FAJE promove debate sobre a encíclica Magnífica Humanitas, do Papa Leão XIV

A Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) realizou uma live especial dedicada às primeiras impressões sobre a recém-lançada carta encíclica Magnífica Humanitas, do Papa Leão XIV. O encontro reuniu o Frei Luiz Antônio Pinheiro, OSA e o Padre Geraldo De Mori, SJ, com mediação de Milena Medeiros.

O documento, promulgado no contexto dos 135 anos da histórica Rerum Novarum, propõe uma reflexão atualizada sobre a Doutrina Social da Igreja diante dos avanços da inteligência artificial e das novas tecnologias.

Uma visão panorâmica e o estilo de Leão XIV
O Frei Luiz Antônio abriu o painel trazendo detalhes sobre o perfil do pontífice e a estrutura do documento, composto por cinco capítulos. Ele ressaltou o estilo direto do Papa e a abertura cultural da obra, como a linguagem e as referências amplas: “O estilo da encíclica é uma linguagem objetiva direta com frases cultas”. E destacou a curiosidade de o Papa citar autores variados além da tradição eclesial, incluindo Platão, Viktor Frankl, J.R.R. Tolkien (autor de O Senhor dos Anéis) e Maria Montessori.

Também ressaltou que a encíclica não assume uma postura de rejeição à tecnologia. Pelo contrário, convida à reflexão ética sobre seu uso: o Papa propõe discernir a responsabilidade humana na forma como essas ferramentas são desenvolvidas e aplicadas. Outro ponto enfatizado foi o alerta para a concentração de poder no campo tecnológico. A encíclica recorda que a inteligência artificial não é neutra, pois reflete os interesses de quem a cria, financia e utiliza, o que pode reforçar desigualdades e formas de dominação.

A centralidade da experiência humana
Padre Geraldo destacou o olhar antropológico e teológico do texto, especialmente no que se refere à diferença entre a inteligência humana e os sistemas artificiais.

Para ele, a encíclica reafirma que a experiência humana é inseparável da corporeidade: é na concretude da vida, com suas dores e limites, que se constrói o verdadeiro sentido da inteligência. Nesse contexto, ele apresentou uma crítica às correntes transumanistas e pós-humanistas, que buscam superar as fragilidades humanas por meio da tecnologia. Destacou, ainda, que o Papa propõe o reconhecimento da finitude como dimensão essencial da existência, e não como limitação a ser eliminada, mas como abertura ao outro e à transcendência. Diferentemente da lógica algorítmica, que busca eliminar erros, a vivência humana reconhece no erro a possibilidade de transformação e crescimento.

Desafios globais e novas formas de exclusão
Durante a interação com o público, os debatedores também abordaram as implicações sociais e políticas da encíclica. Ao comentar o cenário internacional, marcado por conflitos e disputas de poder, Padre Geraldo De Mori destacou a lucidez do Papa ao criticar a lógica da competição e defender caminhos de paz e cooperação.

Outro tema relevante foi a ampliação dos chamados “3Ts”: Terra, Teto e Trabalho. Para os participantes, a realidade atual exige considerar também a dimensão tecnológica, já que a exclusão digital tem gerado novas formas de desigualdade.

Frei Luiz Antônio chamou atenção para o fenômeno dos “novos colonialismos digitais”, em que o controle das tecnologias por grandes grupos econômicos aprofunda assimetrias globais. Ele também destacou o impacto da automação no mundo do trabalho, com o risco de marginalização de trabalhadores que não acompanham o ritmo das transformações.

Um convite à reflexão e à ação
Ao final da transmissão, os participantes reforçaram que a encíclica não deve ser lida apenas como um texto acadêmico, mas como um chamado à reflexão comprometida com a realidade. O documento convida a sociedade a reconhecer o valor de cada pessoa em um mundo cada vez mais mediado pela tecnologia.

A íntegra da live também está disponível no canal da FAJE, com análises detalhadas sobre os principais pontos da Magnífica Humanitas. Confira: https://www.youtube.com/watch?v=z_yZnyRDFUw

Clique aqui e leia a Carta Encíclica Magnífica Humanitas.