O Papa Leão XIV publicou no dia 25 de maio sua primeira carta encíclica, Magnifica humanitas, na qual aborda a Doutrina Social da Igreja diante dos desafios da era da inteligência artificial. No texto, faz um forte apelo à preservação de “uma magnífica humanidade habitada por Deus”, alicerçada na verdade, na dignidade do trabalho, na justiça social e na paz.
Ao refletir sobre a dignidade da pessoa humana em meio à cultura tecnológica contemporânea, o Papa recorre às obras de Santo Agostinho, especialmente As Confissões e A Cidade de Deus. Entre as citações, destaca-se a conhecida afirmação: “Nos criastes para Vós e inquieto está o nosso coração enquanto não repousa em Vós” (Confissões, I, 1). Com ela, o Papa recorda que o ser humano possui uma sede profunda de sentido e transcendência que nenhuma tecnologia é capaz de satisfazer plenamente. Também retoma a visão agostiniana das “duas cidades”, contrapondo uma sociedade marcada pela soberba, pelo domínio e pela idolatria do poder técnico àquela fundada na fraternidade, na justiça e no bem comum. Ao longo da encíclica, a influência de Santo Agostinho se faz presente na valorização da interioridade, da comunhão e da centralidade do amor como critério para que o progresso permaneça autenticamente humano.
Santo Agostinho descreve a história como o confronto entre dois amores que dão origem a duas formas de viver e de organizar a sociedade: o amor a Deus e ao próximo, e o amor fechado em si mesmo. “Dois amores fizeram as duas cidades: o amor de si até ao desprezo de Deus, a terrestre; o amor de Deus até ao desprezo de si, a celeste” (A Cidade de Deus, XIV, 28). Ainda hoje, esses dois dinamismos disputam espaço no coração humano. A era da inteligência artificial não escapa a essa realidade: a construção de Babel ou de Jerusalém começa em cada pessoa.
A encíclica alerta que a humanidade se encontra diante de uma escolha decisiva: erguer uma nova “torre de Babel”, marcada pela fragmentação, ou construir uma sociedade fundada na comunhão entre Deus e as pessoas. Embora reconheça que a tecnologia não seja um mal em si, o Papa afirma que ela tampouco é neutra, pois expressa interesses humanos. Por isso, conclama todos à corresponsabilidade e ao uso ético da inteligência artificial.
O documento reafirma os pilares da Doutrina Social da Igreja, destacando a dignidade da pessoa humana, os direitos humanos, do nascimento à morte natural, e a valorização das minorias. Entre os princípios fundamentais, ressaltam-se o bem comum, a destinação universal dos bens, a subsidiariedade, a solidariedade e a justiça social. O Papa declara como inaceitável a concentração de tecnologias nas mãos de poucos e qualquer forma de submissão de povos que aprofunde as desigualdades.
No contexto digital, a justiça social exige acesso equitativo às oportunidades, proteção dos mais vulneráveis e enfrentamento da desinformação. O modo como os migrantes são tratados surge como um critério decisivo de fraternidade. A própria Igreja é convocada a um exame de consciência diante de abusos e injustiças.
Leão XIV propõe ainda a elaboração de um código ético para a inteligência artificial, que inclua responsabilidade, regulação adequada e controle público. Alerta para os impactos ambientais das tecnologias e defende a necessidade de “desarmar a IA”, afastando-a de interesses militares, econômicos ou de dominação.
A encíclica também rebate o transumanismo, reafirmando que os limites humanos não constituem falhas, mas elementos da dignidade da pessoa. Nesse sentido, a tecnologia deve estar a serviço do ser humano, sem substituir sua capacidade de relação, liberdade e amor.
Outro aspecto central é a defesa de uma “ecologia da comunicação”, baseada na verdade, na transparência e no uso crítico das tecnologias. O Papa sublinha a importância da educação, da liberdade interior e da proteção dos dados pessoais, advertindo para os riscos de manipulação por algoritmos.
No campo do trabalho, o texto pede a proteção da dignidade humana diante da automação, evitando o desemprego e promovendo sistemas centrados na pessoa. Também denuncia novas formas de exploração e de “escravidão” associadas à economia digital e à extração de recursos.
Ao tratar da paz, Leão XIV é enfático ao afirmar que nenhum algoritmo pode tornar a guerra moralmente aceitável. Critica a corrida armamentista, aponta a crise do multilateralismo e defende a reforma das instituições internacionais com base no diálogo e na cooperação.
Por fim, o Papa propõe a superação da teoria da “guerra justa”, incentivando a diplomacia, o perdão e o diálogo entre povos e religiões. Convida todos a construir uma “civilização do amor”, enraizada na verdade, na justiça e na paz.
A encíclica se encerra com um chamado a viver a era digital à luz do Evangelho, para que, mesmo diante dos avanços tecnológicos, seja possível testemunhar “a beleza de uma magnífica humanidade habitada por Deus”.
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Apresentação da Carta Encíclica “Magnifica humanitas”, na Sala Nova do Sínodo, com a participação do Papa Leão XIV:
Foto de capa: @Vaticannews