A Pirâmide e a tenda: o subestimado impacto da pirâmide demográfica nas projeções pastorais da Igreja no Brasil

A 62ª Assembleia Geral da Conferência dos Bispos do Brasil (CNBB), celebrada em abril de 2026, aprovou as novas Diretrizes Gerais da Ação Evangelizadora da Igreja no Brasil (DGAE 2026-2032). Em linhas gerais, as DGAE sinalizam o horizonte pastoral que a Igreja no país deseja perseguir para “evangelizar, anunciando Jesus Cristo, como Igreja sinodal, fundada na Palavra e nos Sacramentos, no testemunho de fé, esperança e caridade; formando comunidades de discípulos missionários, fiel à opção preferencial pelos pobres e orientada para o reino de Deus”.

Para alcançar esse objetivo, o documento indica a integração dos cinco eixos: 1) Animação Bíblica da Pastoral; 2) Iniciação à Vida Cristã (catequese de inspiração catecumenal); 3) Comunidades de Discípulos Missionários; 4) Liturgia e Piedade Popular; 5) Serviço à vida plena para todos.

O texto aprovado conta com novidades, sobretudo metafóricas e metodológicas. No texto anterior, a metáfora central era a “casa”: a Igreja se entendia e se propunha como “casa da Palavra, casa do Pão, casa da Caridade e casa da Missão”. Essa era uma metáfora que evoca o aconchego e a acolhida, mas, ao mesmo tempo, comunica pouca mobilidade e acabava sugerindo que a Igreja é estática, pouco adaptável. No texto atual, o símbolo eclesial central é a “tenda”: simbolizando uma Igreja mais flexível, itinerante, acolhedora e “em saída”, focada em se “alargar” para acolher a todos, especialmente as periferias geográficas e existenciais.

Em termos metodológicos, destaca-se a adoção e a promoção do método sinodal. As novas DGAE confirmam a sinodalidade como marca identitária da Igreja e, neste sentido, não é apenas um documento com plano de atividades, mas um convite à conversão das relações, dos processos e dos vínculos. Neste horizonte, a “conversa no Espírito” é proposta como metodologia concreta no exercício sinodal que deverá permear as comunidades, paróquias e dioceses.

De acordo com o texto, os principais desafios para o sexênio (2026-2032) são: superar a polarização, por meio da criação de ambientes de comunhão e fraternidade dentro das comunidades, superando divisões ideológicas; formação de lideranças leigas para assumir seu papel no ambiente digital e na gestão comunitária; e o acolhimento da diversidade, ou seja, lidar com a nova realidade do “redesenho religioso” da sociedade brasileira.

De fato, esses são desafios reais. No entanto, há um desafio que tem passado despercebido ou tem sido subestimado pela Igreja no Brasil: a drástica mudança da pirâmide demográfica. Esse fato, que se consolida e atualiza com uma “rapidez tecnológica”, impacta diretamente a organização das comunidades eclesiais e, por isso, reclama atenção. A situação do envelhecimento, obviamente, não é exclusiva do Brasil. Em 2010, por exemplo, a Conferência Episcopal Alemã realizou uma Assembleia Plenária para discutir, exatamente, o envelhecimento da população, o escasso crescimento demográfico e as suas consequências para a vida da Igreja.  

No Brasil, de acordo com o IBGE, a pirâmide demográfica está passando por um rápido processo de envelhecimento, com estreitamento da base (menos jovens) e alargamento do topo (mais idosos), resultando em um formato “torre” em vez de pirâmide. A expectativa é de um pico populacional em 2041 (220 milhões), seguido por declínio, com idade mediana saltando de 34,8 (2023) para 51,2 anos (2070).

Esse índice de envelhecimento aponta para uma clara mudança na estrutura etária da população brasileira. Em 2008, por exemplo, para cada grupo de 100 crianças de 0 a 14 anos, existiam 24,7 idosos de 65 anos ou mais. Em 2050, o quadro mudará e, para cada 100 crianças de 0 a 14 anos existirão 172, 7 idosos. Em 2008, o Brasil ocupava a 5ª posição entre os países mais populosos, mas de acordo com as projeções da ONU, o país passará para a oitava posição em 2050. Em caricatura comparativa, isso significa que teremos mais fiéis na Pastoral da Pessoa Idosa do que na Infância Missionária.

Deixando a caricatura de lado, os dados são, no mínimo, alarmantes. Num país com poucos jovens e mais idosos, como deverá ser a organização e as propostas pastorais da Igreja Católica? Teremos gente para tantos serviços e ministérios? Conseguiremos manter as estruturas pastorais que hoje vigoram? As vocações, de onde virão? Teremos vocações jovens para o ministério ordenado e a Vida Religiosa Consagrada?

Nos últimos anos, com o crescimento das experiências eclesiais em contexto urbano, já temos visto uma mudança no perfil pastoral das comunidades. Grupos clássicos, como a Catequese, o Apostolado da Oração, a Pastoral do Dízimo, são, na maioria das paróquias, deficitários em agentes. Por outro lado, os movimentos, como EJC, ECC e os Ministérios vinculados à liturgia, estão sempre cheios. Esse drama aumenta se considerarmos a situação das Pastorais Sociais. Obviamente, isso é reflexo de muitos fatores, sobretudo, da eclesiologia que se têm difundido, em parte, graças à “religião digital” – muito emotiva e pouco vinculante.

Da mesma forma o contexto vocacional. As dioceses e congregações religiosas têm povoado suas casas de formação com um público, em sua maioria, jovem. No futuro, se as previsões se confirmam, isso não acontecerá. Se hoje a queda no número vocacional já chama atenção, mais exigente será quando a pirâmide mudar.

Pelo silêncio sobre o tema, a impressão que fica é que a mudança da pirâmide demográfica está sendo subestimada. Sem dúvidas, ela trará impactos consideráveis. E, como a renovação eclesial não deve ser improvisada, esse fato precisa ocupar os estudos e as reflexões dos bispos, teólogos e pastoralistas. Se desde sempre, “a messe é grande, e os operários são poucos” (Mt 9, 37), menos serão quando a população brasileira for, majoritariamente, formada por 60+.

Isso não significa dizer que a população idosa não tenha condições de aportar ou contribuir com a tarefa da evangelização. Pelo contrário. Como bem lembrou o Pontifício Conselho para os leigos, no documento “A dignidade dos idosos e a sua missão na Igreja e no mundo” (2010), os idosos sempre serão sujeitos ativos de um período humana e espiritualmente fecundo da existência e, por isso sempre terão uma contribuição a dar. A questão é a revisão e reformulação das estruturas pastorais em vista do exercício evangelizador numa sociedade que está em crescente modificação demográfica.

Essa revisão implica muito mais que a “criação” de novos grupos e pastorais para a pessoa idosa; implica, antes, uma profunda revisão das atuais estruturas eclesiais. E é, essa revisão estrutural que parece estar relegada a segundo plano; o que, em termos estratégicos, é um risco demasiado. Por certo cremos no Espírito Santo, e Ele não deixará de suscitar novas formas e apontar novos caminhos, mas, não seria de todo absurdo colaborar com o Espírito adiantando-se à questão.

Frei Jeferson Felipe Cruz, OSA
Doutorando em Teologia