“Inteligência Artificial, Res Novissima e a Salvaguarda da Humanidade” foi o tema da palestra ministrada por Frei Luiz Antônio Pinheiro, OSA, no dia 30 de julho de 2026, em evento promovido pelo Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais (IHGMG). O encontro proporcionou um importante momento de diálogo sobre tecnologia, fé e humanidade, abordando os desafios e as oportunidades apresentados pela Inteligência Artificial à luz das reflexões da Encíclica Magnifica Humanitas.
Durante a exposição, Frei Luiz Antônio destacou que a Inteligência Artificial representa uma das grandes “coisas novas” (res novae) do nosso tempo, exigindo discernimento ético e social diante das profundas transformações que provoca. Segundo ele, a rápida evolução tecnológica levanta questões relacionadas à dignidade humana, ao trabalho, à liberdade, à verdade e ao uso responsável dos dados humanos.
A palestra apresentou a evolução do Magistério Social da Igreja desde Leão XIII até os dias atuais, ressaltando o caráter dinâmico da Doutrina Social da Igreja (DSI). Citando a Encíclica Magnifica Humanitas, Frei Luiz lembrou que a DSI não surgiu de um projeto teórico isolado, mas de um processo histórico e comunitário de reflexão:
“A DSI não é fruto de um projeto ‘de escritório’, mas o resultado de um processo paciente, para o qual os Papas – com o Concílio Vaticano II – deram contribuições originais à luz das ‘coisas novas’ do seu tempo (…) podemos falar de um corpus de princípios e critérios partilhados” (MH 45).
Ao longo da apresentação, o religioso percorreu os cinco capítulos da encíclica: Um pensamento dinâmico fiel ao Evangelho; Fundamentos e princípios da DSI; Técnica e domínio: a grandeza da pessoa humana perante as promessas da IA; Salvaguardar o humano na transformação: verdade, trabalho, liberdade; e A cultura do poder e a civilização do amor.
Frei Luiz ressaltou que a Igreja busca caminhar junto à história da humanidade, mantendo atenção às questões próprias de cada época. Nesse sentido, destacou princípios fundamentais da Doutrina Social da Igreja, como o bem comum, a destinação universal dos bens, a subsidiariedade, a solidariedade e a justiça social. Também enfatizou o respeito à autonomia das realidades terrenas, a distinção entre a comunidade eclesial e a comunidade política e a importância do diálogo entre a fé e as ciências humanas.
Ao tratar da realidade digital contemporânea, o palestrante recordou a afirmação da Encíclica Laudato Si’ de que “nunca a humanidade teve tanto poder sobre si mesma” (LS 104), observando que o avanço da Inteligência Artificial exige marcos regulatórios adequados, responsabilidade ética e reflexão coletiva sobre o crescente poder tecnológico exercido por grandes grupos privados.
Um dos pontos centrais da conferência foi a necessidade de preservar a humanidade diante das transformações tecnológicas. Frei Luiz alertou para os riscos do paradigma tecnocrático, quando a técnica passa a ocupar um lugar absoluto e reduz a compreensão da pessoa humana a uma única dimensão. Segundo ele, “qualquer absolutização de uma única dimensão do ser humano é errada”, pois a pessoa possui uma riqueza que não pode ser reduzida a algoritmos ou sistemas automatizados.
A mensagem da Encíclica Magnifica Humanitas serviu como eixo condutor da reflexão. Em um dos trechos destacados pelo palestrante, o documento recorda:
“Na era da inteligência artificial, em que a dignidade humana corre o risco de ser ofuscada por novas formas de desumanização, temos o dever urgente de permanecer profundamente humanos, salvaguardando com amor essa magnífica humanidade, que nos foi plenamente dada e manifestada em Cristo, e que jamais alguma máquina poderá substituir no seu esplendor” (MH 15).
Ao concluir a palestra, Frei Luiz Antônio reforçou que a Inteligência Artificial deve ser compreendida como uma ferramenta a serviço da pessoa humana e do bem comum. O tema convida à construção de uma sociedade que saiba utilizar as inovações para promover a vida, a dignidade e a fraternidade, sem perder de vista aquilo que constitui a essência da experiência humana: a capacidade de amar, partilhar e viver em comunhão.
“Nesta carne ferida e amada, o Pai nos mostra a verdadeira humanidade de uma vida que se realiza na abertura e na comunhão, a ponto de nos fazer desejar que a sua vontade se faça assim na terra como no Céu” (MH 231).


