A Missão na Vida da Igreja: dos programas ao paradigma

Jesus Cristo, missionário do Pai por excelência, é o fundamento da missionariedade da Igreja. Enviado em nossa carne para realizar o desígnio de salvação, Ele anuncia, inaugura e conduz a humanidade ao Reino de Deus. Como recorda a Evangelii Nuntiandi, ‘Cristo anuncia em primeiro lugar um reino, o reino de Deus, de tal maneira importante que, em comparação com ele, tudo o mais passa a ser ‘o resto’’ (EN, 8). É no modus Jesu que a Igreja deve evangelizar e marcar presença no mundo, obedecendo ao mandato do seu fundador: anunciar o Evangelho a todas as gentes (AG, Proêmio).

O Papa Leão XIV, ao iniciar em 7 de janeiro de 2026 um novo ciclo de catequeses dedicado ao Concílio Vaticano II, destacou que este “constitui a estrela polar do caminho da Igreja”. Entre seus frutos está o Decreto Ad Gentes, que trouxe uma verdadeira “virada copernicana” na compreensão da missão: antes vista como um anexo, vinculada a atividades específicas, passa a ser reconhecida como constitutiva da natureza eclesial. “A Igreja peregrina é, por sua natureza, missionária, visto que tem a sua origem, segundo o desígnio de Deus Pai, na ‘missão’ do Filho e do Espírito Santo” (AG, 2).

A missão, nesse caso, deixa de ser um anexo e passa a ser compreendida como constitutiva da natureza eclesial. A Igreja deixa de fazer missões e passa a se compreender toda ela missionária. Obviamente, continuam válidas as iniciativas e as atividades missionárias como as Campanhas Missionárias, as Santas Missões Populares, as visitas missionárias, e a própria Missão Ad Gentes, etc. O diferencial agora é que a missão não se restringe ou reduz a esses momentos, ao contrário, esses momentos ritualizam aquilo que a Igreja é “por natureza” e servem como motores de animação missionária.

Essa diferenciação ficou esclarecida pelo Papa Francisco que, na Exortação Apostólica Evangelii Gaudium, lembrou “que ‘não se pode perder a tensão para o anúncio’ àqueles que estão longe de Cristo, ‘porque esta é a tarefa primária da Igreja’. A atividade missionária ‘ainda hoje representa o máximo desafio para a Igreja’ e ‘a causa missionária deve ser (…) a primeira de todas as causas’”. Que sucederia se tomássemos realmente a sério essas palavras? Simplesmente reconheceríamos que a ação missionária é o paradigma de toda a obra da Igreja. Nessa linha, os bispos latino-americanos afirmaram que “‘não podemos ficar tranquilos, em espera passiva, em nossos templos’, sendo necessário passar ‘de uma pastoral de mera conservação para uma pastoral decididamente missionária’” (EG, 15). Antes de se reduzir a programas, portanto, a missão é um paradigma: um modo de ser e estar no mundo, um estilo de vida.

O “modo de ser e estar no mundo” da Igreja tem sua origem, como bem lembrou o Ad Gentes, no desígnio de Deus Pai e na ‘missão’ do Filho e do Espírito Santo. O que isso significa? Qual é o desígnio do Pai? Qual é a ‘missão’ do Filho e do Espírito?

De acordo com a Sagrada Escritura, o desígnio de Pai é “que todos sejam salvos e venham a conhecer a verdade” (1Tm 2, 4). Para realizar esse desígnio, o Pai enviou o Seu Filho, “não para condenar o mundo, mas para salvá-lo por meio dEle” (Jo 3, 17). E o Espírito, que de ambos procede, foi enviado para continuar essa obra de salvação e fortalecer os crentes a fim de serem testemunhas do amor de Deus revelado em Cristo Jesus (cf. At 1, 8). Seguindo essa lógica, a missão tem como fundamento basilar o desejo divino de comunicar a salvação. Essa comunicação, contudo, não se limita à comunicação dos meios de salvação, mas se configura como autocomunicação, porque, em última instância, o desejo divino é que participemos da sua vida (cf. 2Pd 1, 3-4). Isso significa que não somos simplesmente salvos de “alguma coisa”, mas somos salvos para Alguém.

É essa mensagem que a Igreja não pode calar. É essa a Boa-Notícia que ela deve levar a todos os confins da Terra: o desejo divino de se autocomunicar como salvação para o mundo. Como disse o salmista: “o que nós ouvimos e conhecemos, o que nos contaram nossos pais, não o esconderemos… Nós contaremos à geração seguinte” (Sl 78, 3-4).

Ora, se o primeiro desejo divino é estabelecer relação com os seres humanos, Jesus é a plena e perfeita revelação do Pai. É por meio do Filho que Deus se coloca em perfeito contato com as criaturas. Como lembra a Carta aos Hebreus: “muitas vezes e de modos diversos falou Deus, outrora aos nossos pais pelos profetas; agora, nestes dias que são os últimos, falou-nos por meio do Filho, a quem constituiu herdeiro de todas as coisas, e pelo qual fez os séculos. É Ele o resplendor de Sua glória, a expressão de Sua substância” (Hb 1, 1-3).

Jesus é o missionário do Pai por excelência e foi enviado em nossa carne, justamente, para realizar o desígnio de salvação. “Pelo caminho duma verdadeira encarnação, veio para fazer os homens participantes da sua natureza divina” (AG, 3), anunciando, inaugurando e conduzindo a humanidade ao Reinado de Deus. Como lembra a Exortação Evangelli Nuntiandi, “como evangelizador, Cristo anuncia em primeiro lugar um reino, o reino de Deus, de tal maneira importante que, em comparação com ele, tudo o mais passa a ser ‘o resto’, que é ‘dado por acréscimo’. Só o reino, por conseguinte, é absoluto, e faz com que se torne relativo tudo o mais que não se identifica com ele” (EN, 8).

Nesse sentido, o estilo missionário de Jesus torna-se a referência basilar para a missionariedade da Igreja. É ao “modus Jesu” que a Igreja deve evangelizar e marcar presença no mundo, afinal, “enviada por Deus a todas as gentes para ser ‘sacramento universal de salvação’, por íntima exigência da própria catolicidade, obedecendo a um mandato do seu fundador, [ela – a Igreja] procura incansavelmente anunciar o Evangelho a todos os homens” (AG, Proêmio). 

     

Frei Jeferson Felipe da Cruz, OSA
Artigo publicado na coluna Theos, do Jornal Inquietude On-line, edição de janeiro de 2026.

Imagem: Flickr – Missão em Rio Capim (Padre Rodrigo de Oliveira Silva)