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fev/24

A amizade na perspectiva agostiniana: um contributo para a vivência da amizade social

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“A amizade entre os homens torna-se querida pelo vínculo suave que une muitas almas numa só.” (Confissões II, 5, 10)

Na tradição cristã, a celebração da Páscoa é precedida por um período de intensa preparação: o tempo da Quaresma. A marca deste tempo é a penitência e a busca de conversão pessoal e comunitária. Conforme lembra do Concílio Vaticano II, “a penitência do Tempo Quaresmal não deve ser apenas interna e individual, mas também externa e social” (SC, n. 110).

“A Campanha da Fraternidade é o modo brasileiro de celebrar a Quaresma. Ela não esgota a Quaresma. Dá-lhe, porém, o tom, mostrando, a partir de uma situação bem específica, o que o pecado pode fazer quando não o enfrentamos. Por isso, a cada ano, recebemos o convite para viver a Quaresma à luz da Campanha da Fraternidade e viver a Campanha da Fraternidade em espírito de conversão pessoal, comunitária e social” (CF 2023: Texto-Base, Apresentação).

Este ano, no contexto de tantas divisões, guerras e polarizações, a Campanha da Fraternidade nos convida a realizar o urgente sonho da amizade social, reconhecendo-nos todos irmãos, à luz daquilo que disse Jesus no Evangelho segundo Matheus: “Vós sois todos irmãos e irmãs” (cf. Mt 23,8).

Visando contribuir com a reflexão sobre o tema proposto pela Campanha da Fraternidade 2024, neste artigo, vamos nos aproximar da amizade sob a ótica agostiniana, buscando na perspectiva do santo bispo de Hipona elementos que favoreçam a compreensão e a vivência de uma amizade autenticamente social.[1]

Santo Agostinho é o primeiro autor cristão a elaborar uma teoria da amizade cristã. Ampliou o conceito antigo de amizade (acordo em coisas humanas e divinas), para explicar que a amizade é fruto da graça, é o dom que o Espírito Santo. Espalhou no coração dos crentes, acrescentando à caridade cristã, devida a todos, as notas de atração e de encanto.

A amizade e os amigos sempre foram importantes para Santo Agostinho. “O que é que nos consola nesta sociedade humana, sobrecarregada de erros e tormentos, senão a fé sincera e a mútua afeição de verdadeiros e bons amigos?” (Cidade de Deus 19,8). Em suas Confissões são inúmeras as referências aos amigos e às experiências possibilitadas em contexto de amizade. É famosa, por exemplo, a amizade com Romaniano, Alípio, Nebrígio e Possídio (cf. Confissões VI, 7-10, 11-17). Outro amigo importante na vida de Santo Agostinho foi aquele, de nome desconhecido, com quem conviveu no início da docência, quando começou a dar aulas em Tagaste, cuja morte precoce causou-lhe grande sofrimento (cf. Confissões IV, 4, 7-9). Esses exemplos comprovam a importância da amizade para Agostinho. Como ele mesmo narra nas Confissões: “sem amigos, eu não podia ser feliz” (Confissões VI, 16, 26).

O ensinamento agostiniano sobre a amizade, contudo, dá-se em dois grandes períodos: do retiro de Cassicíaco (386 dC) à redação das Confissões (397-401 dC), e desta, até o fim de sua vida (430 dC). Ao longo desses períodos Agostinho distinguiu diferentes tipos de amizade: a amizade juvenil, a amizade mundana e a amizade relacionada com a religião. No geral, a amizade é concebida como o aglutinante que une duas pessoas numa simpatia mútua; a compreensão agostiniana da origem desse vínculo diferencia os dois períodos referidos acima. No primeiro período (386-401 dC), Agostinho tende a enfatizar a simpatia humana como causa dessa ligação; no segundo período (401-430 dC), compreende que o vínculo é dom do Espírito Santo pela graça.

No primeiro período, Santo Agostinho, influenciado por Cícero, define a amizade de modo puramente clássico: comum acordo. Na obra Solilóquios, por exemplo, ele deixa claro que quer seus amigos vivendo consigo, para poderem procurar juntos o conhecimento e alcançar a sabedoria (cf. Solilóquios 1, 20.22).

A epístola 258 (a Marciano), por sua vez, marca o diferencial do segundo período. Nela, o Santo trata sobre “a verdadeira amizade”. Nesta carta, ele amplia a compreensão clássica da amizade. Segundo o hiponense, o acordo entre as coisas humanas e divinas está atrelado à observância do duplo mandamento do amor: no amor a Deus, os amigos entram em acordo nas coisas divinas; no amor ao próximo, entram em acordo nas coisas humanas. Mantendo as duas coisas, a amizade será autêntica e duradoura, e unirá não só amigos entre si, mas ambos com Deus.

Na longa meditação que desenvolve no livro IV das Confissões, Santo Agostinho propõe sua nova e distintamente cristã definição de amizade: “a amizade só é verdadeira quando une pessoas ligadas a Ti pelo ‘amor derramado em nossos corações pelo Espírito Santo que nos foi dado’.” (Confissões IV, 4, 7). Conforme disse no Sermão 336: “ama verdadeiramente ao amigo quem ama a Deus no amigo” (Sermão, 336, 2, 2, XXV).

Na concepção agostiniana, então, Deus é a causa e o sustentador da amizade e estabeleceu-a como um vínculo. Neste sentido, amar os seres humanos porque são seres humanos e amá-los porque são, além disso, imagens e filhos de Deus, buscando alcançar o amor a Deus neles, significa acrescentar razões divinas às razões humanas para a amizade, e razões eternas às razões contingentes.

E aqui está um possível contributo agostiniano para a vivência da amizade social. Como lembra o Papa Francisco, é preciso ir além dos grupos de amigos e construir a amizade social, cuja marca é o diálogo e a acolhida a todos e todas (EG 87). Ampliando a concepção clássica de amizade, Agostinho nos ajuda a superar a mera disposição simpática para alçarmos relações largas, reconhecendo a dignidade de todos, para além da pura simpatia.

Mesmo que os referenciais agostinianos sejam exclusivamente cristãos, sua compreensão da amizade, à medida que supera a mera simpatia, possibilita e potencializa a consideração de um elo universal entre os seres humanos. Elo que deve conduzir a uma nova ordem relacional. Como disse o Papa Francisco, “se esta afirmação – como seres humanos, somos irmãos e irmãs – não ficar pela abstração, mas se tornar verdade encarnada e concreta, coloca-nos uma série de desafios que nos fazem mover, obrigam a assumir novas perspectivas e produzir novas reações” (FT 128).

Essas novas reações, oxalá, se façam ver durante a Campanha da Fraternidade deste ano e reverberem daqui pra frente.

Frei Jeferson Felipe da Cruz, OSA


[1] Cf. LIENARD, Joseph T. Amizade/Amigos. In: Agostinho através dos tempos: uma enciclopédia. Allan D. Fitzgerald (Org.). São Paulo: Paulus, 2018, pp. 107-108.

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