O tempo em que viveu Santo Agostinho foi marcado por profundas mudanças e muitas dificuldades. O Império Romano enfrentava invasões, conflitos internos e divisões também entre os próprios cristãos. Era um tempo de incertezas, de medo e de busca por sentido. Com o passar dos anos, aquele mundo mudou completamente: antigas estruturas desapareceram, e novas realidades culturais e religiosas surgiram.
Foi nesse contexto que Santo Agostinho se tornou uma voz de esperança para o povo de Deus. Diante de pessoas que se sentiam perdidas e saudosas de um passado idealizado, ele ajudou a redirecionar o olhar: não para um retorno ao que já passou, mas para aquilo que permanece para sempre. Ao recordar a história de Roma, Agostinho mostra que a “paz” de outrora também trazia marcas de injustiça. Por isso, ele nos convida a buscar algo mais profundo: a nossa verdadeira identidade na Jerusalém celeste, onde está a paz que não passa.
Em sua obra A Cidade de Deus, Agostinho não oferece respostas fáceis, nem um otimismo superficial. Ele nos apresenta um caminho, inspirado na experiência do povo de Deus nas Escrituras e na vida da Igreja nascente. Os primeiros cristãos, especialmente os mártires, testemunharam com coragem que Jesus é o Senhor. Ao fazerem isso, colocaram Deus acima de qualquer poder humano e reconheceram que sua verdadeira pátria está no céu e que seu Rei é Cristo.
Essa grande visão de Agostinho – que começa na criação e se projeta até a plenitude dos tempos – ajudou muitos povos diferentes a se reconhecerem como um só povo em Deus. Também hoje somos chamados a viver essa unidade, mesmo em meio às diferenças. Vivemos em uma sociedade marcada pela diversidade, pelos encontros de culturas e também pelos desafios de convivência.
Em um mundo muitas vezes polarizado, é fácil cair na tentação de julgar, de se fechar e de alimentar divisões. Podemos nos convencer de que estamos certos e, assim, nos afastar dos outros em vez de construir pontes. No entanto, o Evangelho nos chama a um caminho diferente: o caminho do diálogo, da escuta e da paz.
Como povo de Deus, somos, como disse Jesus, “no mundo, mas não do mundo” (cf. Jo 17,14-16). Vivemos nesta realidade, com seus desafios, mas nosso coração está voltado para Deus. Santo Agostinho nos recorda que somos “companheiros de peregrinação”, caminhantes que partilham a mesma estrada, sustentados por um mesmo amor: o amor a Deus e ao próximo.
Esse amor é o que nos une verdadeiramente. Por isso, somos chamados a testemunhar esse amor em nossas palavras e atitudes, especialmente diante do ódio e das injustiças. Antes de qualquer identidade política, cultural ou social, nossa primeira pertença é a Deus. Quando colocamos Deus no centro, nosso olhar se transforma: tornamo-nos mais atentos ao sofrimento dos irmãos, mais sensíveis às diferenças e mais disponíveis para acolher.
Que esse amor a Deus, que se concretiza no amor ao próximo, desperte em nós um compromisso sincero com a justiça, a fraternidade e a paz. E, como filhos e filhas da espiritualidade agostiniana, possamos caminhar juntos, como peregrinos, buscando sempre a unidade que nasce do amor e conduz à vida plena em Deus.

Frei Caio Pereira, OSA
Promotor Vocacional
Secretário de Animação Vocacional e Juvenil da Província da Consolação