A fraternidade como um serviço ao próximo e um retorno a Deus

Na pressa do dia a dia, as relações de fraternidade muitas vezes se reduzem a encontros superficiais, trocas de gentilezas vazias ou, no pior dos casos, a convivências marcadas por mágoas e desconfianças. Como podemos, então, construir laços verdadeiros que resistam às provações da vida? Santo Agostinho, ao comentar as Escrituras e meditar sobre a vida comunitária, oferece-nos uma luz preciosa para compreender que a fraternidade autêntica é um dom divino que se cultiva na prática do amor concreto e na vigilância do coração.

O Bispo de Hipona, em um de seus sermões sobre os discípulos de Emaús, ensina-nos que o gesto mais simples do cotidiano, a hospitalidade, pode tornar-se o lugar privilegiado do encontro com Cristo. É no acolhimento do irmão necessitado que reconhecemos o próprio Senhor. Para Agostinho, a caridade fraternal é a expressão visível da unidade do Corpo de Cristo. E, por isso, ele nos admoesta: “Aprendam então a praticar a hospitalidade, pois esse é o meio de reconhecer Cristo” (Santo Agostinho in Sermão 236, 3). E vai mais fundo ao afirmar que, quando um cristão serve a outro, a própria Cabeça, que é Cristo, se alegra e considera como feito a si mesmo o bem recebido por um dos seus membros. Com efeito, “quando um cristão recebe um cristão, trata-se de um membro prestando serviço a outro membro. A Cabeça se alegra então e considera como sendo dado a Ele próprio o bem que recebe um dos seus membros” (Santo Agostinho in Sermão 236, 3). Assim, a fraternidade que Agostinho nos propõe não é uma idealização romântica. A relação fraterna entre irmãos é uma realidade eclesial onde cada gesto de amor ao próximo é, ao mesmo tempo, um ato de adoração a Deus.

Entretanto, essa mesma fraternidade, para ser autêntica, deve enfrentar um desafio ainda maior: o amor àqueles a quem temos dificuldades de convívio. Agostinho de Hipona, ao comentar o martírio de Santo Estêvão, recorda que o preceito de amar aqueles que nos perseguem parece difícil aos seres humanos, mas a recompensa é imensa. Ele mostra que à exemplo de Estêvão, que perdoou seus algozes enquanto era apedrejado, a fraternidade cristã deve ultrapassar os limites da reciprocidade humana. “Dentre os grandes e salutares preceitos, dentre os preceitos divinos e profundos que o Senhor deu aos seus discípulos, há um que parece bem difícil aos seres humanos: trata-se de amar seus inimigos. Esse preceito é difícil, mas a recompensa é imensa” (Santo Agostinho in Sermão 317, 1). Assim, o santo de Hipona nos convida a olhar para Estêvão, um homem mortal e frágil como nós, para que não digamos que a caridade fraterna é impossível. “Observe, observe então Estêvão, escravo como você” (Santo Agostinho in Sermão 317, 3). Nele vemos que o amor fraterno se estende até mesmo àqueles que nos ferem, porque é participação no próprio amor de Cristo, que na cruz pediu perdão pelos seus carrascos.

Contudo, uma reflexão agostiniana sobre a fraternidade não seria completa se não nos alertasse sobre alguns perigos contidos dentro das relações interpessoais. O falso amigo, aquele que trai com um beijo, é pior do que um inimigo declarado. Agostinho, ao comentar a traição de Judas em um de seus sermões, mostra que a mais grave ruptura da fraternidade vem de dentro da própria comunidade, quando alguém se reveste de aparências de amor para melhor exercer sua crueldade. “Um falso amigo o prejudica na mesma medida em que é pródigo com as bajulações da amizade. Um inimigo se revela em suas palavras, mas um falso amigo só se cobre com demonstrações de afeto para melhor exercitar sua crueldade” (Santo Agostinho in Sermão 443, 1). A fraternidade, portanto, exige discernimento e vigilância, pois as palavras doces podem esconder indesejáveis intenções. Assim, Agostinho não nos deixa paralisados pelo medo de amar o próximo. Ele somente nos aponta que Deus sonda os corações, e é a Ele que devemos pedir a graça de amar com sinceridade e de identificar, à luz do Espírito, os tropeços de uma falsa amizade.

Ao final de sua peregrinação, resta-nos uma pergunta final: Sabemos realmente viver a fraternidade? A resposta, à luz de Santo Agostinho, é que a fraternidade autêntica é dom e tarefa. Ela é um dom, porque nasce da comunhão com Cristo, Cabeça do Corpo. Da mesma forma, é uma tarefa, porque exige que acolhamos o irmão, perdoemos o inimigo e vigiemos contra a falsidade. Não se trata de uma conquista humana. Assim, compreendemos que a fraternidade cristã se configura como um serviço ao próximo e um retorno a Deus, um movimento de amor que parte do irmão e se eleva ao Criador. A amizade é uma graça que se alcança na humildade de reconhecer o Senhor no partilhar do pão, como em Emaús. Que o exemplo de Estêvão e a advertência sobre Judas nos acompanhem, para que nossas relações não sejam aparências, mas o reflexo do amor que vem de Deus e a Ele retorna.

Frei Arthur Vianna, OSA
Pós-doutor em Educação