profética e na perspectiva de inserção no mundo dos pobres é uma realidade para poucos religiosos. Hoje é uma minoria abraâmica que segue resistindo contra toda a tentação do exercício do poder autoritário, elitista, burguês, o qual atrapalha tomar partido dos últimos da história. A Vida Religiosa busca ou constrói sua identidade não a partir do serviço aos pobres, aos perseguidos, às organizações populares alternativas, ao processo democrático participativo, entre outros; mas, sim, à imagem que se destaca pelo uso do hábito, do devocionismo, do liturgismo etc. Eu diria, pode-se usar o hábito, mas não se esqueça de estar na defesa da vida, da causa e do mundo dos pobres – superando o que tem de injustiça e desumanização; pode-se usar o hábito, mas não se tranque num conservadorismo e fundamentalismo que adoece e sangra a Vida Religiosa na sua profecia pelo Reino.

Quanto à autorreferencialidade, é outro problema que não pode deixar de ser enfrentado. Ela é indicativa de um movimento de fechamento, de um ensimesmamento doentio e catastrófico, de uma espiritualidade infecunda, de um egoísmo que leva à insensibilidade. O Papa Francisco dizia que a autorreferencialidade é uma “armadilha a ser evitada” – e aparece na obsessão pela lei, na ostentação no cuidado da liturgia, da doutrina e do prestígio da Igreja, a vanglória quanto a assuntos práticos. Inclusive, o Papa dizia que essa “enfermidade espiritual” levava a um aprisionamento de Jesus, ao consumismo e à violência e destruição em uma sociedade injusta e desigual. A Igreja e a Vida Religiosa, para superar a tentação da autorreferencialidade, deverão viver o movimento de sair de si mesmas, ocupar-se dos pobres, lutar pela preservação da vida da Terra, trabalhar por uma democracia em favor da inclusão de todos, preferencialmente dos mais empobrecidos e excluídos da sociedade.

Que o buscar e o cultivar uma vida eclesial e religiosa que tenha o Reino de Deus como a razão maior da vida sejam não um delírio, mas um sentido de vida e na vida. E que, assim, sejamos livres diante dos poderes de morte ou da experiência de poder que leva à destruição ao que resta de vida na Terra.

                                                                                          

Frei Luiz Augusto de Mattos, OSA
Doutor em Teologia Moral

Artigo para a coluna Theos, do Jornal Inquietude On-line, de abril de 2026.
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[1] Michel Foucault, O Sujeito e o Poder, in: Hubert L. DREYFUS e Paul RABINOW, Michel Foucault. Uma trajetória filosófica. Editora Forense universitária, 2013, p. 287