Educar como Missão e Esperança: o Pensamento Educativo de Leão XIV em seu Primeiro Ano de Pontificado

O Papa Leão XIV vem demonstrando, de maneira singela, que a educação terá o seu lugar de fala desde o seu primeiro ano de pontificado. Até o presente momento, o seu discurso aponta que a educação deve assumir o estatuto de prática transformadora capaz de intervir em contextos marcados por exclusão, vulnerabilidade e perda de sentido. Assim, o material em que podemos relacionar Sua Santidade e o tema da educação mostra que ele a compreende como uma práxis histórica e relacional, por meio da qual a dignidade humana se torna uma missão concreta e a esperança ganha corpo social e eclesial.

Essas primeiras reflexões surgem de modo especial quando se põe em diálogo a Exortação Apostólica Dilexi te, de 9 de outubro de 2025, e a Carta Apostólica Traçar Novos Mapas de Esperança, de 27 de outubro de 2025. Na primeira, em especial, na seção Magistérium Pauperum, Leão XIV reafirma que o ensino deve ser gratuito e universal e com uma maior atenção aos que habitam as periferias das sociedades (n. 69). O acesso ao conhecimento é apresentado como condição indispensável para que a dignidade humana deixe de ser um princípio abstrato e se realize de forma efetiva no meio da humanidade (n. 72).

A partir dessa reflexão, Sua Santidade propõe uma pedagogia marcada pela integração de crianças migrantes e refugiadas aos sistemas educativos, reconhecendo a escola como espaço de inclusão e reconstrução dos vínculos sociais (n. 75). Essa abordagem encontra aprofundamento na Carta Apostólica Traçar Novos Mapas de Esperança, na qual a educação é definida como “a própria trama da evangelização”. Ou seja, ela é pensada como mediadora entre o anúncio do Evangelho, a cultura e a formação integral da pessoa humana (n. 1.1).

A educação tem ganho uma lógica própria dentro do pensamento de Leão XIV e em seus pronunciamentos de caráter pastorais e celebrativos. Ao dialogarmos com o seu Discurso aos Irmãos das Escolas Cristãs, de 15 de maio de 2025, e a sua Homilia na Missa com os Estudantes Universitários, de 27 de outubro de 2025, durante o Jubileu do Mundo Educativo, evidencia-se a sua compreensão sobre a educação como uma missão eclesial, assim como a superação das formas contemporâneas de esvaziamento intelectual e espiritual.

Especialmente no discurso dirigido aos Irmãos das Escolas Cristãs, o Papa apresentou aos religiosos que o ensino é um serviço e testemunho. Essas duas ações são inseparáveis das dinâmicas evangelizadoras da Igreja, atendendo, assim, à necessidade de diálogo crítico com as transformações históricas.  Agora, na homilia com os estudantes universitários, Leão XIV insistiu na urgência de vencer a “preguiça intelectual” e a “atrofia espiritual” ao afirmar que a universidade deve se apresentar como um espaço de síntese entre o saber, o sentir e a responsabilidade ética. Somente dessa forma, o exercício da razão pode se abrir ao compromisso de transformação com a realidade social.

Essa perspectiva ganha mais força quando se articulam o Discurso aos Estudantes do Jubileu do Mundo Educativo, de 30 de outubro de 2025, e a Homilia da Festa de Todos os Santos, de 1º de novembro de 2025, ambos realizados pelo Papa.No encontro com os estudantes, Leão XIV define a educação como “um dos instrumentos mais bonitos e poderosos para mudar o mundo”. Assim, ele lança o foco para o protagonismo dos educandos chamados a serem sujeitos ativos de sua própria formação. Na Homilia de Todos os Santos, ao proclamar São João Henrique Newman como Doutor da Igreja e corpo-padroeiro da missão educativa eclesial, Leão XIV atribuiu às escolas e universidades um papel antecipador. Ao mesmo tempo, ele as qualifica como “laboratórios de profecia”, onde a esperança é pensada, experimentada e comunicada à sociedade contemporânea.

Como pode-se perceber, o pensamento educativo do Papa estende-se ao âmbito universitário. Essa ênfase torna-se evidente ao considerar o Discurso por ocasião da abertura do Ano Acadêmico na Pontifícia Universidade Lateranense, de 14 de novembro de 2025, e o Discurso à Organização de Universidades Católicas da América Latina e Caribe (ODUCAL), de 1º de novembro de 2025.

No pronunciamento na Lateranense, Leão XIV destaca que a universidade é um espaço privilegiado de estudo, recepção e aprofundamento, também, do magistério pontifício. Dessa forma, ele indica a sua função mediadora entre a tradição eclesial e os desafios do mundo contemporâneo. E, no discurso à ODUCAL, o Papa define as universidades católicas como possíveis “itinerários da mente rumo a Deus” ao integrar a investigação científica, a formação humana e abertura ao transcendente. Assim, também é missão delas um diálogo permanente entre fé, cultura e amor.

A visão do Papa sobre a educação também transparece nas intervenções de caráter ordinário do magistério pontifício. Por exemplo, ao ler a Audiência Geral de 21 de janeiro de 2026 e a Mensagem para o 102º Dia da Universidade Católica, de 19 de abril de 2026, percebe-se que a educação é compreendida como formação contínua no interior da vida eclesial e como espaço estratégico para o futuro da Igreja e da sociedade.

Na audiência geral, embora não dedicada à temática educacional, o Papa se refere à educação como a formação cristã da pessoa e da comunidade. E, na mensagem para o Dia da Universidade Católica, que foi assinada pelo Cardeal Secretário de Estado em nome do Papa, pode-se entender que a educação superior é reafirmada nesse espaço privilegiado, supracitado, de formação intelectual e humana. Assim, o discurso oficial do seu pontificado é que a educação pode ser capaz de promover o pensamento crítico, o compromisso ético e a esperança social.

Enfim, o percurso esquadrinhado para entender a concepção de educação do Papa Leão XIV, em seu primeiro ano de pontificado, encontra seu fundamento mais profundo no traço agostiniano que sustenta a espiritualidade de Leão XIV.

Quando Santo Agostinho afirma que o educador deve adaptar sua linguagem “aos ouvintes com amor fraterno, paterno e materno” e que, no verdadeiro ato educativo, “aprendemos neles o que ensinamos” (A Instrução aos Catecúmenos, 12, 17), ele antecipa uma compreensão empática e relacional do ensino, que ressoa fortemente no modo como o Papa insiste no protagonismo da educação na vida dos educandos e da pessoa humana.

Do mesmo modo, a advertência agostiniana segundo a qual “é realmente difícil continuar falando até o fim proposto quando não vemos comover-se pelo ouvinte” (A Instrução aos Catecúmenos, 13, 18) encontra lugar na crítica de Leão XIV à preguiça intelectual e às práticas educativas que ignoram a participação ativa e a interioridade dos sujeitos.

Por isso, a proposta educativa de Leão XIV oferece critérios sólidos e atualizáveis para os ambientes escolares e eclesiais. A sua atenção ao sujeito concreto, ao primado da relação sobre a técnica, a integração entre razão e fé e a abertura permanente à adaptação pedagógica diante dos contextos reais são missões da educação contemporânea que Leão XIV, desde sua formação agostiniana, entende como lugar de esperança de um mundo mais justo e fraterno. Sempre através da educação.

Frei Arthur Vianna Ferreira, OSA
Pós-Doutor em Ciências da Educação

Artigo publicado na edição especial do Jornal Inquietude On-line, em homenagem ao primeiro ano do pontificado do Papa Leão XIV – 8 de maio de 2026.

Foto: Jubileu do Mundo Educativo – VaticanNews