Vivemos tempos marcados por certa fantasia de certezas absolutas e de verdades inflexíveis. Nesse cenário, perdemos a capacidade de escutar o outro, de acolher o diferente e de perceber que é justamente na diversidade que reside a beleza de sermos quem somos. O outro não é nosso inimigo. E não necessariamente nosso melhor amigo. As pessoas são, simplesmente, o que são. E é a partir disso que se revela o encanto da convivência: admirar o outro sem tentar aprisioná-lo em nossas verdades é uma das maiores graças da vida.
Santo Agostinho, ao meditar sobre o evangelho do Fariseu e do Publicano (Lucas 18, 9-14), denuncia essa dificuldade humana de reconhecer a beleza que há nas diferenças. Ele nos lembra que “sempre somos outro para os outros”, e que essa alteridade é essencial para a construção do amor e da fraternidade. Em sua reflexão, Agostinho de Hipona afirma com contundência sobre o Fariseu: “Que segurança! Que imprudência audaciosa, meus irmãos, da parte desse fariseu! E, para falar a linguagem da verdade estrita: que demência incrível!” (Sermão 492, 2).
Assim, também sabemos que, como cristãos católicos, somos chamados a viver as práticas espirituais como formas de fortalecimento de nossa existência no mundo. E isso passa pelo reconhecimento das diferenças como parte das nossas relações interpessoais. Dessa forma, mais do que ritos, essas práticas devem nos conduzir a uma transformação interior que se reflete nas relações interpessoais. As orações, os terços e demais expressões religiosas não são um fim em si mesmas. Devem gerar um novo modo de viver, uma nova forma de olhar o outro, como alguém que carrega em si a imagem de Deus, mesmo que diferente de nós.
O próprio Publicano, cuja prática era a oração, não conseguia enxergar o outro com misericórdia. Assim, o filósofo Agostinho de Hipona, mais uma vez, nos alerta sobre a desconexão entre espiritualidade e vida concreta. Por exemplo, ao falar sobre o jejum, ele afirma: “Vocês veem então, meus caríssimos, que não são os jejuns propriamente, mas as ações dos jejuadores que desagradam a Deus. Passais vosso jejum em disputas e discussões. Ó, criatura! De que adianta jejuar, se os jejuns acontecem no meio de discórdias, disputas e discussões? É muito pouco praticar a abstinência física e deixar a alma tomada pela iniquidade.” (Sermão 528, 1).
Essas palavras nos convidam a reorganizar nossa espiritualidade. As nossas práticas espirituais não são um conjunto de rituais isolados, mas um caminho de conversão que nos leva a reconhecer e valorizar as diferenças. É preciso construir uma nova forma de pensar e viver o mundo, onde a diversidade não seja uma ameaça, mas o fundamento da nossa própria existência.
As práticas espirituais — jejuns, orações, missas, terços — são meios de fortalecimento pessoal e comunitário. Elas nos capacitam a viver com coragem e autenticidade, realizando aquilo que o carisma agostiniano nos inspira: a unidade na diversidade. E é justamente essa dinâmica que encontramos na relação entre Jesus Cristo e Deus Pai. Embora distintos, permanecem sendo quem são, respeitando suas diferenças e amando-se plenamente. Como o próprio Cristo afirma: “Eu e o Pai somos um.” (João 10, 30). A unidade não anula a diferença: ela a abraça. E é nesse abraço que devemos encontrar o verdadeiro sentido da fé, da convivência e da beleza da própria vida.

Frei Arthur Vianna Ferreira, OSA
Artigo publicado na coluna Fala Agostinho, do Jornal Inquietude On-line, edição de agosto/setembro de 2025.
Imagem: Freepik