A vida em comunidade: pilar-fundamento do carisma agostiniano

Há uma pergunta que atravessa toda a vida de Agostinho, silenciosa, mas insistente: com quem vou partilhar isto? Antes de ser doutrina ou disciplina, a vida em comunidade nasce nele como uma sede. E é essa sede, purificada pelo Evangelho, que se torna, séculos depois, o coração do carisma agostiniano.

Agostinho nunca soube viver sozinho – nem para o bem, nem para o mal. Ele mesmo confessa, ao narrar o furto das peras no livro II das Confissões, que jamais teria cometido aquele pequeno delito de adolescente se estivesse só; o prazer estava em fazê-lo junto, em rir e arriscar-se com os amigos. É quase cômico, mas também comovente: até no pecado, o jovem Agostinho revela uma alma feita para o outro.

Essa mesma sede reaparece, já mais madura, nos longos anos de amizade intelectual – os debates, as leituras, os amigos que o acompanham até Cassicíaco, onde juntos vivem o otium sanctum, o ócio sagrado da busca da verdade. E reaparece, dilacerada, na morte do amigo de Tagaste: Agostinho chora como quem perdeu metade de si mesmo, e confessa que amara aquele homem “quase mais do que a mim mesmo”. É doloroso constatar: um amor que se apoia só numa criatura mortal está destinado ao luto.

Foi preciso, porém, que a graça lhe mostrasse outro caminho. E esse caminho tem um endereço bíblico preciso: Atos 4,32-35. Ali, Agostinho encontra a comunidade de Jerusalém, “um só coração e uma só alma”, nada chamando de seu, tudo posto em comum. Não é mais apenas amizade – é comunhão em Deus. E dessa página nasce a fórmula que vai marcar toda a sua vida: anima una et cor unum in Deum.

Por que a comunidade importa tanto para Agostinho? Porque, para ele, ninguém chega a Deus sozinho. O caminho até o Mestre Interior – aquele que ensina por dentro, no silêncio da alma – passa, paradoxalmente, pelo irmão ao lado. É rezando junto, buscando junto, corrigindo-se e sendo corrigido que os corações dispersos se recolhem em torno de um único Bem.

É o que a própria Regra diz, sem rodeios, já em suas primeiras linhas: o motivo pelo qual todos se reuniram é para que “vivam unânimes na casa, tendo um só coração e uma só alma em Deus, porque a concórdia é a primeira finalidade da vida em comunidade” (Regra, n. 3). Vale reparar: a concórdia não é consequência secundária da vida religiosa – é a sua primeira finalidade. Não se trata de um grupo de pessoas boas que, por acaso, moram juntas. Trata-se de corações que escolheram, deliberadamente, buscar a Deus em conjunto.

Esse ideal não ficou apenas em palavras bonitas: tornou-se norma de vida, tecida em pequenos gestos concretos. A Regra pede que nada seja chamado de propriedade própria, “mas tudo seja comum entre vós” (Regra, n. 4); pede paciência com quem está mais fraco; pede que ninguém trabalhe só para si, “mas todos visem ao bem comum” (Regra, n. 31); e pede, sobretudo, reconciliação rápida, para que a ira nunca se transforme em ódio (cf. Regra, n. 41).

As Constituições da Ordem, ao atualizar esse legado para os dias de hoje, insistem que a própria estrutura da vida agostiniana só faz sentido como expressão de fraternidade: “a estrutura da Ordem é imagem da nossa fraternidade” (Const. 10). E, quanto à autoridade exercida dentro da comunidade, são igualmente diretas: não se trata de “dominar com poder, mas de servir com amor aos irmãos” (Const. 11). Mesmo o governo, portanto, é lido como serviço à comunhão – nunca como exceção a ela.

Há algo profundamente atual nisso tudo. Vivemos num tempo de vínculos frágeis, de solidões conectadas, de dificuldade real em permanecer junto quando o outro cansa ou decepciona. Nesse cenário, uma comunidade que insiste em viver “um só coração e uma só alma” – não como slogan, mas como exercício diário de partilha e perdão – torna-se, por si só, um anúncio. Um sinal de que a comunhão ainda é possível. E que a paz, longe de ser ingenuidade, pode ser fruto maduro de corações que decidiram, juntos, voltar-se para Deus.

Da amizade inquieta do jovem de Tagaste até a sobriedade normativa da Regra e das Constituições, um só fio conduz a história: o desejo de não caminhar sozinho até Deus. Talvez seja este o convite mais simples e mais exigente do carisma agostiniano – permanecer, dia após dia, ao lado do irmão, deixando que o próprio coração se deixe, pouco a pouco, unir ao dele em Deus.

Frei Caio Pereira, OSA
Promotor Vocacional
Secretário de Animação Vocacional e Juvenil da Província da Consolação

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– Referências:
AGOSTINHO, Santo. Confissões. Trad. J. Oliveira Santos; A. Ambrósio de Pina. São Paulo: Paulus, 2017.

BÍBLIA. Bíblia Sagrada. Trad. CNBB. São Paulo: Paulus/Loyola, 2002.

ORDEM DE SANTO AGOSTINHO. Constituições da Ordem de Santo Agostinho. Roma: Cúria Geral OSA.