“Deus enviou seu filho, nascido de uma mulher” (Gl 4,4) – Uma leitura missiológica do mistério do Natal

A celebração do Natal não é apenas a celebração do nascimento histórico de Jesus, mas também a manifestação da iniciativa missionária de Deus, que vem ao encontro da humanidade para salvá-la, reconciliá-la e introduzi-la na comunhão divina. Considerando, portanto, o teor da 2ª edição da Revista Inquietude, propomos, neste breve artigo, uma leitura missiológica do mistério do Natal.

A encarnação do Verbo materializa, na história humana, a Missio Dei. Em seu desígnio de amor, o Pai envia o Filho para que, na potência do Espírito, inaugure o Reino e conduza a humanidade à salvação, fazendo-a participar da vida divina. Nesse sentido, a Missio Dei configura-se como uma categoria teológica que explicita adequadamente o sentido do Natal. Porque, ao enviar seu Filho, Deus mesmo vem ao encontro do ser humano, “regozijando-se no seu mundo habitável e achando as suas delícias com os filhos dos homens” (Pr 8,31).

Conforme Santo Agostinho, a encarnação do Verbo não é um acontecimento fechado na vida intratrinitária, mas, sim, a manifestação histórica do amor de Deus pela humanidade. No Sermão 185, o santo Bispo de Hipona exclama: “Desperta, ó homem: por ti Deus se fez homem!” (Sermão 185, 1). O centro da afirmação de Agostinho está, justamente, na expressão pro te — “por ti”. Isso significa que, antes que o ser humano procure Deus, Deus vem ao seu encontro. Por essa razão, o Natal revela, justamente, o fundamento da missão cristã: o movimento gratuito de Deus em direção à humanidade.

Decerto, Deus não se contentou em enviar emissários, mas, conforme ensina o Concílio Vaticano II, aprouve-lhe “na sua bondade e sabedoria, revelar-se a Si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade (cf. Ef 1,9), por meio de Cristo, Verbo encarnado” (DV, 1). A Trindade, portanto, numa expansão de amor, fez-se missionária e, na carne de Cristo, armou sua tenda entre nós (cf. Jo 1,14).

Isso significa que a missão da Igreja tem seu fundamento na Missio Dei e deve estar a serviço dela. A missão, portanto, não lhe é secundária nem um adereço. Pelo contrário, a missão lhe é constitutiva, pois define sua identidade. Dito de outra forma, porque está no mundo como “sinal e sacramento” do movimento divino, a Igreja ou é missionária ou simplesmente não é Igreja. Como atesta o Concílio, no Decreto Ad Gentes, “a Igreja peregrina é, por sua natureza, missionária, visto que tem a sua origem, segundo o desígnio de Deus Pai, na ‘missão’ do Filho e do Espírito Santo” (AG, 2).

Segundo o Apóstolo João, “Deus é amor” (1Jo 4,8) e, por isso mesmo, é fonte inesgotável de envio. A máxima expressão disso vemos no envio do Filho e do Espírito Santo. Em seu infinito e inesgotável amor pelo mundo, Deus Pai envia o Filho não para condenar, mas para salvar o mundo (cf. Jo 3,16-17); e o Filho, junto com o Pai, envia o Espírito Santo Paráclito para conduzir o mundo à plena verdade (cf. Jo 14,16-17).

Realmente, quando consideramos o testemunho evangélico, Jesus é reconhecido, acima de tudo, como o Enviado do Pai (cf. Jo 3,16-17; 6,38.57; 10,36; 20,21). Sua missão não consiste em realizar um projeto independente, mas em tornar presente o amor salvador do Pai. Da mesma forma, o Espírito Santo foi enviado para levar essa obra, inaugurada por Jesus, à plenitude por meio do testemunho do Evangelho (cf. At 1,8). Tanto um quanto outro expressam, portanto, a única Missio Dei e o permanente interesse salvador de Deus (cf. 1Tm 2,4).

Mas por que razão Deus faria um movimento de saída? A única justificativa é o seu amor e o seu interesse salvador. Ele nos salva amando-nos e, porque nos ama, nos salva. Salva não só do pecado, mas, antes de tudo, nos salva para si; para ter-nos consigo, para nos fazer participar da sua vida. Como ensina Santo Agostinho, “Deus se fez homem para que o homem se tornasse Deus” (Sermão 13, 1). Ou seja, a missão do Filho não se limita ao perdão dos pecados. Sua finalidade é comunicar à humanidade a vida divina. E o Natal, portanto, inaugura historicamente essa comunicação da graça, que se prolonga na vida sacramental e missionária da Igreja.

De fato, como insiste o Santo Doutor, a encarnação do Verbo é abertura à participação na vida divina, porque “Aquele que faria os homens participantes da natureza divina fez-se homem, embora fosse Deus” (Sermão 192, 1). O Natal manifesta, assim, a finalidade última da missão divina: não apenas a recuperação moral da humanidade, mas também sua participação na comunhão com Deus. A missão eclesial, por conseguinte, encontra sua finalidade na comunicação dessa vida de filhos adotivos muito amados pelo Pai. Afinal, como ensina o Apóstolo Paulo, em seu amor Deus nos chamou à graça de “sermos adotados como filhos, por meio de Jesus Cristo” (Ef 1,5).

Qual é, portanto, a missão da Igreja? Qual é a missão primordial dos freis agostinianos da Província da Consolação? Participar, cooperativamente, da Missio Dei. Ou seja, anunciar ao mundo esse interesse salvador de Deus, contribuindo, por palavras e obras, para que todas as pessoas vivam à altura da dignidade de filhos amados. Por isso, a missão não pode se resumir a atividades esporádicas. Ela é um “jeito de viver”, uma forma de estar no mundo, porque é manifestação histórica do dinamismo do amor divino que busca a humanidade para introduzi-la na comunhão consigo.

Além disso, a missão não pode ser confundida com proselitismo, nem reduzida ao anúncio de uma doutrina religiosa. Se é, realmente, cooperação com a Missio Dei, a missão da Igreja deve ser, antes e acima de tudo, um movimento de promoção da vida e da dignidade de todas as pessoas e, em decorrência disso, da defesa da casa comum e dos valores que emanam do Evangelho.

A presença dos freis agostinianos, nos diversos espaços apostólicos assumidos pela Província da Consolação, especialmente nas periferias geográficas e existenciais, quer ser testemunho da Missio Dei, sobretudo para que o desígnio do amor divino se realize. Nesse horizonte, o Natal, que em breve celebraremos, é um convite para que todos nós assumamos nossa parte, contribuindo para que a humanidade renasça com Cristo. Como disse Santo Agostinho, Jesus “nasceu para que renascêssemos” (Sermão 189, 3). Seu nascimento na história torna possível o novo nascimento da humanidade. Mas, para que Cristo nasça, nós precisamos gestá-lo em nosso coração e em nossa vida.

Frei Jeferson Felipe Cruz, OSA
Doutorando em Teologia